“Se acham que estamos satisfeitos com inflação acima de 2%, vão se decepcionar”. O recado de quem decide os juros ao redor do mundo para os investidores
Na reunião dos principais bancos centrais do mundo, realizada nesta quarta-feira (1), em Sintra, Kevin Warsh (Fed), Christine Lagarde (BCE) e Andrew Bailey (BoE) dizem — ou não — o que esperar dos juros daqui para frente

Há menos de 15 dias, Kevin Warsh comandava a sua primeira decisão de política monetária como presidente do Federal Reserve (Fed) e avisava que o mercado operaria no escuro — o banco central norte-americano estaria prestes a romper com o forward guidance, como são conhecidas as pistas sobre a trajetória dos juros de um país.
Na ocasião, os investidores e analistas também interpretaram as declarações de Warsh como uma porta aberta para o aumento da taxa referencial, atualmente na faixa entre 3,50% e 3,75%, ainda em 2026. Nesta quarta-feira (1), o novo chefe do BC dos EUA mandou um outro recado — e, desta vez, não estava sozinho.
"Se acham que estamos satisfeitos com inflação acima de 2%, vão se decepcionar", disse ele em painel do Fórum do Banco Central Europeu (BCE) em Sintra, Portugal.
Embora tenha defendido no evento que uma política de orientação futura (o famoso forward guidance) não é adequada para o momento atual, a declaração é o mais recente sinal de que o aperto monetário está no caminho do Fed, já que o aumento dos juros é a principal ferramenta de qualquer banco central para controlar a disparada de preços.
Em maio, o índice de preços para gastos pessoais (PCE, a métrica preferida do Fed para inflação) subiu 0,4% em relação a abril e 4,1% em 12 meses — mais do que o dobro da meta de 2% do banco central norte-americano.
O núcleo do PCE, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, avançou 0,3% em maio ante abril, e teve alta de 3,4% em maio na comparação anual.
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Na ocasião, muitas casas de análise indicaram que esse provavelmente deve ser o pico da inflação subjacente — aquela baseada no núcleo da inflação — nos EUA. A desaceleração, no entanto, deve ser gradual.
Um dos que segue essa linha de pensamento é Thomas Ryan, economista da Capital Economics para a América do Norte. Segundo ele, a combinação de pressões persistentes — sobretudo em serviços — com a resiliência da atividade e do mercado de trabalho deixa o Fed com pouca escolha a não ser apertar a política monetária.
"Todos nós estamos no ramo de estabilidade de preços. Talvez não seja nosso único negócio, mas se ouvi algo comum nos últimos dias, foi a mente aberta nessas questões de IA [inteligência artificial], mente aberta à produtividade. Mas todos nós olhamos ao redor e vimos que os preços estão altos demais", disse Warsh em Sintra.
Se não ele não deu nenhum sinal sobre o que o BC dos EUA pode fazer na reunião dos dias 28 e 29 deste mês, ele deu alguns detalhes sobre as cinco forças-tarefas que anunciou no mês passado para estudar as diversas funções do Fed.
Segundo Warsh, os membros dos times serão anunciados na próxima semana, e ele espera que os resultados dos grupos de trabalho sejam um bem público.
“Gostaria de usar novas fontes de dados além das agências governamentais”, disse ele, acrescentando que se modelos antigos são um obstáculo para boas políticas, é melhor “se livrar deles”.
"Vamos traçar um novo rumo para podermos tomar melhores decisões", completou.
BCE e o pontapé no aumento dos juros
O evento do BCE em Sintra, Portugal, pode ser descrito como uma conferência de alto nível que reúne os principais decisores de política monetária do mundo. Por isso, os investidores globais acompanham a conferência com lupa.
Falando ao lado de Warsh nesta quarta-feira (1) estavam a presidente do BCE, Christine Lagarde; o presidente do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey; e o presidente do Banco do Canadá, Tiff Macklem.
A anfitriã do fórum explicou por que o BCE foi o primeiro grande banco central do mundo a elevar a taxa referencial em resposta ao choque nos preços de energia causado pela guerra entre EUA e Irã.
Lagarde disse que o banco "teve as circunstâncias perfeitas de política monetária" para o aperto em junho. Na ocasião, o BCE subiu a taxa referencial em 0,25 ponto percentual (pp), passando-a de 2% para 2,25% ao ano.
"Quando você tem sua perspectiva de inflação para cima, sua inflação subjacente para cima, quando a inflação subjacente também indica que ela está acelerando e que você só vai voltar para sua meta de 2% no final de 2028 ... vocês têm a decisão óbvia — e foi tão óbvio que tivemos unanimidade dentro do conselho do Conselho", afirmou.
Mais cedo, dados oficiais mostraram que a inflação geral nos 21 países que usam o euro segue acima da meta de 2%, mas desacelerou. Em junho, o índice de preços da região caiu para 2,8% ante 3,2% em maio, na esteira do arrefecimento dos preços dos alimentos, da energia e dos serviços.
O núcleo do índice, que exclui os preços voláteis de alimentos e combustíveis, recuou de 2,6% para 2,4%, à medida que a inflação dos serviços caiu de 3,5% para 3,2%.
O que muda na economia do pós-guerra
Inglaterra: corte de juros está fora de cogitação
Depois que a guerra entre EUA e Irã fez o petróleo encostar em US$ 120 o barril, alimentando preocupações de disparada da inflação no mundo todo, os sinais das autoridades monetárias globais importam — e podem ditar não só a política monetária no Brasil como o rumo dos investimentos por aqui.
Isso porque juros mais altos nos EUA ou na Europa, por exemplo, podem fazer o dinheiro migrar da bolsa brasileira para esses mercados, afetando o desempenho não só do Ibovespa como das ações por aqui.
Nesta quarta-feira (1), do fórum do BCE em Sintra, o presidente do Banco da Inglaterra (BoE), Andrew Bailey, foi categórico: cortes de juros estão fora de questão no momento.
Segundo ele, a última decisão de manutenção das taxas britânicas, em 3,75% ao ano, sendo respaldada pela economia mais fraca. “Estamos vendo economia e mercado de trabalho se enfraquecendo”, disse.
Assim como Warsh, que questiona o forward guidance, para Bailey, a política monetária está mais restritiva e a orientação futura acabou se tornando "bastante problemática" com o passar do tempo, em meio aos choques econômicos.
O chefe do BoE ainda tratou de um outro assunto espinhoso para o mercado: o crédito privado, que, para alguns, seria o motivo da próxima crise.
“Se você olhar para crédito privado, a pergunta que estamos fazendo é: são essas coisas que realmente podem passar de risco de cauda para uma consequência mais ampla?", questionou.
Neste sentido, Bailey disse que os banqueiros centrais estão monitorando questões que podem gerar risco de cauda e potencialmente desencadear instabilidade financeira.
“Analisamos o aumento da alavancagem nos principais mercados de títulos do governo. Esses mercados mudaram substancialmente”, afirmou.
“[Outra] coisa que vimos nos últimos meses é um aumento da alavancagem nos mercados de ações — você olha para a alavancagem de fundos de hedge nos mercados de ações, olha para a alavancagem nos mercados de fundos negociados em bolsa, essas coisas estão mudando”, acrescentou.
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