Shein com ainda mais poder de fogo? Por que o IPO da asiática pode tornar a vida das varejistas brasileiras ainda mais difícil
Listagem em Hong Kong deve consolidar a Shein como uma das maiores varejistas de moda do mundo e sinaliza que empresas brasileiras terão de competir cada vez menos no preço e cada vez mais em tecnologia, marcas e experiência do consumidor

Depois de quase dois anos de idas e vindas, a Shein finalmente recebeu sinal verde para abrir capital lá fora. A gigante chinesa recebeu autorização da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China (CSRC) para realizar seu IPO em Hong Kong e deve estrear no mercado já nos próximos meses.
A operação deve avaliar a companhia entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões — abaixo dos US$ 100 bilhões atribuídos em 2022 e dos US$ 66 bilhões da rodada de captação de 2023, mas ainda suficiente para colocá-la entre as maiores empresas globais de vestuário em valor de mercado. Ela já havia tentado abrir seu capital em Londres, em 2024, mas acabou mudando de planos.
Para o consumidor, a operação muda pouco no curto prazo. No entanto, o varejo de moda nacional está bastante atento à movimentação, segundo um relatório do BTG Pactual. Isso porque o IPO tende a dar mais poder de fogo a um rival que já é bastante poderoso.
Para o banco, mesmo após mudanças regulatórias que reduziram parte das vantagens das plataformas estrangeiras, a Shein continua oferecendo preços significativamente inferiores aos das varejistas locais em uma ampla cesta de produtos comparáveis, especialmente nas peças de entrada.
Assim, a pressão deve continuar forte sobre as empresas brasileiras de moda, que precisarão mudar de estratégia para enfrentar a plataforma chinesa, diz o banco.
A guerra de preços já não basta
Em vez de tentar competir apenas por preço, as varejistas brasileiras terão de acelerar o desenvolvimento de produtos, fortalecer suas marcas, investir em canais integrados de venda (omnichannel), ampliar o uso de inteligência artificial para personalização e melhorar a experiência do consumidor.
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Na visão do banco, a próxima fase da disputa será decidida por fatores como eficiência logística, força dos ecossistemas digitais, monetização de marketplaces, comércio impulsionado por criadores de conteúdo e ferramentas de descoberta de produtos baseadas em IA.
O BTG também destaca que o Brasil se consolidou como um dos principais exemplos da capacidade de adaptação da Shein.
Após a implementação do programa Remessa Conforme em 2024 — programa da Receita Federal que passou a exigir o recolhimento de tributos e aumentou o controle sobre compras internacionais —, a empresa reajustou preços, ampliou iniciativas de produção local e reorganizou sua logística para continuar competitiva.
Mais recentemente, a reversão da tributação federal sobre parte das compras internacionais — o fim da taxa das blusinhas, para compras de até US$ 50 — voltou a favorecer a operação da companhia no país.
Os números mostram que o interesse dos consumidores continua crescendo. Segundo levantamento da Sensor Tower citado pelo BTG, os usuários ativos mensais da Shein no Brasil cresceram 34% no segundo trimestre de 2026, o maior avanço entre as principais plataformas internacionais de e-commerce monitoradas.
No mesmo período, o AliExpress registrou crescimento de 27%, o Mercado Livre avançou 17%, a Amazon 16% e a Shopee, 9%.
Para o banco, a combinação de preços agressivos, execução local e uma cadeia de suprimentos altamente eficiente continua atraindo consumidores brasileiros sensíveis ao preço.
Como a Shein chegou até aqui
Fundada em 2008 por Sky Xu, na cidade chinesa de Nanjing, a Shein começou vendendo vestidos de noiva para o mercado internacional antes de se transformar na maior varejista de moda exclusivamente online do mundo.
Hoje, a empresa vende para mais de 160 países, faturou aproximadamente US$ 38 bilhões em 2024 e emprega mais de 16 mil pessoas.
Seu diferencial é a forma como produz suas peças. Em vez de lançar coleções sazonais, a empresa utiliza inteligência artificial, dados de buscas, redes sociais e comportamento de compra para identificar tendências quase em tempo real. Novas peças podem sair da concepção para a produção em apenas três a sete dias, normalmente em lotes iniciais de cerca de 100 unidades.
Apenas os produtos que demonstram boa aceitação voltam a ser fabricados, reduzindo drasticamente o risco de estoques encalhados e liquidações — um modelo bastante diferente do utilizado pelas varejistas tradicionais.
IPO acontece em meio a maior pressão regulatória
Embora continue crescendo globalmente, a Shein chega ao mercado em um ambiente mais complexo. Nos Estados Unidos e na Europa, governos vêm endurecendo regras para importações de baixo valor, fiscalização aduaneira e exigências de conformidade dos produtos.
Ao mesmo tempo, aumentou o escrutínio sobre práticas trabalhistas, sustentabilidade e transparência da cadeia de fornecedores. A competição também ficou mais intensa com a expansão de plataformas como Temu, TikTok Shop e das iniciativas de baixo custo da Amazon.
Mesmo assim, o BTG acredita que a companhia preserva suas principais vantagens competitivas: uma cadeia de suprimentos extremamente ágil, forte uso de inteligência artificial e enorme capacidade de transformar dados em lançamentos de novos produtos.
Como prova dessa estratégia, a empresa anunciou recentemente um investimento de US$ 1,5 bilhão para fortalecer sua rede de fornecedores na província chinesa de Guangdong, além de continuar expandindo seu marketplace para vendedores terceiros, diversificando as fontes de receita e aumentando a eficiência do negócio.
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