O que o fim da escala 6×1 mudaria para as PMEs? Saiba como preparar o seu negócio caso a proposta avance
Empresas que operam diariamente e dependem da presença física dos funcionários tendem a sentir maiores impactos. Benefícios aos negócios podem chegar no longo prazo

A discussão sobre o fim ou a redução da escala 6x1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos e folga um — pode trazer efeitos relevantes para pequenas e médias empresas (PMEs) brasileiras.
Em análise no Congresso Nacional, as propostas de mudança na jornada de trabalho têm potencial para alterar a dinâmica de diversos setores, especialmente aqueles que operam com atendimento contínuo ao público.
Atualmente, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não determina uma escala específica, como a 6x1, mas estabelece o limite de 44 horas semanais. Na prática, muitas empresas distribuem essa carga ao longo de seis dias, com jornadas de oito horas de segunda a sexta-feira e meio expediente aos sábados.
Para as PMEs, o principal desafio será se preparar para um cenário que tem chances reais de se concretizar.
Embora a redução da jornada possa trazer ganhos no longo prazo, o impacto inicial tende a ser significativo, sobretudo para negócios que funcionam todos os dias da semana e dependem da presença física dos funcionários.
Quais projetos estão em discussão para reduzir a escala 6x1?
Atualmente, duas propostas de emenda à Constituição tramitam no Congresso Nacional. No Senado, a PEC 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim (PT/RS), prevê a redução gradual da jornada de trabalho para 36 horas semanais ao longo de cinco anos.
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Já na Câmara dos Deputados, a PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL/SP), propõe uma jornada de 36 horas semanais distribuídas em quatro dias de trabalho, com manutenção integral do salário.
Para José Carlos de Souza Filho, professor da FIA Business School, a diferença entre as propostas é determinante para o impacto sobre as empresas.
Segundo o professor, a proposta do Senado “tem mais chances de avançar” e é considerada mais viável do ponto de vista empresarial, justamente por prever um período de transição.
Setores mais expostos à mudança
A redução ou o fim da escala 6x1 tende a afetar de forma mais intensa negócios que dependem de operação contínua e apresentam maior fluxo de clientes nos fins de semana.
“No comércio, como supermercados, farmácias, lojas de varejo e shoppings, a escala 6x1 ajuda a diluir custos fixos, como aluguel e energia, ao longo de mais dias de funcionamento”, afirma Diego Marconatto, professor de empresas de alto crescimento da Fundação Dom Cabral (FDC).
Em bares, restaurantes, padarias e hotéis, a demanda é fortemente concentrada em fins de semana e feriados, o que torna a escala 6x1 ainda mais relevante para sustentar o faturamento, segundo o docente.
“Em serviços, áreas como transporte, logística, limpeza, segurança e serviços administrativos terceirizados também recorrem ao modelo para garantir a continuidade das operações.”
Dados da VR, consolidados até outubro de 2025 com base na análise de 33 mil empresas atendidas pela companhia, reforçam essa concentração.
Segundo o levantamento, os setores que mais utilizam a escala 6x1 são o comércio (49%), seguido por bares e restaurantes (16%), saúde (8%), teleatendimento (5%), serviços administrativos (5%), administração imobiliária e predial (5%), reparação de veículos (4%), transporte (3%) e fabricação (3%).
Na escala 5x2, o comércio ainda lidera, com 30%, seguido por saúde (13%), serviços jurídicos (13%), construção (13%), serviços administrativos (10%), tecnologia da informação (9%), educação (7%) e arquitetura e engenharia (5%).
Por fim, na escala 4x3, os principais setores são comércio (26%), construção (14%), alimentação (13%), saúde (10%), serviços administrativos (9%), educação (8%), administração imobiliária e predial (5%) e serviços jurídicos (5%).
Impactos diretos na operação e nos custos
O efeito mais imediato da redução da jornada para as PMEs tende a ser o aumento de custos. Com menos horas disponíveis por funcionário e manutenção dos salários, as empresas teriam basicamente duas alternativas: contratar mais pessoas ou ampliar o pagamento de horas extras.
Segundo Marconatto, o choque pode ser severo, especialmente se a mudança ocorrer de forma abrupta. Para manter o mesmo nível de funcionamento, muitas empresas precisariam ampliar significativamente seus quadros de funcionários, o que poderia elevar os custos a patamares difíceis de sustentar.
A consequência provável seria o repasse desses custos aos preços, com impacto direto na competitividade das PMEs.
Além do aspecto financeiro, há o desafio organizacional. Escalas mais curtas exigem redesenho das operações, com novos revezamentos, cobertura de fins de semana, gestão mais complexa de ponto, banco de horas e, em alguns casos, renegociação de acordos coletivos.
Outro efeito indireto é o risco de aumento da pejotização. “Diante do encarecimento da contratação via CLT, especialmente para pequenas e médias empresas, pode haver uma migração maior para contratações como pessoa jurídica, como forma de reduzir custos”, alerta Souza Filho.
Efeitos positivos chegam — mas exigem tempo
A possibilidade de melhora na saúde mental dos trabalhadores, redução de afastamentos, maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional e ganhos de produtividade no médio e longo prazo são pontos positivos da mudança.
“Quando bem implementada, a redução de escala pode gerar vantagens competitivas reais, como ganhos em produtividade, maior engajamento, retenção de talentos e saúde mental”, afirma Marconatto, destacando a redução do turnover como um dos principais benefícios.
“Escalas menores também funcionam como diferencial de atração em mercados de trabalho cada vez mais escassos de profissionais qualificados.”
Como as PMEs podem se adaptar ao fim da escala 6x1?
Caso a proposta avance, a forma de implementação será decisiva para a sobrevivência de muitos negócios. Para Souza Filho, se a PEC do Senado for aprovada, o período de cinco anos deve ser usado de forma estratégica. “Esse tempo deve ser aproveitado para planejamento”, afirma.
Isso inclui analisar a estrutura da empresa, o quadro de funcionários, a distribuição de horas e as necessidades operacionais, identificando possíveis lacunas com a redução da jornada.
Um dos primeiros passos é mensurar o impacto financeiro da mudança, calculando o custo de novas contratações ou do aumento de horas extras e avaliando os efeitos sobre o caixa.
A partir desse diagnóstico, as empresas podem buscar melhorias de processos, automação e simplificação de atividades para reduzir a dependência de mão de obra.
Marconatto destaca que a adaptação tende a ser mais eficiente quando feita de forma gradual. A escala 5x2 pode funcionar como etapa intermediária, permitindo reorganizar turnos e testar ganhos de eficiência.
Já a escala 4x3 exige transformações mais profundas, como redesenho de processos, gestão por resultados e mudança cultural. Para muitos setores, modelos híbridos, com folgas rotativas ou semanas alternadas, tendem a ser mais realistas.
Acompanhar de perto a tramitação das propostas é fundamental.
Souza Filho recomenda que empresários busquem informações junto a entidades de classe, associações empresariais e assessorias trabalhistas para se antecipar às possíveis novas obrigações.
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