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2019-06-21T11:50:36+00:00
Victor Aguiar
Victor Aguiar
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa e UBS Escola de Negócios. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência CMA, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico.
Mercados sob pressão

Dólar fecha a R$ 4,03, maior nível desde setembro; Ibovespa cai mais de 1,5%

O estresse tomou conta dos mercados brasileiros nesta quinta-feira. As incertezas no front político local fizeram o dólar fechar acima de R$ 4,00 e quase derrubaram o Ibovespa para a faixa de 89 mil pontos

16 de maio de 2019
10:28 - atualizado às 11:50
Nota de dólar
O dólar chegou a tocar o nível de R$ 4,04 na máxima do dia - Imagem: Shutterstock

Quatro reais.

O dólar à vista já vinha flertando com essa marca há alguns dias, mas, até agora, a moeda americana atingia esse patamar e imediatamente perdia força. Ao fim do dia, sempre ficava abaixo do tão temido patamar.

A história foi diferente nesta quarta-feira (16). O dólar não só terminou a sessão na faixa de R$ 4,00 — ele foi além.

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Em meio a um dia de ampla tensão no cenário político local (mais um), o dólar à vista terminou em alta de 0,98%, a R$ 4,0357. É o maior nível de fechamento para a moeda americana no mercado à vista desde 28 de setembro — portanto, antes do primeiro turno das eleições presidenciais —, quando terminou a R$ 4,0510.

Na máxima desta quinta-feira, o dólar bateu os R$ 4,0416 (+1,12%), maior nível intradiário desde 1º de outubro (R$ 4,0634). Com o desempenho de hoje, a moeda americana acumula alta de 4,25% desde o início de 2019.

O Ibovespa também sofreu com o pessimismo dos mercados em relação ao noticiário local. O principal índice da bolsa brasileira chegou a mergulhar aos 89.788,11 pontos na mínima do dia (-2,01%), mas conseguiu recuperar parte das perdas e encerrou acima dos 90 mil pontos por um fio de cabelo: no fechamento, caiu 1,75%, aos 90.024,47 pontos.

Incertezas

Por aqui, o clima tenso em Brasília e a percepção de que a articulação política do governo segue frágil trouxeram uma onda de pessimismo aos agentes financeiros. Afinal, há diversos focos de preocupação no radar dos mercados — e, na dúvida, uma postura mais defensiva acaba sendo adotada.

Um dos principais pontos de desconforto diz respeito às investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro apontando indícios de que o senador Flávio Bolsonaro — filho do presidente Jair Bolsonaro — teria se utilizado de processos de compra e venda de imóveis para promover lavagem de dinheiro.

Mas não é só isso. A forte adesão aos protestos populares na quarta-feira (15), a falta de apoio do governo no Congresso para votar projetos, a tensão na Câmara durante a audiência do ministro da Educação, Abraham Weintraub, a fraqueza da economia... tudo contribuiu para trazer cautela ao mercado.

"Esse cenário todo esbarra na questão da incerteza", diz Felipe Fernandes, analista da Toro Investimentos. "Quando o mercado não tem uma definição tão concreta quanto ao que pode acontecer, ele desfaz posições na renda variável — e isso impacta diretamente o Ibovespa".

Os mercados temem que a tramitação da reforma da Previdência seja afetada em meio ao tsunami que atinge o cenário político brasileiro nesta semana. Afinal, o otimismo que ditou os rumos do Ibovespa e do dólar nos primeiros meses de 2019 tinha como premissa a perspectiva de aprovação da proposta.

"Aqui dentro, continuamos sofrendo por causa dos ruídos políticos", diz Pablo Spyer, diretor da corretora Mirae Asset. Ele ainda destaca que declarações do diretor-executivo da Fitch Ratings para Brasil e Cone Sul, Rafael Guedes, também contribuíram para aumentar o pessimismo dos mercados.

Segundo o Broadcast, o representante da Fitch disse que a reforma da Previdência, sozinha, não vai resolver os problemas do Brasil, e que, sem crescimento, "o perfil de risco do País vai continuar sendo muito fraco".

Vale traz pressão extra

A turbulência no cenário político local já vinha pressionando o Ibovespa desde o início do dia, mas uma notícia referente à Vale derrubou os papéis da mineradora — e arrastou o índice como um todo.

A companha informou ao Ministério Público de Minas Gerais e outros órgãos do Estado que há uma nova barragem com risco iminente de se romper. Segundo a Vale, "foi verificada uma deformação [...] na Mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais, passível de provocar a sua ruptura".

O documento ainda destaca que "permanecendo a velocidade de aceleração de movimentação do talude norte da Cava da Mina de Gongo Soco, sua ruptura poderá ocorrer no período de 19 a 25 de maio".

As ações ON da Vale (VALE3) vinham apresentando desempenho positivo nesta quinta-feira, beneficiadas pela alta de 2,33% no minério de ferro na China — na máxima do dia, os papéis chegaram a subir 2,04%. No entanto, após a divulgação da notícia, os ativos da empresa viraram para queda e fecharam com baixa de 3,23%.

A notícia provocou uma piora no sentimento dos investidores. Por volta de 15h15, o Ibovespa sustentava-se perto dos 91 mil pontos, mas perdeu força a partir dos desdobramentos envolvendo a Vale e tocou a mínima intradiária, aos 89.778,11 pontos, por volta de 16h45.

E a guerra comercial?

