Quase sem vida, mas ainda de pé: o que são empresas zumbis e por que o Brasil lidera esse ranking entre os emergentes
Estudos indicam que quase 14% das empresas abertas no Brasil funcionam sem gerar lucro suficiente para honrar suas dívidas

Elas não estão propriamente vivas, mas tampouco quebraram. Empresas zumbis são aquelas que não conseguem produzir lucro suficiente para pagar o serviço da dívida, mas continuam operando graças a refinanciamentos recorrentes, renovação de crédito ou instrumentos legais que postergam um desfecho inevitável.
O conceito surgiu nos anos 1980, a partir dos estudos do economista Edward Kane sobre bancos fragilizados nos Estados Unidos. Décadas depois, o fenômeno ganhou dimensão global — e o Brasil passou a figurar como líder entre os países emergentes.
Um retrato incômodo do mercado brasileiro
Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Finanças analisou companhias abertas entre 2002 e 2021 e trouxe um dado expressivo: 13,9% delas apresentaram comportamento típico de empresa zumbi ao longo do período.
Esse percentual está bem acima da média dos países emergentes que compõem o índice MSCI Emerging Markets, estimada em 5,49%.
Na sequência aparecem Malásia (11,8%), Turquia (11%), Índia (10,49%) e Filipinas (9,6%). Nenhum deles, porém, se aproxima do patamar brasileiro.
E a tendência é de alta. Em 2002, cerca de 10,32% das empresas listadas no país eram classificadas como zumbis. Em 2021, essa fatia chegou a 17,94%.
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Como os pesquisadores identificam uma empresa zumbi
Para enquadrar uma companhia nessa categoria, a literatura econômica adota dois critérios principais:
- Lucro insuficiente para cobrir, de forma recorrente, as despesas financeiras;
- Alta probabilidade de falência, conforme modelos estatísticos.
No estudo, apenas empresas que apresentaram esse padrão por pelo menos três anos consecutivos foram consideradas zumbis, com base em dados da S&P Global Capital IQ e da Economática.
Empresas mantidas por aparelhos
Um aspecto central é a diferença entre o número de empresas zumbis e os pedidos formais de recuperação judicial. Na prática, muitas seguem operando sem jamais recorrer ao Judiciário.
Essa constatação aparece em um estudo recente divulgado pela Folha de S.Paulo e apresentado pelo economista Caio Szumanski em sua dissertação de mestrado na FGV, que analisou o período de 2010 a 2024.
A conclusão é clara: há fortes indícios de zombie lending, quando bancos optam por rolar dívidas de empresas inviáveis em vez de reconhecer perdas nos balanços. O efeito é uma sobrevida artificial, sustentada pelo crédito.
O custo econômico das empresas zumbis
As consequências vão além das demonstrações financeiras. Segundo Szumanski, empresas zumbis investem cerca de 25% menos do que companhias saudáveis. Também pagam menos dividendos, inovam menos, operam com menor eficiência e entregam produtos de qualidade inferior.
O impacto se espalha pela economia. “Elas comprometem investimentos, elevam custos financeiros e enfraquecem a dinâmica competitiva”, aponta o estudo citado pela Folha de S.Paulo. No limite, criam riscos sistêmicos para a alocação de crédito e para a produtividade do país.
Crises sucessivas alimentam o fenômeno
O avanço das empresas zumbis não é exclusivo do Brasil, mas aqui ele se intensifica por um conjunto particular de fatores.
No plano global, o crescimento desse tipo de empresa acompanha grandes choques econômicos: a crise asiática dos anos 1990, a bolha da internet, o colapso do subprime em 2008 e a pandemia de Covid-19.
No caso brasileiro, esses episódios se somaram a juros estruturalmente elevados e a um sistema de insolvência pouco eficiente.
A Lei de Falências entra na conta
Mesmo após a modernização da legislação, a recuperação de crédito para os credores continua baixa. Segundo o Diário do Comércio, antes da Lei de Falências estimava-se que, a cada dólar devido, o credor recuperava apenas US$ 0,02.
Após a mudança, esse valor subiu para algo entre US$ 0,12 e US$ 0,20 — um avanço relevante, mas ainda distante de países como os Estados Unidos, onde a recuperação varia entre US$ 0,75 e US$ 0,90.
Esse arranjo acaba criando incentivos para postergar o problema.
Por que o Brasil lidera em empresas zumbis
No fim, o Brasil aparece no topo do ranking por uma combinação difícil de desmontar:
- juros elevados por longos períodos;
- sucessão de crises econômicas;
- crédito excessivamente direcionado e renegociado;
- baixa eficiência na execução de dívidas;
- alto custo de reconhecer prejuízos.
O resultado é um mercado em que empresas quase mortas continuam ocupando espaço.
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