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Eduardo Campos

Eduardo Campos

Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.

É hoje

O que realmente importa para o seu bolso no governo Bolsonaro

Toda e qualquer premissa de sucesso no lado econômico passa pela agenda de reformas, principalmente a da Previdência

Eduardo Campos
Eduardo Campos
1 de janeiro de 2019
5:17 - atualizado às 18:00
O presidente Jair Bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro em sua posse - Imagem: Marcelo Camargo/Ag. Brasil

Já vimos e ainda vamos ver inúmeras avaliações sobre o que esperar do governo Jair Bolsonaro, que começou nesta terça-feira (1º). Vamos tentar aqui focar no que importa para seu bolso e seus investimentos.

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Toda e qualquer premissa de sucesso no lado econômico passa pela agenda de reformas, principalmente a da Previdência, que deve ser o primeiro grande problema a ser tratado, como nos disse o vice-presidente, general Hamilton Mourão, em recente entrevista.

Sem reforma, o gasto público segue avançando, a dívida pública aumenta para próximo dos 100% do PIB, o teto de gastos é comprometido, o governo perde credibilidade, os prêmios de risco para financiar o Estado sobem, as expectativas de inflação ficam desancoradas, e cria-se um ciclo negativo de baixo crescimento, inflação elevada, piora fiscal e assim por diante.

A realização da reforma abre espaço para que o ajuste das contas públicas continue sendo feito de forma gradual, criando um ambiente favorável à queda nos prêmios de risco, manutenção das expectativas de inflação ancoradas, juro baixo e estável e retomada no ritmo de crescimento da economia.

Esse cenário e suas variações permeiam boa parte das expectativas positivas que temos visto com relação ao comportamento da bolsa de valores, fundos imobiliários e outros ativos de risco. A consolidação dessas expectativas deve reduzir os prêmios dos títulos de longo prazo do Tesouro, como as NTN-Bs. Deixo aqui uma das melhores frases que ouvi de um amigo de mercado se o governo tiver sucesso na sua agenda liberal: "Buy acima de tudo, Deus acima de todos".

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No seus discursos de posse, Bolsonaro tocou no tema das reformas, mas de forma genérica. O presidente afirmou que vai propor e implementar as reformas necessárias, ampliar a infraestrutura, desburocratizar e simplificar, tirando o “peso do governo” sobre quem trabalha e produz.

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Ainda de acordo com Bolsonaro, a confiança, o interesse nacional e o livre mercado pautarão a condução da economia. A fala reforça a carta de intenções já apresentada durante a campanha e o período de transição. Falta, agora, o detalhamento das medidas pela área econômica. Algum aceno pode vir já na tarde desta terça-feira, com a transmissão de cargos ao ministro da Economia, Paulo Guedes.

Impostos

Além da Previdência, o governo também promete rever o sistema tributário. Não há proposta declarada, mas a linha parece ser de simplificação e fim de regimes especiais. Assim, o governo pode acabar mesmo com a isenção para lucros e dividendos tendo como contrapartida uma redução na tributação das empresas.

Nesta mesma linha, produtos de investimento isentos, como LCI e LCA, podem estar na mira. A grande discussão que vai se abrir é se o estoque passaria a ser tributado ou apenas as novas aplicações. Essa mesma briga aconteceu quando o governo tentou tributar os fundos exclusivos e, como todo assunto tributário, há bons argumentos para toda posição que se defenda. Certamente deve acabar na Casa de Suplicação (STF).

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Mais Brasil, menos Brasília

Além dessas reformas macroeconômicas, Bolsonaro promete tirar o governo do pé de quem trabalha e produz. Aqui entra uma avalanche de ajustes microeconômicos ou, como também disse Mourão, desfazer mais do que fazer coisas novas, acabar com normas absurdas, repetitivas e legislações conflitantes.

Um bom exemplo do escopo dessas medidas foi dado pelo próprio presidente, ao “tuitar” que estuda elevar a validade da Carteira Nacional de Habilitação de cinco para 10 anos.

https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1078612784097738753

Até quem não gosta dele comemorou, sinal de que independentemente de bandeira partidária ninguém gosta “de ter com o Estado”, ou seja, é sempre uma chateação, um martírio, fazer qualquer coisa com o Estado, principalmente se o assunto envolver Secretarias de Fazenda e Receita.

