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REAÇÃO AO BALANÇO

O recado da Vale (VALE3) para mercado: olho no petróleo. Entenda como isso mexe com os dividendos da mineradora

Em teleconferência após o balanço, a Vale explicou a revisão do guidance de custos, detalhou as medidas para limitar os impactos da alta do petróleo e reafirmou a aposta no cobre como motor de crescimento da companhia

Instalações do Complexo Portuário de Tubarão. Na foto, portaria de Camburi, da Vale (VALE3).
Instalações do Complexo Portuário de Tubarão. Na foto, portaria de Camburi, da Vale (VALE3). - Imagem: Márcia Foletto

Apesar da pressão nos custos de produção, a Vale (VALE3) conseguiu superar as expectativas de boa parte do mercado com o balanço do segundo trimestre, divulgado na noite de ontem (30). O desempenho foi impulsionado principalmente pelos preços realizados mais fortes do minério de ferro fino, das pelotas e do cobre, enquanto a divisão de Vale Base Metals (VBM) voltou a apresentar uma sólida performance operacional.

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Mas um fator continua no radar da mineradora para o restante do ano: o preço do petróleo. Isso porque a commodity influencia diretamente o custo do bunker — combustível utilizado pelos navios de carga — e, consequentemente, nas despesas com frete, o que impacta os custos de produção da companhia como um todo.

Durante a teleconferência de resultados, o vice-presidente executivo de Desenvolvimento Comercial, Rogério Nogueira, afirmou que as despesas com frete continuarão sensíveis às oscilações da commodity, embora a empresa tenha mecanismos para reduzir esse impacto.

Tanto que, junto com o balanço divulgado ontem, a mineradora revisou para cima seu guidance de custos para 2026, incorporando um preço médio do Brent mais elevado e uma taxa de câmbio mais apreciada.

Mesmo que o mercado já estivesse esperando algo nesse sentido, o Safra avaliou que a revisão do guidance pesou negativamente. Para o banco, o aumento das projeções de custos e a visibilidade limitada sobre a sustentabilidade da forte geração de caixa do trimestre acabam ofuscando Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) sólido, o que sustenta uma leitura levemente negativa do balanço.

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O BTG Pactual e o Itaú BBA, por sua vez, têm uma visão mais otimista. Para os bancos, o aumento da projeção de custos não trouxe grandes surpresas, já que boa parte dessa revisão já havia sido incorporada às expectativas do mercado.

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Além disso, eles avaliam que a melhora da Vale Base Metals, a geração de caixa e o programa de recompra de ações ajudam a compensar o cenário mais desafiador para a operação de minério de ferro.

O que a Vale está fazendo para se proteger

"O que esperamos daqui para frente dependerá não apenas dos preços do petróleo, mas temos um programa de hedge em vigor", disse Nogueira durante a teleconferência nesta manhã.

Segundo o executivo, cerca de 75% do portfólio de frete da Vale está protegido por contratos de afretamento de longo prazo, o que garante maior previsibilidade dos custos. A empresa também reduziu sua dependência do mercado à vista, onde os preços costumam oscilar mais, e utiliza instrumentos financeiros para limitar o impacto dessas variações.

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A empresa também vem ampliando o uso de embarcações equipadas com scrubbers, sistema que permite utilizar um combustível mais barato do que o bunker de baixo teor de enxofre negociado no mercado.

Segundo Nogueira, isso reduz significativamente o impacto das oscilações do petróleo sobre as despesas de transporte.

Essa estratégia já trouxe resultados no segundo trimestre. De acordo com o diretor financeiro da Vale, Marcelo Bacci, o programa de hedge do petróleo Brent gerou um benefício de aproximadamente US$ 100 milhões no período, o equivalente a uma redução de US$ 1,60 por tonelada no custo all-in do minério de ferro.

Apesar disso, Bacci reconheceu que as medidas não são suficientes para eliminar completamente os efeitos de um petróleo mais caro e de um real valorizado.

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"Embora essas iniciativas não compensem totalmente o impacto do câmbio e dos preços do petróleo no curto prazo, elas são essenciais para melhorar nossa posição de custo estrutural ao longo do tempo", afirmou.

Segundo Bacci, a combinação entre os programas de redução de custos e o aumento da produção em minas mais eficientes, como o S11D, deve ajudar a Vale a compensar parte da pressão provocada pelo petróleo e pelo câmbio, preservando a capacidade de gerar caixa.

E como isso mexe com os dividendos?

A Vale aproveitou a teleconferência de resultados do segundo trimestre para sinalizar que a revisão para cima da projeção de custos não altera a estratégia de retorno ao acionista.

