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Enquanto o conflito eleva o preço do petróleo e alimenta apostas no setor petroquímico, analistas afirmam que os maiores desafios da companhia continuam dentro de casa

Em apenas dois dias, as ações da Braskem (BRKM5) foram da maior alta do Ibovespa a uma das maiores quedas. Essa volatilidade vem na esteira de movimentações do outro lado do mundo.
Se até sexta-feira os investidores globais acreditavam que a guerra no Oriente Médio estava arrefecendo, com o fechamento de um acordo de paz no radar, o cenário mudou durante o final de semana.
O Irã informou que o Estreito de Ormuz estava, novamente, fechado para tráfego marítimo por tempo indeterminado, e mísseis atingiram embarcações comerciais e navios petroleiros.
Já os Estados Unidos afirmaram que devem assumir o controle do trecho, por onde passa um quinto de todo o petróleo do mundo, além de cobrar uma taxa de 20% sobre toda a carga transportada na região.
Por isso, na segunda-feira (13) as petroleiras brasileiras subiram na bolsa de valores, junto com a alta do Brent, referência internacional para o petróleo, que chegou a subir 9%. Mas a maior alta veio justamente da Braskem, que foi de 4,68%.
Já no dia seguinte, (14) embora o preço do Brent continue em alta, as ações da Braskem protagonizavam a segunda maior queda do Ibovespa, com perdas de 2,31%.
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Por que a ação da companhia, maior indústria petroquímica das Américas, está tão instável e é tão afetada pelas notícias da guerra?
A lógica parece fazer sentido. Com a redução da oferta de petróleo no mundo, também cai a oferta de produtos feitos a partir de matérias-primas petroquímicas, como os vendidos pela Braskem. Assim, esse valor aumenta e a sua receita tende a crescer.
Na prática, a teoria é sempre outra. Os preços dos produtos até chegaram a subir em decorrência da guerra, diz a S&P Global Energy Platts. Em abril, os preços de PVC, por exemplo, estavam em níveis recordes. No entanto, em julho esses valores já retornaram aos níveis de antes da guerra.
O retorno dos preços aos níveis pré-guerra ocorreu mais cedo do que o mercado esperava. Os conflitos também atrasam as decisões de compra de produtos como resinas, por exemplo, por causarem pessimismo no mercado.
E pode piorar: compradores estão pressionando as negociações com preços baixos e, com estoques elevados, os participantes do mercado afirmam que não há clareza sobre qual será o “fundo do poço”, diz a companhia, que monitora preços no mercado de maneira geral.
"Como líder no setor, sendo a maior petroquímica das Américas, a situação no Estreito de Ormuz tem impacto em suas ações. Mas não é solução definitiva para a empresa", afirmou Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital.
Para a Braskem, sua própria estrutura financeira é mais determinante para o seu balanço e a confiança dos investidores do que o ambiente macroeconômico, diz ele.
Se os produtos vendidos pela Braskem tendem a ficar mais caros, o custo de sua matéria-prima, como a nafta, também encarece. Além disso, o aumento do custo de combustíveis também a afeta, como a todas as companhias, já que o frete fica mais caro.
A companhia diz que, ao contrário de outras indústrias, não corre o risco de sofrer com a falta de matéria-prima. Grande parte da Ásia importa nafta do Oriente Médio, passando justamente pela região bloqueada. Já a nafta que a Braskem usa vem principalmente dos Estados Unidos e da Argélia, e não sofre impacto com os bloqueios no Oriente Médio — além do aumento do custo.
No entanto, a demanda global por resinas e outros produtos continua mais fraca, desde a pandemia.
"A empresa ainda tem muitos problemas internos para dizer que o contexto macroeconômico pode ser um driver para a ação de longo prazo", afirmou o sócio e gestor de renda variável da Paramis Avantgarde, Luciano Boudjoukian Franca. A gestora tem uma posição vendida na Braskem, assim como em outras empresas que apresentam uma situação financeira deteriorada.
Segundo Franca, uma vez que a situação da empresa está tão problemática, qualquer notícia que pode mexer com sua operação acaba tendo um impacto maior em seus papéis.
"Como a empresa está respirando por meio de aparelhos, seria como inalar uma dose maior de oxigênio. Mas não significa que ajuda a empresa a mudar de patamar, ou que ela terá condições de se reerguer com isso", afirma.
A empresa está consumindo caixa, não apenas com sua operação, mas também com os custos de suas dívidas.
No dia 26 de junho, a Braskem recorreu à Justiça e conseguiu uma decisão que suspende temporariamente a cobrança de parte de suas dívidas. Segundo ela, o vencimento de R$ 2,7 bilhões em dívidas previsto para julho, cobradas pelo Banco Safra, poderia desencadear cláusulas de vencimento antecipado de aproximadamente R$ 54 bilhões em obrigações financeiras.
Se ela cumprisse com essa obrigação, faltaria liquidez para continuar operando e até para pagar salários, disse.
A partir do pedido de tutela, ela tem 60 dias de alívio para buscar renegociar suas dívidas e evitar uma recuperação judicial ou extrajudicial.
No entanto, ainda que uma reorganização da dívida da empresa seja essencial para sua continuidade, o plano de reestruturação da petroquímica, batizado de Projeto Catalyst, virou um cabo de guerra entre a tentativa da empresa de preservar caixa e a resistência de quem financiou sua expansão.
O desenrolar da questão de Alagoas também afeta a companhia. No meio de junho, a Justiça Federal aceitou denúncia do Ministério Público Federal (MPF) e tornou a Braskem ré por crimes ambientais relacionados ao caso do afundamento do solo de um bairro em Maceió, afundando também as ações da indústria.
Para Franca, a mudança na governança recente pode trazer mudanças que de fato alterem a governança da empresa. Em abril, a Novonor deixou a Braskem, dando lugar à IG4. A sócia da gestora, a Petrobras, também estaria considerando um aporte de capital em sua controlada, segundo notícias.
Outro alívio para a empresa vem da aprovação do projeto de lei que estende os benefícios do REIQ (Regime Especial da Indústria Química) de março a dezembro de 2026. Com a redução dos impostos pagos na compra de matérias primas, a empresa pode ter um impulso em seu Ebitda.
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