A Bula da Semana: Crise política testa agenda econômica
Briga interna no PSL eleva tensão política e pode respingar na agenda econômica, em semana de conclusão da votação da reforma da Previdência

Depois de quase quatro anos no centro das atenções, a reforma da Previdência deve, enfim, ser aprovada nesta semana no Congresso, com os parlamentares eleitos em 2018 avalizando as novas regras para aposentadoria propostas pela equipe econômica de Paulo Guedes. Mas a tramitação da proposta no Senado será um teste de fogo para o presidente Jair Bolsonaro, que está em crise com o seu partido.
Durante o fim de semana, teve uma trégua o racha interno entre bolsonaristas e bivaristas (ala que defende o presidente do PSL, Luciano Bivar) por causa da disputa pelo controle das verbas milionárias dos fundos eleitoral e partidário. Mas a briga ficou feia nos últimos dias, fazendo cair por terra o discurso de “nova política” que o presidente e seus aliados vinham mantendo com a base eleitoral. Para estancar a crise e evitar prejuízos, Bolsonaro pode ser ter de acenar para outros partidos além do MDB, se reaproximando do DEM.
E o mercado financeiro, que ignora toda a confusão, pode acabar sucumbindo a mais essa crise criada pelo Palácio do Planalto, caso ela contamine o andamento da agenda econômica e a aprovação de projetos. Por ora, os líderes do governo na Câmara e no Senado - os dois agora do MDB - tentam blindar os trabalhos legislativos da crise no PSL. Mas o partido rachado pode afetar a articulação do governo no Congresso, que pode mudar pela terceira vez em dez meses.
Nos bastidores, já se fala que, discutidos Previdência e Orçamento, o restante da pauta fica para 2020. Ou seja, reformas tributária e administrativa nem um novo texto para a regra de ouro seriam colocados em debate ainda neste ano. Já o ministro da Economia tenta manter as expectativas dos investidores elevadas, fechando questão com os presidentes Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre para continuar com a agenda econômica assim que a proposta da Previdência for votada. A sessão no Senado está marcada para amanhã.
Empenhados em blindar a pauta econômica dos ruídos políticos, Guedes, Maia e Alcolumbre devem se reunir hoje para discutir os detalhes dos textos das próximas reformas. A previsão é de que tudo possa tramitar em conjunto, sem prioridade nos projetos e dividindo os trabalhos entre as duas Casas, para acelerar o ritmo. Mas alguns devem andar mais rápido. Afinal, a reforma administrativa, que altera as regras do serviço público, tem mais consenso entre os parlamentares do que a reforma tributária.
A aposta é de que a agenda positiva irá ampliar a confiança dos agentes econômicos no país. O problema é que quanto mais o ambiente em Brasília gerar incerteza, mais apreensivo o investidor estrangeiro tende a ficar, com as saídas de recursos externos no Brasil continuando a superar as entradas. Essa falta de apetite dos “gringos” tende a dificultar uma retomada econômica mais consistente, com a agenda de privatizações e o megaleilão da cessão onerosa do pré-sal podendo ser “envenenados” pela cena política.
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Mas o mercado doméstico quer continuar acompanhando à distância a briga interna do PSL, torcendo para que a crise não ganhe mais proporção e que o presidente Bolsonaro não se envolve mais diretamente no assunto. A expectativa é de que a agenda de reformas avance, abrindo espaço para o Banco Central acelerar o ritmo de cortes na taxa básica de juros nas duas últimas reuniões deste ano.
Os investidores estão empolgados com a possibilidade de a Selic cair a 4% ou menos até o próximo ano. Para tanto, o Comitê de Política Monetária (Copom) teria de aumentar a dose, reduzindo o juro básico em 0,75 ponto neste mês e em dezembro, e promovendo uma queda residual, de 0,25 ponto ou quiçá meio ponto, no início de 2020. Essa expectativa pode até levar a Bolsa brasileira rumo a novos topos, mas sustenta o dólar acima de R$ 4,00.
Aliás, a moeda norte-americana vem sendo negociada nessa faixa desde meados de agosto, em uma sequência recorde, refletindo a saída de quase US$ 40 bilhões do Brasil em recursos externos nos últimos 12 meses. Ou seja, desde as eleições presidenciais do ano passado. Diversas razões explicam tal movimento, entre elas, a menor atratividade pelo diferencial dos juros no país em relação ao praticado no exterior.
Por isso, o debate sobre o rumo da Selic tem ganhado força nas mesas de operações. Aliás, o relatório de mercado Focus, hoje, pode trazer novas mudanças nas previsões para as principais variáveis macroeconômicas, ao passo que a prévia da inflação oficial de preços ao consumidor (IPCA-15), amanhã, tende a calibrar as apostas sobre o rumo do juro básico, influenciando na cotação do câmbio no curto prazo.
O indicador é o grande destaque da agenda doméstica nesta semana, que traz ainda o início da temporada doméstica de balanços. Os peso-pesado Vale e Petrobras divulgam seus resultados trimestrais na quinta-feira, depois do fechamento do pregão. Na manhã do dia seguinte, merecem atenção os demonstrativos contábeis da Ambev.
Já no exterior, o calendário econômico também está mais fraco, trazendo como destaque a decisão de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), na quinta-feira. Trata-se da última reunião sob o comando de Mario Draghi, com a ex-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) Christine Lagarde assumindo o lugar dele em novembro.
Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:
Segunda-feira: A semana começa com a agenda econômica esvaziada, trazendo apenas as tradicionais publicações do dia no Brasil, a saber, Pesquisa Focus (8h25) e balança comercial semanal (15h).
Terça-feira: A prévia da inflação de outubro, medida pelo IPCA-15, e a conclusão da votação da reforma da Previdência no Senado, são os grandes destaques do dia no Brasil. Também será conhecido a leitura preliminar do índice de confiança na indústria brasileira. Nos EUA, saem dados do setor imobiliário, enquanto é feriado no Japão.
Quarta-feira: O calendário econômico fraco do dia traz apenas os dados semanais sobre o fluxo cambial no Brasil e novos indicadores do setor imobiliário nos EUA. Já o cartel de países produtores e exportadores de petróleo (Opep) reúne-se.
Quinta-feira: A decisão do BCE e última coletiva de imprensa de Mario Draghi à frente da autoridade monetária são o destaque do dia. Além disso, dados preliminares de atividade na zona do euro e nos EUA em outubro recheiam a agenda, que traz também a sondagem da FGV sobre a confiança do consumidor e a nota de setor externo do BC.
Sexta-feira: A semana chega ao fim com mais uma sondagem da FGV, desta vez, sobre a confiança no comércio, e também com outra nota do BC, sobre as operações de crédito. Também será conhecida a leitura final da confiança do consumidor norte-americano em outubro.
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