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Julia Wiltgen

Julia Wiltgen

Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril. Hoje é editora-chefe do Seu Dinheiro.

DEBÊNTURES E BONDS

Renda fixa privada: juro alto é a pedra no sapato dos títulos de dívida de empresas brasileiras; mas no exterior, investidor pode ousar mais

É hora de ser cauteloso em relação ao crédito privado de maior risco no mercado local, mas no exterior há boas oportunidades, dizem gestores

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
31 de março de 2026
18:50 - atualizado às 18:07
Juro alto como pedra no sapato
Juros elevados por tempo prolongado começam a pesar sobre a renda fixa privada. Imagem: Copilot

A virada das expectativas para os juros no Brasil está pesando sobre a dívida das empresas e, consequentemente, sobre o mercado de títulos de renda fixa corporativa local, como é o caso das debêntures.

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Com a guerra no Irã e a alta dos preços do petróleo, o risco de aumento da inflação pressiona o Banco Central a cortar a Selic com mais parcimônia, o que levou o mercado a projetar uma queda mais branda para os juros até o fim do ano.

Mas se juros altos costumam ser positivos para a renda fixa, mantendo a remuneração dos títulos elevada, taxas altas por tempo prolongado já começam a ser deletérias.

Tanto que temos visto resgates nos fundos de crédito privado e vendas de títulos no mercado secundário (com quedas de preços e aumentos de taxas).

Para Eduardo Arraes, sócio da BTG Pactual Asset Management, as taxas de juros elevadas por tempo prolongado são o principal risco para o mercado local de títulos de dívida corporativa hoje.

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“A maioria das empresas estava esperando uma queda maior na taxa de juros. Agora que não tem mais essa expectativa, os investidores estão ficando mais cautelosos em relação ao crédito privado”, disse Arraes durante o evento Global Managers Conference 2026, da BTG Asset.

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Isso porque, depois de algum tempo de Selic alta, as empresas começaram a ter dificuldade de pagar remunerações tão elevadas por seus títulos.

Esse custo não era um problema quando havia expectativa de cortes mais significativos na taxa básica, pois a dívida ficaria mais barata.

Mas com a perspectiva de cortes menos intensos, algumas companhias já começaram a ficar muito alavancadas, e o risco de reestruturações de dívida e recuperações judiciais de fato aumentou.

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“Acho que o risco de refinanciamento [das empresas] ainda não é tão relevante, mas já estamos começando a ver alguma preocupação no mercado secundário, com a venda de nomes com remunerações elevadas, acima de CDI + 6%”, disse Arraes.

É hora de ser cauteloso

Mesmo antes da guerra no Irã, conta o sócio, a BTG Asset já havia começado a reduzir o risco da sua carteira de crédito privado, desconfortável com o nível apertado dos spreads (diferença entre a remuneração dos títulos privados e a dos títulos públicos equivalentes).

Os fundos passaram a carregar mais caixa e títulos de duração mais curta, aguardando uma reprecificação do mercado e uma normalização dos spreads. “Agora, com a guerra, estamos com muito caixa, e tivemos o benefício de poder parar e analisar o mercado, sem precisar vender ativos para honrar resgates”, acrescenta.

Arraes diz que a gestora do BTG está começando a “alocar cautelosamente” em alguns ativos de crédito privado, evitando os títulos high yield (de alto potencial de retorno e maior risco) e empresas emissoras muito alavancadas.

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Também tem tentado não investir tanto nos “triple A óbvios”, títulos reconhecidamente de baixíssimo risco, mantendo-se no meio termo para buscar um retorno melhor, em títulos de rating AA, em sua maioria, ou A.

Em relação a setores, Arraes destaca o imobiliário e o varejo com os mais afetados negativamente com os juros elevados, dadas a sua necessidade de financiamento, indexação ao CDI e intensividade em capital.

Mas o custo da dívida tem afetado outros setores também, lembra o sócio da BTG Asset. É o caso do agro no ano passado, que passou por inúmeras recuperações judiciais, e mais recentemente os setores de saúde e petroquímico.

