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O Banco do Japão elevou a taxa básica para 1% nesta terça-feira (16); entenda o impacto da decisão no iene, nos mercados asiáticos e para quem tem exposição à região

Adeus, dinheiro barato. O Banco do Japão (BoJ) chacoalhou o mercado financeiro global nesta terça-feira (16) ao anunciar um movimento histórico: elevou a taxa básica de juros de 0,75% para 1% ao ano, um patamar que não era visto desde 1995. Para um país que passou décadas ancorado em juros zerados ou negativos, a decisão é um divisor de águas e acende o radar de quem busca lucros ou tem exposição a ativos na Ásia.
Se você investe em fundos, ações ou BDRs (Brazilian Depositary Receipts) ligados ao mercado japonês e asiático de modo geral, o cenário ficou carregado nas tintas.
Para navegar por essa nova era monetária, o Seu Dinheiro destrinchou a decisão, a reação dos mercados e conta o que os analistas projetam para o futuro.
O aumento dos juros japoneses, de 0,25 ponto percentual (pp), não foi unânime — o placar da decisão foi de 7 votos a 1. Toichiro Asada, membro do Conselho do BoJ, votou pela manutenção da taxa.
Segundo Min Joo Kang, economista sênior para Japão e Coreia do Sul do ING, o voto divergente não chega a ser uma surpresa.
"Ele divergiu porque viu que os riscos de baixa para a produção e o emprego superavam os riscos de alta para os preços", diz a economista.
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No entanto, a maioria do conselho preferiu mudar o foco para o combate à inflação.
O BoJ justificou a medida apontando que a economia local se recupera moderadamente e que a inflação subjacente — aquela que desconsidera variações temporárias — corre o risco de acelerar acima da meta de 2%, impulsionada pelos custos de energia e pela fraqueza do iene, que encarece as importações.
Além disso, o vice-presidente do BoJ, Shinichi Uchida, afirmou logo depois da decisão que o ciclo positivo entre o aumento de salários e de preços no Japão está funcionando de forma tranquila.
Mas fez um alerta sobre as mudanças no câmbio: "Os movimentos do iene são um fator importante que afeta a economia e os preços."
Como parte da retirada de estímulos, o BoJ informou que reduzirá a compra de títulos da dívida pública do Japão (JGBs) em 200 bilhões de ienes (US$ 1,5 bilhão) por trimestre até o primeiro trimestre de 2027, momento em que essas reduções serão pausadas.
O objetivo anterior do banco era restaurar a precificação de mercado desses papéis.
Min Joo Kang, do ING, projeta que o yield (rendimento) dos títulos de 10 anos do governo japonês deve subir para 3,0%, podendo tocar temporariamente os 3,10% no início do próximo ano. Hoje, o yield desses papéis rondaram em 2,65%.
Para quem investe na Ásia e, especificamente, em ativos do Japão, o cenário exige atenção a três pontos principais:
1. Ritmo de novas altas será gradual
Apesar de o BoJ manter a porta aberta para novos aumentos de juros caso a economia e os preços exijam, o mercado não vê espaço para um movimento agressivo de subida.
Na visão de Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, a comunicação do banco central mudou sutilmente.
"O BoJ indicou que continuará retirando gradualmente os estímulos, mas a mudança no comunicado sugere que a política monetária já se encontra mais próxima de uma condição neutra, reduzindo o espaço para elevações muito mais agressivas dos juros", diz Spiess.
2. Ambiguidade de prazos e o fator energia
O BC do Japão evitou dar indicações claras de quando será o próximo aumento ou qual será a taxa de juros final desse ciclo.
Min Joo Kang, do ING, aponta que, após ouvir os comentários do vice-presidente do BoJ, "o momento do próximo aumento de juros provavelmente dependerá de quão rapidamente as interrupções no fornecimento de energia serão resolvidas".
Vale notar que as tensões globais diminuíram após o anúncio de um acordo entre os Estados Unidos e o Irã no último domingo (14), reduzindo riscos de uma desaceleração econômica grave, embora a energia siga cara para os padrões do Japão.
O ING projeta um novo aumento de juros apenas para dezembro.
3. Alinhamento político
Uchida, vice-presidente do BoJ, fez questão de demonstrar sintonia com a gestão da primeira-ministra Sanae Takaichi, indicando que a política monetária do BC do Japão e a política econômica do governo estão alinhadas.
De acordo com o ING, a estabilidade do mercado de títulos públicos tornará mais fácil convencer a primeira-ministra a não se opor aos próximos passos de alta.
Apesar de baixos com relação aos juros no Brasil (14,50%) ou nos Estados Unidos (3,50% a 3,75%), o aperto monetário de hoje importa porque o Japão era o maior fornecedor de dinheiro barato do mundo.
Com a taxa subindo, esse "dinheiro fácil" — ou literalmente gratuito, com os juros zerados — tende a desaparecer.
Dinheiro mais caro afeta o carry trade, operação na qual os investidores pegam ienes emprestados a juros baixos para investir em países com taxas altas, como o Brasil.
Se os juros no Japão sobem, essas operações tornam-se menos atrativas, e os investidores retiram dinheiro de mercados emergentes para pagar dívidas no Japão, causando volatilidade global.
Spiess, da Empiricus, diz que a decisão de hoje do BoJ pode atrair recursos para o Japão, além de mexer com o câmbio.
“O iene, que historicamente é uma moeda de financiamento, começa a perder essa característica”, afirma. “O carry trade do iene não morre com o aperto monetário de hoje, mas perde força”, acrescenta.
Ao contrário do que ocorre tradicionalmente quando um banco central eleva juros — o que costuma pressionar as ações para baixo —, as bolsas reagiram de forma distinta na Ásia.
O índice japonês Nikkei alcançou um novo recorde histórico após a decisão. As bolsas da Coreia do Sul e de Taiwan pegaram carona na onda positiva, impulsionadas principalmente pelas empresas do setor de semicondutores.
Depois de superar brevemente a marca de 70 mil pontos, o Nikkei fechou em alta de 0,13% em Tóquio, a 69.404,50 pontos, enquanto o sul-coreano Kospi avançou 2,11% em Seul, a 8.726,60 pontos.
Em outras partes da Ásia, o Taiex registrou ganho de 0,91% em Taiwan, a 45.809,19 pontos, e o Hang Seng caiu 1,40% em Hong Kong, a 24.493,95 pontos.
China e Hong Kong tiveram um desempenho mais fraco. O recuo nessas praças foi motivado por fatores internos locais, como a desaceleração do consumo, incertezas econômicas gerais e a queda nas ações de tecnologia, e não necessariamente pelo movimento japonês.
O Shanghai Composto teve baixa de 0,11%, a 4.091,89 pontos, e o menos abrangente Shenzhen Composto avançou 1,02%, a 2.817,80 pontos.
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