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Recebíveis corrigidos pelo INCC, poder de reajuste nos preços e bilhões em estoque ajudam a construtora a se proteger de uma eventual disparada dos custos da construção após a alta do petróleo; CEO Ricardo Gontijo também comentou os resultados do 1T26 da companhia
A Direcional (DIRR3) segue entregando resultados à altura das expectativas do mercado. Na noite de terça-feira (11), a construtora divulgou o balanço do primeiro trimestre de 2026 e conseguiu manter forte rentabilidade e margens saudáveis mesmo em um cenário pressionado pela inflação dos custos de construção, segundo avaliação do BTG Pactual.
No entanto, a guerra do Irã tem sido um fantasma que paira sobre a empresa. Isso porque a disparada recente dos preços do petróleo pode acabar respingando nos custos da construção civil, uma vez que impulsiona a inflação global — um risco que volta a acender o alerta sobre as margens das incorporadoras.
Apesar do risco, o CEO Ricardo Gontijo não parece muito alarmado, pelo contrário. Durante a teleconferência de resultados da companhia nesta terça-feira (12), o executivo fez questão de reforçar que a Direcional já enfrentou crise maior durante o auge da pandemia de covid-19, em 2021, quando a explosão dos custos e os gargalos globais de logística levaram o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) a disparar.
"O que temos visto agora de impacto nos custos provocado pela alta do petróleo não chega perto do que vivemos naquele momento", afirmou.
Segundo o CEO, hoje a empresa também está mais bem preparada. No entanto, a companhia não trabalha com um cenário base de explosão dos custos no curto prazo.
Segundo Gontijo, mesmo com a preocupação do mercado, os impactos efetivamente observados até agora na cadeia da construção civil ainda seguem bastante controlados.
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Por volta das 12h10, as ações da construtora subiam 1,87%, a R$ 13,09. No mesmo horário, o Ibovespa caía 0,89%, a 180.294,34 pontos.
Segundo o executivo, o principal diferencial da Direcional hoje em relação ao período da pandemia está no tamanho da carteira de recebíveis com os quais a empresa conta.
Atualmente, a companhia possui mais de R$ 2,7 bilhões em recebíveis reajustados majoritariamente pelo INCC, sendo cerca de R$ 1,8 bilhão ligados à operação da Riva, subsidiária da construtora, e outros R$ 900 milhões na carteira de pró-soluto da marca Direcional.
"Durante algum tempo, fomos bastante questionados por manter uma parcela relevante das vendas financiada diretamente conosco, mas agora esses recebíveis nos trazem um conforto muito grande contra um eventual incremento dos custos", afirmou Gontijo.
A principal crítica do mercado a esse modelo era justamente o fato de ele exigir mais capital da companhia. Nesse tipo de operação, o cliente paga cerca de 40% do valor do imóvel durante a obra e os outros 60% apenas após a entrega das chaves.
Com isso, a construtora precisa sustentar uma necessidade maior de capital ao longo da execução dos projetos, o que acaba pressionando o retorno sobre o capital investido e tornando a operação mais intensiva em recursos próprios.
Esses recebíveis funcionam como uma espécie de proteção natural contra a inflação da construção civil. Isso porque os valores a receber da companhia sobem junto com o INCC.
Assim, caso o petróleo continue pressionando a inflação e encarecendo as obras, parte relevante das receitas futuras da Direcional também tende a avançar, ajudando a compensar o aumento das despesas e preservando as margens da companhia.
"Hoje temos pouco mais de R$ 5 bilhões em estoque já lançado, majoritariamente em construção. Sempre existe a possibilidade de reajustar os preços dos nossos produtos caso os custos avancem acima do que foi projetado nos orçamentos para a inflação esperada ao longo da obra", afirmou o CEO da Direcional.
O executivo também conta que essa lógica ajuda a explicar por que a companhia opta por trabalhar com uma velocidade de vendas (VSO) mais cadenciada, em torno de 25%, mesmo que parte do mercado considere esse nível abaixo do ideal para maximizar o retorno sobre patrimônio.
Na visão da administração, manter um volume relevante de estoque disponível permite justamente preservar poder de precificação em momentos de maior pressão inflacionária — algo que ganha ainda mais importância diante das preocupações recentes do mercado com os efeitos da disparada do petróleo sobre os custos da construção civil.
Além disso, a companhia possui atualmente cerca de R$ 4,4 bilhões em custos a incorrer nas obras em andamento. Desse total, aproximadamente 62% já estariam “protegidos” pelos mais de R$ 2,7 bilhões em recebíveis corrigidos pelo INCC que a empresa carrega no balanço.
Isso significa que apenas cerca de R$ 1,7 bilhão do custo futuro das obras ainda não estaria coberto por receitas atreladas à inflação da construção. Para essa parcela, a companhia conta justamente com a flexibilidade de reprecificação dos mais de R$ 5 bilhões em estoque disponíveis para comercialização.
Tanto o BTG Pactual quanto o Itaú BBA destacaram os resultados em linha com o esperado. A companhia registrou lucro líquido de R$ 213 milhões no primeiro trimestre, alta de 30% na comparação anual.
"Nós entregamos esse lucro líquido mesmo após o pagamento de R$ 804 milhões em dividendos no mês de dezembro. Ou seja, iniciamos o primeiro trimestre com nível de alavancagem superior o que impulsiona as despesas financeiras. Além disso, também conseguimos entregar esse resultado mesmo após a venda de 15% de participação na Riva", afirmou Gontijo.
A receita líquida da construtora também cresceu 30% no período, para R$ 1,2 bilhão, ficando em linha com as projeções dos analistas. Já o resultado operacional medido pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) atingiu R$ 315 milhões nos três primeiros meses de 2026, alta de 47% em relação ao primeiro trimestre de 2025.
O retorno sobre patrimônio líquido (ROE) anualizado alcançou 39% no trimestre.
A geração ajustada de fluxo de caixa livre, desconsiderando passivos de cessão de crédito e recebíveis com partes relacionadas, ficou positiva em R$ 21 milhões, acima da estimativa negativa de R$ 43 milhões do Itaú BBA.
"O desempenho foi explicado principalmente pelo recebimento de R$ 44 milhões provenientes da venda de Sociedades de Propósito Específico [SPEs] ao longo do trimestre. Excluindo esse efeito, o fluxo de caixa teria vindo praticamente em linha com o esperado", diz o banco em relatório.
A dívida líquida encerrou o trimestre em R$ 613 milhões, equivalente a 24% do patrimônio líquido, praticamente estável na comparação trimestral. Considerando os passivos relacionados à cessão de crédito, esse indicador sobe para 82%.
Tanto o BTG quanto o BBA recomendam a compra dos papéis. Os preços-alvo são de R$ 20 e R$ 16, respectivamente. Considerando o fechamento de terça-feira (11), a R$ 12,85, isso representa potenciais de valorização de aproximadamente 56% e 25%.
"Apesar das preocupações em torno da inflação dos custos de construção, a Direcional segue como a principal escolha do banco no setor", escreve o Itaú BBA em relatório.
Segundo o time, as ações negociam a múltiplos considerados atrativos, de 7 vezes e 5 vezes o lucro ajustado estimado para 2026 e 2027, respectivamente.
A visão positiva é sustentada pela forte execução operacional da companhia e, principalmente, pela menor sensibilidade da Direcional a choques no INCC em comparação com outras incorporadoras do setor.
Além disso, as mudanças recentes no programa Minha Casa Minha Vida devem reforçar o poder de precificação da companhia, ajudando a sustentar as margens em um cenário de demanda mais forte.
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