Segue sem grandes novidades e ainda inspira cautela — o Ministério do Comércio da China afirmou que não tem qualquer conhecimento sobre planos dos Estados Unidos para uma visita de autoridades a Pequim para continuar com as negociações comerciais.

Mas, apesar de a guerra comercial continuar no horizonte, as bolsas americanas tiveram um dia positivo: o Dow Jones (+0,84%), o S&P 500 (+0,89%) e o Nasdaq (+0,97%) subiram em bloco. E a chave desse bom humor está na economia americana.

Mais cedo, foram divulgados os dados referentes aos pedidos de auxílio-desemprego no país na semana ate o dia 11. Ao todo, foram 212 mil novas solicitações, abaixo da previsão de analistas ouvidos pelo The Wall Street Journal, de 220 mil.

Além disso, a construção de moradias inciadas nos Estados Unidos subiu 5,7% em abril ante março, também superando as expectativas dos analistas. "Os dados mostrando que a saúde da economia dos EUA está consideravelmente boa dão mais confiança aos mercados", diz Fernandes, da Toro, lembrando que as bolsas de Nova York vinham de quedas expressivas — o que facilita um movimento comprador.

Essa indicação de que a economia americana está forte também influenciou o comportamento do câmbio. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar ante uma cesta com as principais moedas do mundo, passou a tarde em alta.

O dólar também ganhou força ante a maior parte das divisas emergentes, como o peso mexicano, rand sul-africano, peso colombiano e peso chileno. Assim, o exterior teve alguma influência no comportamento do dólar no Brasil, mas analistas destacam que o cenário político interno foi o principal fator para determinar a alta de hoje.

Juros avançam

As curvas de juros ajustaram-se ao comportamento do dólar e à tensão no front local e fecharam em alta nesta quinta-feira. Os DIs com vencimento em janeiro de 2020 subiram de 3,39% para 6,43%, e os para 2021 tiveram alta de 6,84% para 6,92%. Na ponta longa, as curvas com vencimento em janeiro de 2025 foram de 8,61% para 8,72%.

Declarações do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, também contribuíram para o movimento de ajuste nos DIs. Mais cedo, ele defendeu o controle da inflação pela autoridade monetária e que, sem confiança na estabilidade fiscal, é impossível manter os juros num patamar baixo — reforçando a estabilidade da Selic em 6,5% ao ano.

Agressividade

As ações ON da Marfrig (MRFG3) lideraram os ganhos do Ibovespa nesta quinta-feira, em alta de 7,87%. A empresa reportou seu balanço trimestral, mas o que chamou a atenção dos analistas e do mercado foram as projeções agressivas do frigorífico para 2019.

A empresa irá perseguir uma receita líquida consolidada entre R$ 47 bilhões e R$ 49 bilhões neste ano — o que, considerando os pouco mais de R$ 10 bilhões registrados nessa linha nos primeiros três meses de 2019, implica em receitas de cerca de R$ 12 bilhões a R$ 13 bilhões por trimestre até o fim do ano.

Faltou gás

A Ultrapar, dona da rede de postos Ipiranga, reportou lucro líquido de R$ 243 milhões no primeiro trimestre deste ano, um crescimento de 232,8% na base anual. Ainda assim, a cifra ficou abaixo da média das projeções de analistas ouvidos pela Bloomberg, que apontava para um ganho de R$ 257 milhões no período.

Os analistas também mostraram pouco entusiasmo com outros pontos do balanço. Com isso, as ações ON da empresa (UGPA3) fecharam em queda de 4,48%, o quarto pior desempenho do índice.

CSN sorri

O mercado fugiu da Vale e foi correndo para a CSN, numa espécie de movimento de substituição. A lógica é simples: com a Vale sofrendo com problemas e incertezas, a opção é partir para uma empresa semelhante — e a CSN é a empresa que mais se aproxima disso na bolsa brasileira, já que possui operações relevantes no setor de mineração.

Nesse movimento, os papéis ON da CSN (CSNA3) ganharam fórça na reta final do pregão e fecharam em alta de 4,61%, o segundo melhor desempenho do Ibovespa hoje.

Baixa altitude

Com o dólar rompendo a barreira dos R$ 4,00, as ações da Gol e da Azul tiveram um dia bastante negativo. Companhias aéreas, em linhas gerais, sofrem bastante com a valorização da moeda americana, já que boa parte de seus custos é dolarizada.

Com isso, Gol PN (GOLL4) teve a maior queda do Ibovespa, fechando em baixa de 7,41%. Azul PN (AZUL4), por sua vez, recuou 3,84%.

Blue chips recuam

As blue chips — ações de grande peso individual na composição do Ibovespa e liquidez elevada — recuaram em bloco nesta quinta-feira, em meio à tensão que tomou conta dos mercados locais.

As ações PN da Petrobras (PETR4), por exemplo, tiveram queda de 2,36%, enquanto as ONs (PETR3) caíram 1,91%, na contramão do petróleo: no exterior, o Brent fechou em alta de 1,18% e o WTI subiu 1,37%.

Os papéis dos bancos seguiram tom semelhante: Itaú Unibanco PN (ITUB4) recuou 1,29%, Bradesco PN (BBDC4) teve perda de 1,17%, Bradesco ON (BBDC3) caiu 1,81%, Banco do Brasil ON (BBAS3) fechou com baixa de 3,12% e as units do Santander Brasil (SANB11) tiveram queda de 2,60%.

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