Como a Raízen (RAIZ4) chegou até a recuperação extrajudicial? As discussões que levaram a gigante dos combustíveis a renegociar dívidas de R$ 65 bilhões
A maior produtora global de açúcar e etanol de cana já havia dito que estava avaliando a reestruturação da sua dívida e que uma recuperação extrajudicial estava entre as possibilidades

A Raízen (RAIZ4) anunciou um aparente alívio em sua história turbulenta: uma recuperação extrajudicial para renegociar dívidas de mais de R$ 65 bilhões. São credores financeiros de diversos tipos, desde bancos, debenturistas, bondholders, até investidores de CRAs.
Apesar do tamanho histórico da renegociação, o pedido não vem como uma surpresa para o mercado. No começo de março, a maior produtora global de açúcar e etanol de cana já havia dito que estava avaliando a reestruturação da sua dívida e que uma recuperação extrajudicial estava entre as possibilidades. Mesmo assim, as ações da empresa abriram em queda de 3,85%, por volta das 10h40.
Com esse risco em mente, as principais agências de classificação de risco rebaixaram as suas classificações para a empresa de etanol. Isso levou a empresa a realizar um impairment de R$ 11 bilhões e a registrar prejuízo de R$ 15,65 bilhões no terceiro trimestre da safra 2025/2026 (3T26).
A maior parte das dívidas da companhia foi emitida no exterior: 73% estão em dólar ou euro e apenas 27%, em real. A maioria dos pagamentos está concentrada para 2029 em diante.
Ainda que a empresa tivesse uma posição confortável de caixa em relação às dívidas em dezembro, parte relevante desse valor já está comprometido com investimentos, capital de giro, pagamentos de empréstimos e demais despesas financeiras, diz um relatório da XP.
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Raízen cresceu com endividamento alto
A Raízen nasceu em 2011, fruto de uma parceria entre a britânica Shell e a brasileira Cosan (CSAN3). Historicamente, cresceu com aquisições e um alto endividamento.
A maior produtora global de açúcar e etanol de cana também investiu em negócios não relacionados ao seu 'core', como o etanol de segunda geração e a rede de lojas de proximidade Oxxo, em parceria com a Femsa.
No entanto, a partir da safra 2024/2025, o clima começou a pesar para a empresa. Secas, queimadas e excesso de chuva reduziram moagem, produtividade e qualidade da cana-de-açúcar. O impacto no Ebitda foi de 30%.
Os juros altos também aumentaram significativamente suas despesas financeiras. Como consequência, a empresa reportou fluxo de caixa negativo em diversos trimestres, chegando a quase R$ 2 bilhões de queima no 3T25/26.
O caminho da Raízen até a recuperação extrajudicial
No fim de 2024, o Grupo Cosan passou por uma reestruturação corporativa do alto escalão, que resultou na chegada de um novo CEO para a produtora de biocombustíveis.
Ex-diretor presidente da holding Cosan, Nelson Gomes chegou à Raízen com um mandato claro de ajudar a empresa a navegar no plano de desalavancagem.
“Nós percebemos, ao longo dos últimos meses, uma clara necessidade de ajuste de rota no portfólio da Raízen e da maneira como a companhia vem conduzindo seus negócios”, disse o presidente da empresa à época.
“Ao longo dos anos, nós nos afastamos do nosso core business. Criamos uma série de iniciativas periféricas que acabaram tomando atenção do management, crescendo e tornando a estrutura talvez complexa demais para que o mercado entenda todas as fontes de receita do portfólio”, afirmou.
A reestruturação das dívidas com credores acontece após consecutivos trimestres de forte pressão para a companhia — tanto para as ações na bolsa quanto do lado das finanças.
Desde que os problemas se intensificaram, o mercado passou a cobrar que a empresa se mantivesse no curso da desalavancagem e contenção de gastos, a fim de melhorar a geração de caixa e a rentabilidade.
Assim, a Raízen acelerou a venda de ativos e levantou R$ 5 bilhões nos últimos 12 meses. Ela também encerrou sua joint venture com a mexicana Femsa, no Grupo Nós, deixando de ser sócia da rede de mercados Oxxo no Brasil no ano passado. A venda de ativos na Argentina deve ser fechada até o final deste ano.
Mas os desinvestimentos não foram o suficiente e uma ajuda dos controladores era vista como essencial para a continuidade do negócio.
Discussões entre controladores
Nos últimos meses, os controladores da Raízen travaram profundas negociações sobre aportes para fortalecer a liquidez da empresa. Entre as discussões, estavam os valores que cada sócio aportaria, além dos formatos nessa injeção de capital.
De um lado, a Shell defende um aumento de capital para fortalecer a estrutura financeira da companhia. Do outro, a Cosan (CSAN3) avalia que o modelo colocado sobre a mesa não enfrenta o verdadeiro problema da empresa.
Em teleconferência de resultados ontem (10), o CEO da Cosan, Marcelo Martins, afirmou que a holding decidiu não acompanhar a capitalização da Raízen nos termos atuais. Segundo Martins, as discussões sobre o futuro da Raízen chegaram a consumir entre 60% e 80% de sua agenda nos últimos meses.
Hoje, a Raízen reúne dentro do mesmo grupo operações bastante diferentes, que vão da produção de energia renovável à distribuição de combustíveis, o que torna mais difícil encontrar soluções financeiras duradouras.
“A não separação dos negócios de energia e distribuição na Raízen é um problema”, disse, durante a teleconferência.
Outro fator que pesou na decisão da Cosan é a própria situação financeira da holding. Quando a empresa anunciou seu próprio aumento de capital, que trouxe BTG Pactual e Perfin como novos sócios, já havia sinalizado ao mercado que os recursos captados não seriam direcionados para a Raízen.
A prioridade da companhia continua sendo reduzir o endividamento da própria holding. “Desde o início deixamos claro que havia limitações para utilizar esses recursos na Raízen”, afirmou.
O aporte atualmente na mesa é de R$ 4 bilhões. A maior parte desse valor virá do grupo britânico Shell, que se comprometeu com uma injeção de R$ 3,5 bilhões. Outros R$ 500 milhões virão de um veículo controlado pela Aguassanta Investimentos S.A., ligada à família de Rubens Ometto Silveira de Mello, acionista controlador da Cosan.
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