“É hora de ser mais cauteloso. A maioria dos investidores brasileiros é conservadora e não gosta de volatilidade. Temos sido bem-sucedidos, mesmo face a tantas RJs. Mas temos uma carteira bem diversificada, e não acho que seja hora de investir em nomes de risco para aumentar o carrego. Porque, neste momento, isto significaria aumentar o risco”, disse Arraes, durante o evento da BTG Asset Management.

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No exterior, o cenário é outro, e pimenta na carteira é bem-vinda

Já quando se trata de renda fixa corporativa no exterior, a coisa muda de figura, e o crédito high yield não precisa ser evitado.

No mesmo painel do evento da BTG Asset, Brett Collins, gerente de portfólio de crédito da gestora do banco Nomura defendeu que estamos em um bom ponto de entrada para o crédito corporativo global high yield e que há boas oportunidades.

A gestora trabalha com a perspectiva de que a guerra no Irã irá terminar em breve, uma vez que o conflito e seus efeitos na inflação podem pesar negativamente para o Partido Republicano nas eleições legislativas de meio de mandato, em novembro.

Se este cenário-base da Nomura Asset se concretizar, a casa acredita que 2026 será um ano de crescimento forte para os EUA (alta do PIB na casa dos 3%), mas ainda não tão forte a ponto de frear os cortes de juros pelo Federal Reserve, que deve retomá-los com o fim da guerra.

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O crescimento, defende Collins, deve ser puxado por um fiscal mais frouxo típico de ano eleitoral, juros mais baixos e menos regulação das empresas. A IA também deve começar a ter efeito positivo sobre as margens das empresas que adotam a tecnologia.

Este cenário é favorável para o crédito high yield, permitindo que o nível de calote das empresas emissoras desses bons permaneça baixo, na casa dos 2% em 12 meses, complementa o gestor.

Segundo ele, o carrego médio atual dos títulos high yield está na casa dos 7,5%, muito atrativo considerando uma taxa de inadimplência baixa. Já os spreads estão próximos, mas ainda não chegaram, à mínima histórica, havendo espaço para a valorização dos títulos.

“Historicamente, os spreads do crédito high yield podem ficar apertados por períodos estendidos, e precisa haver um catalisador para eles abrirem. Algo como um cisne negro, ou então uma recessão, mas não vemos isso adiante. Há muitas vias de crescimento nos EUA: investimentos em IA, tecnologia, energia, eletrificação…”, explica Collins.

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Mas não tinha risco de crise nesse mercado?

Para Collins, o maior risco para o mercado de crédito high yield hoje não é a solvência das empresas emissoras, a qualidade dos seus ativos ou a liquidez.

Ele diz que os balanços das empresas estão em “excelente forma” e que os maiores riscos para o crédito high yield hoje são os macroeconômicos, notadamente a guerra no Irã, a qual o gestor acredita que não deve se estender (entenda os motivos nesta matéria).

O mercado também costuma ficar de olho no risco de disrupção do modelo de negócios das empresas pela IA. Mas Collins defende que o mercado de crédito high yield tem histórico de exposição a empresas da velha economia, que não tendem a ser “disruptadas” pela IA, como energia, embalagens e indústria química.

Mas e o risco de crise no mercado de crédito norte-americano em razão da pressão da IA sobre as empresas de software? Collins explicou que, no caso do mercado de títulos high yield, as companhias de software perfazem apenas 3%.

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O risco maior é no mercado privado, em que os ativos não são negociados publicamente, no qual elas correspondem a 20% dos emissores.

Segundo o gestor da Nomura Asset, este mercado também tem menor transparência, pois não há marcação a mercado, então não se tem certeza quanto à real qualidade de crédito das empresas.

“As empresas de menor qualidade de crédito não estão em carteiras high yield, mas em carteiras privadas”, diz Collins.

Para ele, o impacto no mercado high yield de uma crise no mercado privado seria indireta. “Se os investidores precisarem de liquidez ou quiserem reduzir a exposição a crédito, eles tendem a vender os títulos negociados publicamente, não os privados”, disse.

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