Num dia preguiçoso, o Ibovespa aproveitou para subir e retomar os 98 mil pontos
Sem grandes novidades no noticiário ou dados econômicos de maior relevância, o Ibovespa e as bolsas americanas fecharam no campo positivo e recuperaram parte das perdas recentes

Como todos os dias, o Ibovespa e os mercados financeiros levantaram da cama, espreguiçaram e deram uma olhada nos jornais — é sempre bom saber se algo de relevante aconteceu no cenário político-econômico global durante a madrugada. Mas as manchetes não traziam grandes emoções nesta quarta-feira (28).
"Bom, melhor isso do que ver a guerra comercial piorando novamente", pensaram os mercados, enquanto preparavam um café. Hora, então, de prestar atenção à agenda de dados econômicos, já que algum indicador relevante deve mexer com as negociações hoje, certo?
Errado. Nenhuma informação relevante sobre a atividade econômica, nenhum índice de inflação: nada de muito importante foi reportado nesta quarta-feira em termos de dados, tanto no Brasil quanto no exterior.
Neste momento, os mercados deram um bocejo: começava a ficar claro que o dia seria... vagaroso. Talvez o cenário local serviria para movimentar os ativos por aqui. Só que, assim como todo o restante, o noticiário doméstico também trouxe poucas novidades.
Já deu para entender o recado: a quarta-feira foi um dia preguiçoso nos mercados financeiros. Em meio à ausência e fatores para direcionar as negociações, o Ibovespa e as bolsas americanas aproveitaram para recuperar parte das perdas recentes e fecharam em alta. "Bom, melhor isso do que ver a guerra comercial piorando novamente".
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Mas, em linhas gerais, o pano de fundo segue o mesmo: as incertezas ligadas aos atritos entre Estados Unidos e China seguem elevadas — e os possíveis impactos dessas disputas sobre a economia global — continuam trazendo preocupação aos agentes financeiros.
Mas, ao menos nesta quinta-feira, as bolsas aproveitaram o clima menos tenso para ganhar força: por aqui, o Ibovespa fechou em alta de 0,94%, aos 98.193,53 pontos; em Nova York, o Dow Jones avançou 1,00%, o S&P 500 teve ganho de 0,65% e o Nasdaq subiu 0,38%.
Vale ressaltar, contudo, que o Ibovespa teve um giro financeiro bastante fraco: ao longo da sessão, foram movimentados pouco mais de R$ 13,5 bilhões — o menor volume diário desde 22 de julho. Trata-se de um termômetro da falta de ânimo dos agentes financeiros nesta quarta-feira parada.
O dólar à vista até teve um dia mais movimentado, mas terminou muito perto do zero a zero: ao fim do dia, a moeda americana teve leve alta de 0,01%, a R$ 4,1580. De qualquer jeito, essa é quinta sessão consecutiva de ganhos da divisa em relação ao real.
Nada de novo no front
Analistas e operadores ponderaram que a ausência de novos fatores de pressão deixaram os mercados acionários mais à vontade para recuperar parte do terreno perdido. No entanto, o pano de fundo segue o mesmo: as negociações entre EUA e China não tem mostrado evoluções positivas, o que mantém os agentes financeiros num estado constante de tensão.
Para Leonardo Costa, sócio da DNAInvest, a inversão da curva de juros nos Estados Unidos é um sinal preocupante — o aumento na demanda pelos títulos do governo americano de prazo mais longo indica que os investidores estão receosos quanto às perspectivas econômicas no curto prazo.
"Se há uma sinalização [de que uma recessão pode estar por vir], é essa", diz Costa. Ele ainda ressalta que, embora o noticiário político-econômico não tenha se deteriorado nos últimos dias, tampouco há sinais de alívio mais expressivo no front da guerra comercial. "O mercado está cansado dessas idas e vindas nas negociações".
No front doméstico, os agentes financeiros acompanham a tramitação da reforma da Previdência no Senado. O relator do texto, senador Tasso Jereissati, propôs a retirada de uma mudança no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e de uma alteração em aposentadorias especiais.
Apesar de o noticiário doméstico ficar em segundo plano em relação às tensões globais, um analista pondera que a questão da Previdência pode mexer com o humor do Ibovespa e dos mercados locais, especialmente caso o texto passe a incluir aumentos de impostos para cobrir eventuais desidratações.
