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Mais do que um único ingrediente, sabores e processos também prometem marcar o que buscamos na mesa em 2026

Cá entre nós, ninguém parece mais aguentar o pistache. A oleaginosa, até outro dia pouco consumida no Brasil, ganhou os holofotes e migrou dos sorvetes para as pizzas, os panetones e todos os tipos de pratos, incluindo os principais. E em 2026? Teremos uma nova tendência inescapável da gastronomia? Ou transitaremos entre obsessões passageiras, como o morango do amor ou o chocolate de Dubai?
“Nesse mundo onde a gente vive, das redes sociais e da satisfação momentânea, é difícil apontar para uma trend gastronômica tão forte quanto as últimas – a não ser que, como o pistache, haja um grande interesse econômico por trás”, lembra o chef André Mifano. E faz sentido, já que a febre do ingrediente no Brasil foi resultado direto da expansão agrícola americana.

É que a produção excedente para o abastecimento nacional fez os Estados Unidos, um dos maiores produtores mundiais de pistache, pensarem em estratégias ainda mais agressivas para exportação. Com a ajuda de campanhas, muito bem elaboradas aliás, e o poder do TikTok, o mercado brasileiro surfou na onda como nenhum outro.
Apesar disso, as tendências estão aí e, aparentemente, não apontam para um único ingrediente. Mesmo que o Pinterest acredite no repolho (sim, o repolho!) como o novo queridinho, os ventos apontam para diversos caminhos: doumami e da autenticidade de produtos artesanais até, sim, a nova oleaginosa.
Para descobrir, ou pelo menos tentar, quais serão as trends gastronômicas do ano, conversamos com chefs que compartilham os seus palpites e opiniões.

A técnica da fermentação deixou de ser exclusividade de padarias artesanais e ganhou as cozinhas quentes e a confeitaria. Para Heiko Grabolle, do Biergarten Pomerânia, essa é uma tendência forte por conectar saúde e técnica, mas também memória afetiva. É uma visão compartilhada por Veronica Kim, da By Kim Confeitaria, que acredita que a técnica terá ainda mais destaque por brincar com o paladar.
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“Acredito que os fermentados terão mais destaque, pois brincam com o paladar, trazendo muitas possibilidades. Sempre dão aquele fundinho de umami que todos amamos. O famoso não sei o que é, mas está uma delícia!”, diz a chef-confeiteira.

Fábio Sinbo, do Azur do Mar, também observa esse crescimento, citando desde vegetais fermentados até molhos de peixe. Para ele, o público está em busca dessa complexidade, o que abre espaço inclusive para cítricos mais exóticos, como o yuzu e o limão-caviar, que trazem um frescor ácido e aromático ainda pouco explorado no dia a dia.


Pode parecer inusitado, mas o repolho é o vegetal da vez. Pelo menos é o que diz o Pinterest Predicts 2026, relatório que reúne as principais tendências do ano. De acordo com a rede social, o termo e suas variações tiveram um aumento de mais de 100% nas buscas.
“O repolhotem conquistado espaço na gastronomia por reunir versatilidade, textura interessante e alta capacidade de absorção de sabores. Na culinária asiática, é um insumo essencial, presente tanto em preparações reconfortantes quanto em propostas mais leves e vegetais”, diz Takamasa Kurachi, do Ikemen Ramen.

Fábio Lazzarini, do Varanda D.inner, complementa que o vegetal revela camadas complexas, independente do preparo.

“Quando bem trabalhado, o repolho revela múltiplas camadas de sabor, textura e complexidade, seja consumido cru, fermentado, grelhado ou preparado em longos cozimentos. O fato de despontar como uma das tendências de 2026 reflete uma gastronomia mais consciente, focada na valorização do ingrediente em sua essência e na exploração criativa de todo o seu potencial, sem exageros”, afirma.
O resgate da identidade nacional dita o tom das sobremesas. Tiago Fabri, da Casa Fabri, aposta no cupuaçu como o grande protagonista da confeitaria em 2026: “A brasilidade está em alta e esse é um dos principais ingredientes para a confeitaria”.

Ele também aponta a macadâmia como a possível sucessora natural do pistache no mercado mundial de nuts. “Já tivemos o caju, a avelã, a noz-pecã e o pistache. A próxima a ser explorada é a macadâmia”, aposta o chef.

“Na gastronomia, o que vejo como tendência é a defumação. Os grandes chefs da alta gastronomia vêm usando a técnica para construir camadas de sabor nos pratos. É possível explorar desde manteiga e leite defumados até molhos de vegetais, legumes e inclusive frutas defumados”, completa.

Outra aposta é o uso de algas. De acordo com Caique Pallas, do Bacalhau, Vinho & Cia, elas estão deixando o rótulo de “cozinha asiática” para aparecer em caldos, massas e até sobremesas, graças ao seu perfil sustentável, versátil e nutritivo.

“Em 2026, acredito que iremos ver o ingrediente cada vez mais presente em pratos de outros tipos de gastronomia, fazendo cada vez mais parte do nosso cotidiano”, aponta Pallas.


Para além de técnicas e ingredientes, a autenticidade dos manufaturados também deve ganhar força. Carla Pernambuco, do Carlota, aposta na comida artesanal, o que ela define como o oposto do industrializado, focando na qualidade dos ingredientes e no valor humano do alimento.
“É o uso de matérias-primas frescas, naturais e, muitas vezes, locais ou orgânicas com identidade cultural que pode remeter a tradições, costumes e sabores de uma região específica”, diz a chef, que cita queijos produzidos à mão, além de azeites, vinagres e bebidas feitas em pequenos lotes, como cafés especiais torrados artesanalmente.

Essa busca por “verdade” no prato também aparece em experiências imersivas. Fábio Sinbo cita o Projeto A.mar, iniciativa de pesca artesanal que possue longa lista de espera como prova de que queremos, cada vez mais, saber de onde vem o que comemos.
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