Empresas brasileiras têm mesmo que valer menos do que as dos EUA — e o antídoto contra o ‘risco Brasil’ é só um, dizem gestores de venture capital
Em painel no Web Summit Rio 2026, investidores de algumas das principais gestoras de venture capital da América Latina explicam por que startups brasileiras recebem valuations menores que as norte-americanas, quais empresas conseguiram romper fronteiras e os erros mais comuns na busca por expansão internacional

Que é praticamente impossível para uma empresa brasileira ser avaliada em pé de igualdade com uma norte-americana não é segredo para nenhum empresário ou investidor.
Até porque, quando o mercado estabelece o chamado valuation de uma companhia, o risco político e econômico do país e da própria América Latina acaba por atrapalhar os preços, o que nos coloca em desvantagem.
"As empresas latino-americanas precisam ser avaliadas em níveis inferiores aos das empresas norte-americanas ou europeias. É absolutamente natural e é assim que tem que ser", afirmou Marcello Gonçalves, cofundador da Domo Venture Capital, durante um painel no Web Summit Rio 2026.
Para ele, o remédio para isso é justamente a internacionalização. Na avaliação dele, empresas que conseguem gerar receita em dólar e conquistar clientes fora do Brasil tendem a receber avaliações mais elevadas do mercado.
O desafio, segundo Gonçalves, é que muitos empreendedores acabam se acomodando com o tamanho do mercado brasileiro e deixam de explorar oportunidades globais, mesmo quando possuem produtos com potencial para competir internacionalmente.
"Em geral, os empreendedores brasileiros pensam que o Brasil já é grande o suficiente e não têm ambição de se tornarem globais. Alguns também simplesmente não têm a preparação ou a formação adequadas para competir internacionalmente", disse.
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O Seu Dinheiro está acompanhando a programação o Web Summit Rio 2026 diretamente da cidade do Rio de Janeiro, até o dia 11 de junho. Leia mais destaques do evento:
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Mas isso não impediu alguns empreendedores brasileiros
Nos últimos anos, startups fundadas no país passaram a conquistar clientes no exterior, abrir operações em novos mercados e até mesmo nascer já com vocação global.
Wellhub (antiga Gympass); Traction, startup de software empresarial; Brex, fintech especializada em soluções financeiras; e a Music AI, companhia que desenvolve ferramentas de inteligência artificial voltadas para áudio e música, foram alguns exemplos citados.
Na avaliação dos investidores, esse movimento representa uma nova etapa de maturidade do ecossistema latino-americano.
Se há uma década a principal discussão era se seria possível construir uma indústria relevante de venture capital — aquele investimento necessário para dar o impulso inicial em uma companhia com potencial de crescimento — na região, hoje o debate gira em torno da capacidade de criar empresas capazes de competir globalmente.
"Há 10 anos a discussão era se o venture capital era possível na América Latina. Agora estamos discutindo se podemos nos expandir globalmente", afirmou Marcelo Lima, sócio da Monashees, uma das mais antigas gestoras de capital de risco do Brasil e da América Latina.
Segundo Lima, a evolução aconteceu em etapas. Primeiro, surgiram startups inspiradas em modelos de negócios que já funcionavam nos Estados Unidos e em outros mercados desenvolvidos. Ou seja, algo parecido com um "copia e cola".
Depois, veio uma geração de empresas focadas em resolver problemas específicos da América Latina. Agora, cresce o número de companhias que conseguem transformar essas soluções em produtos exportáveis.
Parte dessa transformação tem sido impulsionada pela inteligência artificial, que reduziu os obstáculos para o desenvolvimento de produtos com alcance global.
Segundo Izabel Gallera, sócia da Canary, fundo de investimentos que investe em startups na região, criar soluções capazes de competir internacionalmente está cada vez mais fácil, mas desafios como distribuição, vendas e acesso a clientes continuam sendo determinantes para o sucesso de uma expansão internacional.
Do Brasil para o mundo: como sair do 'quintal'
Mesmo que se internacionalizar seja o 'antídoto contra o risco Brasil', não dá para fazer por fazer.
Segundo os investidores, um dos erros mais comuns entre fundadores é enxergar esse passo apenas como uma forma de atrair capital estrangeiro ou aumentar o valuation da empresa. Quando a expansão acontece por esse motivo, as chances de o plano dar errado aumentam consideravelmente.
"Se você está fazendo isso apenas para captar recursos, normalmente vai fracassar. A razão precisa ser a ambição, a capacidade de expandir o produto e a conexão disso com o plano de longo prazo da companhia. Não basta enviar um funcionário júnior para abrir uma operação em outro país e esperar que ela funcione sozinha", afirmou Lima.
Quando uma companhia decide atravessar fronteiras, o projeto precisa contar com atenção direta dos fundadores, investimento de tempo e recursos adequados para aumentar as chances de sucesso.
Outro ponto destacado foi o momento da expansão. Embora não exista uma regra única, a recomendação é que as startups validem primeiro seu modelo de negócios em um mercado antes de tentar operar em vários países simultaneamente.
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