"Não será um bom sinal caso as economias que o Estado tenha que fazer diminuam mais", diz o analista. "Não dá para incluir aumento de receita no relatório, há uma certa preocupação com essa possibilidade".
Movimentações no dólar
No mercado de câmbio, o dólar à vista teve uma sessão mais agitada: ao longo do dia, a moeda americana oscilou entre os R$ 4,1315 (-0,63%) e os R$ 4,1675 (+0,24%). Essas movimentações ocorreram em meio à atuação do Banco Central (BC), que tem usado diversas ferramentas para conter a disparada na moeda americana — incluindo um leilão surpresa no segmento à vista de dólar na terça-feira (27).
Na primeira metade do pregão, a autoridade monetária fez quatro operações no mercado de câmbio: colocou US$ 25 milhões dos US$ 550 milhões disponíveis no leilão previamente agendado no mercado à vista — essa transação é conjugada com a oferta de swaps reversos — e, posteriormente, ofertou os US$ 525 milhões restantes via swaps tradicionais.
Além disso, o BC também promoveu a rolagem de linhas com compromisso de recompra — uma espécie de empréstimo das reservas internacionais — no montante de US$ 1,5 bilhão. Todas essas operações, no entanto, foram previamente anunciadas pela instituição.
Assim, a sessão desta quarta-feira não contou — pelo menos até agora — com leilões surpresa, semelhantes ao de ontem. Mas, de qualquer jeito, as indicações de que o BC está atento às oscilações cambiais e disposto a usar quaisquer ferramentas para evitar disfuncionalidades no mercado é suficiente para acalmar os ânimos no dólar.
"O mercado parece estar testando o BC", comenda Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso, ressaltando que, mesmo após todas essas atuações da autoridade monetária, o dólar segue na faixa de R$ 4,15 ou R$ 4,16, nível bastante elevado e próximo das máximas históricas, em termos nominais.
De qualquer maneira, as movimentações do BC fazem com que o real vá na contramão das demais moedas emergentes, que perdem força em relação ao dólar nesta quarta-feira — divisas como o peso mexicano, o rublo russo e o rand sul-africano tem um novo dia de desvalorização.
Juros seguem em alta
Já a curva de juros teve mais uma sessão de alta, dando continuidade ao movimento dos últimos dois dias. Na ponta curta, os DIs com vencimento em janeiro de 2021 subiram de 5,57% para 5,64%; na longa, as curvas para janeiro de 2023 avançaram de 6,66% para 6,75%, e as com vencimento em janeiro de 2025 foram de 7,14% para 7,26%.
Galhardo pondera que a recente escalada no dólar e as atuações do BC no câmbio fazem com que os agentes financeiros recalibrem suas apostas em relação ao ciclo de cortes na Selic. "Para que o Banco Central consiga derrubar os juros, é preciso que não haja pressão inflacionária e o dólar fique estável, mas não num patamar tão alto".
Nesse contexto, parte do mercado já começa a fazer apostas mais conservadoras em relação à próxima reunião do Copom, em setembro: a possibilidade de um corte mais moderado na Selic no mês que vem, de 0,25 ponto, ganha força entre os agentes financeiros.
Petrobras avança
As ações da Petrobras apareceram no campo positivo nesta quarta-feira e deram força ao Ibovespa, pegando carona no fortalecimento do petróleo no exterior, tanto o Brent (+1,52%) quanto o WTI (+1,55%). Nesse cenário, as ações PN da estatal (PETR4) subiram 1,03% e as ONs (PETR3) tiveram ganhos de 0,71%.
Os papéis da Vale e das siderúrgicas também avançaram e contribuíram para dar força ao índice. Apesar das preocupações em relação à China, os ativos desse setor encontram espaço para se recuperar, em meio às perdas expressivas acumuladas desde o início do mês.
Vale ON (VALE3), por exemplo, subiu 0,46%; entre as siderúrgicas, CSN ON (CSNA3) e Gerdau PN (GGBR4) avançaram 0,45% e 1,19%, respectivamente.
Enquanto isso, em Minas Gerais...
O governador do estado, Romeu Zema, afirmou que as privatizações da Cemig, da Copasa e da Gasmig devem ficar para o segundo semestre do ano que vem, ou até para 2021. E os papéis dessas empresas não reagiram bem às declarações.
As ações PN da Cemig (CMIG4) caíram 3,04% e tiveram o pior desempenho do Ibovespa. Fora do índice, Copasa ON (CSMG3) recuou 0,95%.
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