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Isabelle Miranda

Isabelle Miranda

Jornalista com pós-graduação em Literatura, Artes e Filosofia. Atua como repórter nos portais de notícias Money Times e Seu Dinheiro, onde também já trabalhou como Analista de SEO.

MORTAS VIVAS

Quase sem vida, mas ainda de pé: o que são empresas zumbis e por que o Brasil lidera esse ranking entre os emergentes

Estudos indicam que quase 14% das empresas abertas no Brasil funcionam sem gerar lucro suficiente para honrar suas dívidas

Isabelle Miranda
Isabelle Miranda
8 de janeiro de 2026
15:16 - atualizado às 15:18
Empresas Zumbi
Empresas -

Elas não estão propriamente vivas, mas tampouco quebraram. Empresas zumbis são aquelas que não conseguem produzir lucro suficiente para pagar o serviço da dívida, mas continuam operando graças a refinanciamentos recorrentes, renovação de crédito ou instrumentos legais que postergam um desfecho inevitável.

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O conceito surgiu nos anos 1980, a partir dos estudos do economista Edward Kane sobre bancos fragilizados nos Estados Unidos. Décadas depois, o fenômeno ganhou dimensão global — e o Brasil passou a figurar como líder entre os países emergentes.

Um retrato incômodo do mercado brasileiro

Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Finanças analisou companhias abertas entre 2002 e 2021 e trouxe um dado expressivo: 13,9% delas apresentaram comportamento típico de empresa zumbi ao longo do período.

Esse percentual está bem acima da média dos países emergentes que compõem o índice MSCI Emerging Markets, estimada em 5,49%.

Na sequência aparecem Malásia (11,8%), Turquia (11%), Índia (10,49%) e Filipinas (9,6%). Nenhum deles, porém, se aproxima do patamar brasileiro.

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E a tendência é de alta. Em 2002, cerca de 10,32% das empresas listadas no país eram classificadas como zumbis. Em 2021, essa fatia chegou a 17,94%.

Leia Também

Como os pesquisadores identificam uma empresa zumbi

Para enquadrar uma companhia nessa categoria, a literatura econômica adota dois critérios principais:

  1. Lucro insuficiente para cobrir, de forma recorrente, as despesas financeiras;
  2. Alta probabilidade de falência, conforme modelos estatísticos.

No estudo, apenas empresas que apresentaram esse padrão por pelo menos três anos consecutivos foram consideradas zumbis, com base em dados da S&P Global Capital IQ e da Economática.

Empresas mantidas por aparelhos

Um aspecto central é a diferença entre o número de empresas zumbis e os pedidos formais de recuperação judicial. Na prática, muitas seguem operando sem jamais recorrer ao Judiciário.

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Essa constatação aparece em um estudo recente divulgado pela Folha de S.Paulo e apresentado pelo economista Caio Szumanski em sua dissertação de mestrado na FGV, que analisou o período de 2010 a 2024.

A conclusão é clara: há fortes indícios de zombie lending, quando bancos optam por rolar dívidas de empresas inviáveis em vez de reconhecer perdas nos balanços. O efeito é uma sobrevida artificial, sustentada pelo crédito.

O custo econômico das empresas zumbis

As consequências vão além das demonstrações financeiras. Segundo Szumanski, empresas zumbis investem cerca de 25% menos do que companhias saudáveis. Também pagam menos dividendos, inovam menos, operam com menor eficiência e entregam produtos de qualidade inferior.

O impacto se espalha pela economia. “Elas comprometem investimentos, elevam custos financeiros e enfraquecem a dinâmica competitiva”, aponta o estudo citado pela Folha de S.Paulo. No limite, criam riscos sistêmicos para a alocação de crédito e para a produtividade do país.

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Crises sucessivas alimentam o fenômeno

O avanço das empresas zumbis não é exclusivo do Brasil, mas aqui ele se intensifica por um conjunto particular de fatores.

No plano global, o crescimento desse tipo de empresa acompanha grandes choques econômicos: a crise asiática dos anos 1990, a bolha da internet, o colapso do subprime em 2008 e a pandemia de Covid-19.

No caso brasileiro, esses episódios se somaram a juros estruturalmente elevados e a um sistema de insolvência pouco eficiente.

A Lei de Falências entra na conta

Mesmo após a modernização da legislação, a recuperação de crédito para os credores continua baixa. Segundo o Diário do Comércio, antes da Lei de Falências estimava-se que, a cada dólar devido, o credor recuperava apenas US$ 0,02.

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Após a mudança, esse valor subiu para algo entre US$ 0,12 e US$ 0,20 — um avanço relevante, mas ainda distante de países como os Estados Unidos, onde a recuperação varia entre US$ 0,75 e US$ 0,90.

Esse arranjo acaba criando incentivos para postergar o problema.

Por que o Brasil lidera em empresas zumbis

No fim, o Brasil aparece no topo do ranking por uma combinação difícil de desmontar:

  • juros elevados por longos períodos;
  • sucessão de crises econômicas;
  • crédito excessivamente direcionado e renegociado;
  • baixa eficiência na execução de dívidas;
  • alto custo de reconhecer prejuízos.

O resultado é um mercado em que empresas quase mortas continuam ocupando espaço.

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