Após anunciar o pagamento dividendos e juros sobre capital próprio (JCP), além da renovação do programa de recompra de até 100 milhões de ações, a administração afirmou que continuará avaliando novas distribuições de capital, desde que a geração de caixa permaneça robusta.

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"O nível de remuneração aos acionistas dependerá da geração de caixa do segundo semestre", afirmou Bacci.

O executivo explicou que a prioridade continua sendo reduzir a dívida líquida expandida, que terminou junho em US$ 16,7 bilhões, em direção ao patamar de referência de US$ 15 bilhões.

Segundo ele, quanto mais a companhia se aproximar desse nível, maior será a flexibilidade para definir a melhor forma de remunerar os investidores, seja por meio de dividendos extraordinários, seja por novas recompras de ações, levando em conta fatores como o preço dos papéis e a eficiência tributária.

Construindo a mineração do futuro

Para além dos custos, os executivos da mineradora também deram um bom destaque para a unidade de metais de transição, considerada uma das grandes avenidas de crescimento da companhia, em especial, o cobre.

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"Continuamos focados na inovação e no desenvolvimento de novas tecnologias que aumentam nossa eficiência, melhoram a segurança, reduzem o impacto ambiental e fortalecem nossa competitividade. Esta é a nossa visão para a mineração do futuro", afirmou Gustavo Pimenta, CEO da Vale, durante a teleconferência.

Além dos projetos já em andamento, a companhia anunciou a antecipação do cronograma de Bakaba, uma nova mina de cobre em Carajás (PA) e o primeiro de uma série de seis projetos que fazem parte da estratégia para ampliar a produção do metal.

Originalmente previsto para entrar em operação no primeiro semestre de 2028, o início do comissionamento agora é esperado para o terceiro trimestre de 2027.

Segundo a Vale, Bakaba terá capacidade de produzir cerca de 50 mil toneladas por ano e é um dos pilares da meta de dobrar a produção de cobre para aproximadamente 700 mil toneladas anuais até 2035.

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O CEO da Vale Base Metals, Shaun Usmar, afirmou que o projeto passou por uma simplificação que reduziu em quase 50% o capital necessário para sua implantação, ao mesmo tempo em que elevou a taxa interna de retorno estimada de cerca de 15% para aproximadamente 70%.

Segundo o executivo, a experiência adquirida em Bakaba deverá ser replicada nos demais projetos da divisão. Nas próximas semanas, a companhia também pretende anunciar oficialmente a expansão da planta de Salobo por meio da tecnologia de flotação de partículas grossas, outro investimento voltado a elevar a produção de cobre com alta rentabilidade.

A aposta da Vale reflete a crescente importância do metal para a estratégia da companhia. Além da demanda estrutural ligada à transição energética, a mineradora vê espaço para destravar valor em um portfólio que, na avaliação da administração, ainda não é plenamente refletido pelo mercado.

Para Pimenta, essas inciativas fazem parte da construção de um negócio mais resiliente e menos dependente das variáveis econômicas.

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A visão dos bancos sobre esse braço do negócio

Tanto Safra, quanto BTG Pactual e Itaú BBA concordam que a divisão segue ganhando importância na estratégia da Vale e ajuda a compensar parte da pressão sobre os custos da operação de minério de ferro.

Cabe lembrar que ontem (30) a companhia também mexeu no guidance para a unidade. A projeção de produção de cobre foi elevada de 350 mil–380 mil toneladas para 360 mil–380 mil toneladas em 2026, enquanto a de níquel passou de 175 mil–200 mil toneladas para 185 mil–200 mil toneladas.

As demais estimativas operacionais permaneceram inalteradas.

O BTG Pactual e Itaú BBA destacam que a melhora operacional do cobre, combinada com a revisão para baixo do guidance de custos e o aumento das projeções de produção de cobre e níquel, neutraliza parte da piora esperada nos custos do minério.

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Já o Safra, embora tenha considerado o desempenho do trimestre abaixo de suas estimativas por conta do níquel, também vê como positiva a revisão das projeções para a divisão, avaliando que a redução dos custos esperados e o aumento do guidance de produção reforçam as perspectivas para os metais básicos nos próximos trimestres.

O que fazer com as ações da Vale?

O BTG Pactual e o Itaú BBA mantêm a recomendação de compra para os papéis, uma visão que não é unânime entre os bancos.

O BTG considera que o resultado do segundo trimestre foi positivo e os temores com custos são exagerados, enquanto o BBA vê a revisão dos custos dentro do esperado e compensada pela melhora na Vale Base Metals.

Já o Safra manteve recomendação neutra para as ações, com uma leitura mais cautelosa sobre o cenário.

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