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Um bom exemplo de agenda microeconômica que está dando resultado é a “Agenda BC mais”, que traz iniciativas para baratear o custo do crédito, elevar a competição no sistema financeiro e reduzir as inúmeras normas impostas ao sistema financeiro.

O sinal de sucesso, segundo me disse um interlocutor do BC, é dado pelo incômodo que os grandes bancos apresentaram com medidas como portabilidade de salários e fim da trava bancária no cartão de crédito.

Então, quanto maior a gritaria de determinado grupo a cada medida de redução de subsídios, regimes diferenciados, reservas de mercado e outros “justos privilégios”, maior a chance de a coisa funcionar.

Já falei isso antes, mas vale repetir, já que a redução do Estado passa por outro ponto crucial dessa eleição, a corrupção. Roberto Campos cita em seu livro de memórias, “Lanterna na Popa”, um diagnóstico de Guilherme Afif Domingos sobre o tema e que é bastante próximo do que o ministro Paulo Guedes advoga nas suas palestras.

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“A corrupção é sobretudo o excesso de governo e a concentração de poder no triângulo de ferro – a tecnocracia, as empresas cartoriais e os políticos clientelescos. A corrupção é o salário suplementar do funcionário que tem poder demais e acha que tem salário de menos. Desregulamentação e privatizações são por isso a melhor receita de moralidade. Que o digam os regimes comunistas, onde a concentração de poder burocrático institucionalizou a corrupção”, escreveu Campos, sobre a definição dada por Afif.

Oxalá tenhamos cada vez mais Estado onde precisa, como saúde, educação básica e segurança, e cada vez menos nas relações entre as pessoas e no mercado, vendendo gasolina, energia, camisinha e até gelo para pescado (sim tem uma estatal para isso).

Em seu discurso, Bolsonaro destacou que corrupção, privilégio e vantagens “precisam acabar” e que os “favores políticos” devem ficar no passado para que o governo e a economia sirvam à nação. Ele também destacou que conseguiu montar um governo sem conchavos ou acertos políticos e que seus ministros são técnicos e capazes.

Essa tema conversa com outra pauta da agenda de governo, as privatizações. Apesar de alguns desencontros com relação a empresas e setores "estratégicos", a direção é clara, vender ativos que não sejam essenciais ao governo. A confiança do mercado no tema transpareceu na valorização das ações das estatais. O papel ON do BB subiu 50% no ano. Itaú e Bradesco ganharam "só" 30%.

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A Casa do Povo

Quase toda essa carta de intenções que listamos acima precisa passar pelo Congresso. Por isso, desde antes da eleição a relação de Bolsonaro com os deputados e senadores está no centro das atenções do mercado e seus consultores políticos.

Em sua fala no Congresso, Bolsonaro fez um gesto aos parlamentares lembrando de sua trajetória de 28 anos como deputado e convocando os pares a ajudá-lo na “missão de restaurar e reerguer nossa pátria”. Enquanto assinava os termos, Bolsonaro também fez uma brincadeira dizendo que estava se casando com os parlamentares.

Há novos entrantes e velhas raposas que terão de aprender a fazer política depois de 16 anos de cooptação do Legislativo pelo Executivo, seja via troca de cargos, corrupção ou projetos de lei para atender a grupos de interesse.

Assim, o noticiário político e suas entrelinhas devem continuar bastante presentes nas avaliações de mercado. Idas e vindas nas negociações sobre reformas e afins terão reflexo no preço dos ativos.

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Na manhã desta quarta-feira, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni pediu um pacto político entre governo e oposição "por amor ao Brasil". O ministro que será responsável pela articulação com o Congresso também disse que o diálogo será a marca do governo.

Ontem, Bolsonaro tinha pedido um pacto “pacto nacional” entre a sociedade e os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário “na busca de novos caminhos para um novo Brasil”.

O Judiciário também é fonte de atenção, já que canetadas de ministros podem custar bilhões para empresas e contribuintes, como vimos recentemente no caso do reajuste do funcionalismo público e da guerra de liminares sobre as negociações entre Embraer e Boeing. Também há o inconformismo de alguns magistrados com as próprias leis. São frequentes as manifestações contra a já aprovada reforma Trabalhista, que Bolsonaro pretende flexibilizar ainda mais.

Por fim, atenção às denúncias de corrupção e outras falcatruas, pois como disse um amigo, um governo que se elegeu quebrando vidraças, não pode ter um arranhão no seu telhado de vidro.

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