Xeque-mate: não há mais desculpas
Além de questões de cunho estritamente comercial, não há qualquer razão para os fundos da Vitreo não serem alocados no IPO da XP

Escreverei pouco hoje. Os fatos, mais do que as palavras, falam por si. Contra eles, não há argumentos ou narrativas.
Contando aqui rapidamente uma história que você talvez já saiba, venho defendendo formas de o investidor pessoa física brasileiro participar do IPO da XP. Identifico grande atratividade nessas ações e um bom potencial de valorização para os papéis.
No entanto, como a XP optou por fazer sua abertura de capital lá fora, onde, diferentemente do Brasil, não há oferta prioritária de varejo, o investidor, aquele que, na verdade, foi a razão da existência e do sucesso da própria XP, acabou alijado da possibilidade de comprar ações aos preços do IPO.
Simplesmente, não havia meios de o investidor participar da oferta. Ponto final.
Então, como forma de tentar endereçar essa questão, a Vitreo, nossa gestora parceira, criou dois fundos cuja intenção era participar do IPO da XP. O primeiro para investidores qualificados; o segundo para investidores de varejo. Evidentemente, a Vitreo, como qualquer outra gestora, não poderia garantir que seus fundos seriam alocados aos preços do IPO. Essa decisão depende exclusivamente dos coordenadores da oferta — no caso, da própria XP.
Se os fundos da Vitreo não forem alocados aos preços do IPO por decisão dos coordenadores, tudo bem. Ela seguiria com os planos de ganhar exposição às ações da XP, comprando os papéis no mercado depois do início de suas negociações, normalmente. A ideia jamais foi flipar a operação, mas, sim, continuar como um acionista de médio e longo prazo, como forma de capturar o crescimento potencial esperado para a XP.
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É claro, porém, que, se a Vitreo fosse alocada no IPO, seria bem mais interessante. Não pela Vitreo em si. Mas pelos investidores pessoas físicas brasileiros, que foram impedidos de participar da oferta por conta da decisão empresarial da XP de listar suas ações nos EUA. Em termos práticos, os fundos da Vitreo se tornaram a única alternativa possível e viável para o investidor brasileiro ter a chance de participar do IPO da XP — simplesmente não há outra.
A XP reagiu ao movimento. A empresa publicou um documento interno, que, em referência aos fundos da Vitreo, afirmava ipsis litteris : “ressaltamos que tais fundos não serão alocados em eventual procedimento de bookbuilding relacionado ao IPO. Entendemos que há risco de órgãos reguladores interpretarem se tratar de oferta irregular, passível de penalidades, tendo em vista que o potencial IPO da XP Inc. será realizado exclusivamente nos EUA e não será destinado a investidores residentes no Brasil”.
De imediato, manifestei minha opinião de que o argumento da XP era falso e não se consubstanciava na regulação brasileira, sem o devido respaldo jurídico. Peitamos todos que pudemos com esse argumento. A princípio, em vão. Era mais fácil tomar a posição da XP a “face value”. Minha opinião era só… bem... a minha opinião.
Felizmente, hoje não precisamos mais de opiniões. As coisas foram definidas. Game over. Touché.
Com a palavra, a CVM:
“não há restrição para que um ‘fundo brasileiro capte recursos de investidores brasileiros para investir em ofertas públicas no exterior’, em linha com as disposições da Instrução CVM 555.”

Fonte: Money Times
Ou, sob o risco de soar repetitivo, que eu prefiro ao risco de não soar rigoroso, se ainda não tiver ficado claro:
“A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou hoje que fundos de investimento podem captar recursos de investidores brasileiros para investir em ofertas de ações fora do país. ‘Em tese, não há restrição para que um fundo brasileiro capte recursos de investidores brasileiros para investir em ofertas públicas no exterior’, disse a CVM, em nota.”

Fonte: Seu Dinheiro
Dado que a CVM desmontou o argumento da XP para não alocar nos fundos em questão, qual vai ser a desculpa agora?
Além de questões de cunho estritamente comercial, não há qualquer razão para os fundos da Vitreo não serem alocados no IPO da XP.
Tendo a suposta polêmica sido encerrada em definitivo, resta uma única pergunta em aberto: a XP vai alocar ações de seu IPO para os fundos da Vitreo ou vai deixar o investidor pessoa física brasileiro, justamente aquele que ergueu a XP e foi responsável pelo seu sucesso, fora da sua própria abertura de capital?
Faço os mais sinceros votos de que a XP tenha uma atitude digna e grandiosa, agarrando a chance que está lhe sendo dada de corrigir seu erro histórico. Torço, com forças que às vezes temo não dispor mais, pela opção ao primeiro caminho. O mercado de capitais brasileiro não merece o contrário.
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