Rombo do FGC bate à porta de banco capixaba: Banestes terá que desembolsar R$ 120 milhões após crise no Master, diz CFO
Mesmo sem exposição direta, banco estatal do Espírito Santo sente efeito do rombo bilionário no sistema; veja o que diz a administração

A crise do Banco Master ainda não terminou de se espalhar pelo sistema financeiro — e já começa a cobrar a conta de todo o setor. Mesmo sem qualquer exposição direta ao conglomerado, o Banestes (BEES3; BEES4), banco estatal do Espírito Santo, sentiu o impacto.
“Não temos nenhuma relação com o Master”, afirmou o presidente da instituição, Amarildo Casagrande, durante encontro anual com investidores realizado nesta quarta-feira (18), em São Paulo.
Porém, mesmo quem está fora do epicentro das crises bancárias acaba absorvendo parte do baque. O executivo reconhece que os desdobramentos da crise — que também atingem o BRB (Banco de Brasília) — são negativos para o sistema financeiro como um todo.
- Leia também: Após rombo bilionário do Master, Banco de Brasília (BRB) tenta captar R$ 8,9 bilhões para reforçar o caixa
“Essa situação para o mercado é ruim. Já impactou o FGC. Os bancos vão ter que fazer aportes para cobrir esse rombo, mas o Banestes está preparado para essas situações”, disse o CEO.
Segundo ele, a instituição conta hoje com uma estrutura de governança mais robusta, o que, na avaliação da administração, reduz riscos semelhantes. “Temos uma governança bastante segura e definida, sem interferência política”, acrescentou.
Conta da crise chega para o Banestes
Mesmo sem relação direta com o Master, o Banestes foi chamado junto aos outros bancos para recompor o caixa do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), em meio a um rombo estimado entre R$ 42 bilhões e R$ 50 bilhões para cobrir investidores afetados pela crise.
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No caso do Banestes, a instituição capixaba teve de antecipar R$ 120 milhões em contribuições.
“Indiretamente, os bancos vão repassar essa conta para os clientes”, afirmou o diretor de relações com investidores (CFO), Silvio Grillo. “A remuneração do CDB pode cair ou o custo do crédito subir, via spread, para compensar essa antecipação.”
O efeito colateral da crise do Banco Master
A crise também provocou uma reação regulatória que acabou atingindo em cheio bancos de médio porte.
Uma decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) passou a restringir investimentos de regimes próprios de previdência social (RPPS) de estados e municípios a instituições classificadas como S1 e S2.
Na prática, bancos de porte S3, como o Banestes, além de instituições S4 e S5, ficaram de fora desse universo.
Para Grillo, o critério adotado foi simplista e a decisão, apressada.
“Entendemos que passar uma régua pelo porte não é o mais adequado, deveria-se olhar a qualidade da gestão”, afirmou.
Acontece que o banco vinha expandindo sua atuação na gestão de recursos desses regimes e, com a nova regra, perderia um canal relevante de distribuição.
Para contornar o prejuízo à sua carteira de fundos, o Banestes obteve uma liminar na justiça que suspende a restrição por 90 dias, permitindo que os fundos continuem aplicando na instituição enquanto o mérito é julgado.
“O Banco Master é S3, mas, pelo ritmo de crescimento que tinha, poderia rapidamente migrar para S2 devido à captação que estava fazendo. Há várias instituições afetadas que são boas gestoras e têm bom rating”, disse o executivo, acrescentando que o banco atua junto a entidades como a Anbima para discutir o tema.
Follow-on no radar do Banestes — mas sem pressa
Outro ponto que segue no radar do mercado é a baixa liquidez das ações do Banestes. Hoje, cerca de 92% do capital está nas mãos do Estado do Espírito Santo, o que deixa menos de 8% em circulação no mercado.
A possibilidade de uma oferta subsequente de ações (follow-on) aparece com frequência nas conversas com investidores, mas, por ora, não há decisão tomada, segundo a administração.
“A questão de emissão de novas ações tem um rito a ser seguido, mas não há nada definido”, disse Grillo.
Na prática, o controlador não tem pressa, afirmou o diretor.
“Ele tem um ativo que paga bons dividendos, não tem dívida — pelo contrário, tem dívida líquida negativa. Então, qual seria o incentivo para vender?”, questionou o executivo.
Segundo ele, uma eventual oferta só faria sentido se estivesse atrelada a um projeto claro de expansão do banco.
Pé no freio no crédito corporativo
No front operacional, o banco também sinaliza uma postura mais conservadora. A estratégia é reduzir o ritmo de crescimento da carteira de crédito para empresas, diante de um ambiente considerado mais arriscado.
“Estamos mais conservadores no segmento de pessoa jurídica devido ao risco maior”, afirmou o CFO.
"Reduzimos a carteira de títulos e valores mobiliários (TVM) privados em 18% devido ao maior risco e menor rendimento de debêntures, dadas as recentes recuperações judiciais no mercado. Fomos mais conservadores", acrescentou.
O fim da “meia-entrada” das fintechs
A competição com players digitais também ocupou parte do encontro do Banestes. Para o banco do Espírito Santo, a assimetria regulatória entre bancos tradicionais e fintechs está perto do fim.
Grillo defende que, por muito tempo, instituições digitais operaram com exigências mais leves de governança e controle — o que criou uma “competição desigual”, nas palavras do executivo.
“Está na hora de um freio de arrumação na regulação para acabar com essa meia-entrada”, disse.
Segundo ele, a flexibilização excessiva permitiu o surgimento de problemas que agora começam a aparecer no sistema.
“Era uma concorrência desleal. Os bancos tradicionais sempre tiveram um nível de controle muito maior. Agora o mercado tende a se equilibrar melhor”, afirmou.
Ao mesmo tempo, o CEO reconhece que a chegada das fintechs teve um papel importante ao acelerar a transformação do setor.
O próprio Banestes se movimentou nesse sentido. Hoje, mais de 90% das transações do banco já são realizadas por canais digitais, segundo a administração.
A aposta agora está no Bizi, a plataforma digital da instituição, como caminho para expandir a atuação para além do Espírito Santo.
A leitura do banco é que, após um período marcado por ofertas agressivas e benefícios gratuitos, o mercado começa a migrar para um modelo mais equilibrado — em que segurança, governança e sustentabilidade voltam a pesar mais na decisão dos clientes.
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