Cosan (CSAN3) trava queda de braço com Shell sobre capitalização da Raízen (RAIZ4): “Formato atual não resolve”, diz CEO
Cosan diz que modelo proposto não ataca o nó estrutural da Raízen e defende mudanças mais profundas na companhia de energia e combustíveis

A tentativa de reforçar o caixa da Raízen (RAIZ4) acabou escancarando um impasse entre suas duas controladoras. De um lado, a Shell defende um aumento de capital para fortalecer a estrutura financeira da companhia. Do outro, a Cosan (CSAN3) avalia que o modelo colocado sobre a mesa não enfrenta o verdadeiro problema da empresa.
Em teleconferência de resultados nesta manhã, o CEO da Cosan, Marcelo Martins, afirmou que a holding decidiu não acompanhar a capitalização da Raízen nos termos atuais.
Na avaliação da companhia, a proposta não resolve uma questão estrutural que, segundo o executivo, continua no centro das dificuldades da empresa.
“Não estamos participando do aumento de capital na Raízen, por entendermos que não resolve”, disse o executivo.
A divergência surge após meses de negociações entre as duas sócias, que controlam a empresa em partes iguais.
Segundo Martins, as discussões sobre o futuro da Raízen chegaram a consumir entre 60% e 80% de sua agenda nos últimos meses — mas ainda não resultaram em um consenso sobre o caminho para reorganizar a estrutura financeira da companhia.
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As ações da Cosan operam em alta nesta terça-feira (10). Por volta das 11h35, CSAN3 subia 4,53%, cotada a R$ 6,00. No mesmo horário, os papéis da Raízen lideravam a ponta negativa do Ibovespa, com RAIZ4 caindo 5,45% no mesmo horário, a R$ 0,52.
O nó da estrutura da Raízen
Para a Cosan, o principal entrave não está apenas na necessidade de capital, mas na forma como a própria empresa está organizada.
Hoje, a Raízen reúne dentro do mesmo grupo operações bastante diferentes, que vão da produção de energia renovável à distribuição de combustíveis.
Na visão de Martins, essa combinação torna mais difícil encontrar soluções financeiras duradouras.
“A não separação dos negócios de energia e distribuição na Raízen é um problema”, disse, durante a teleconferência.
Durante as negociações com a Shell, a Cosan chegou a apresentar propostas que incluíam o desmembramento dessas duas frentes de negócio.
A ideia seria separar as operações para abrir espaço para alternativas estratégicas — entre elas, a venda eventual de um dos ativos. O plano, no entanto, não avançou nas discussões com a Shell.
Por que a Cosan não pode colocar mais dinheiro na Raízen
Outro fator que pesou na decisão da Cosan é a própria situação financeira da holding. Quando a empresa anunciou seu próprio aumento de capital, que trouxe BTG Pactual e Perfin como novos sócios, já havia sinalizado ao mercado que os recursos captados não seriam direcionados para a Raízen.
A prioridade da companhia continua sendo reduzir o endividamento da própria holding. “Desde o início deixamos claro que havia limitações para utilizar esses recursos na Raízen”, afirmou.
Com essas restrições, a empresa não conseguiu acompanhar o formato de capitalização defendido pela Shell.
“A estrutura do aumento de capital não poderia contemplar a contribuição da Cosan”, disse o executivo.
Meses de negociação com a Shell — e nenhum acordo
As conversas entre as duas controladoras se intensificaram especialmente nos últimos dois meses, mas o tema vem sendo discutido há mais tempo.
Segundo Martins, a busca por uma solução para a Raízen consumiu grande parte do tempo da gestão. “Gastamos os últimos seis meses nas discussões de Raízen”, afirmou.
Apesar da intensidade das negociações, as empresas não conseguiram alinhar um modelo que permitisse uma contribuição proporcional das duas sócias..
Enquanto o debate entre as controladoras continua, as negociações com os credores da Raízen avançam. Segundo Martins, essas conversas têm evoluído com participação cada vez menor da Cosan.
Porém, a capitalização proposta não deve ser vista como uma solução definitiva para a estrutura da empresa.
Rafael Bergman, que ocupava o cargo de diretor financeiro da Raízen e assumiu como CFO da Cosan, destacou que a operação representa apenas o início de uma reformulação mais ampla da companhia — e não o capítulo final desse processo.
A conta da crise da Raízen chega ao balanço da Cosan
As dificuldades da Raízen já começaram a aparecer com força nos números da Cosan. A holding de Rubens Ometto encerrou o quarto trimestre de 2025 com prejuízo líquido de R$ 5,8 bilhões.
Apesar de expressivo, o número representa uma melhora de 38% em relação ao mesmo período de 2024, mas deterioração de quase 390% na comparação com o trimestre anterior.
Segundo a empresa, o resultado negativo foi provocado principalmente por efeitos contábeis ligados à Raízen.
No acumulado do ano, a Cosan registrou prejuízo de R$ 9,7 bilhões, também puxado principalmente pelos efeitos relacionados à subsidiária em crise.
Sem esses ajustes contábeis, a companhia afirma que o resultado teria sido prejuízo de R$ 713 milhões no trimestre e R$ 4 bilhões no ano.
Enquanto tenta lidar com a situação da Raízen, a Cosan também segue executando um plano mais amplo de reorganização financeira.
A estratégia da Cosan para reduzir dívida
Segundo Martins, o objetivo da holding continua sendo reduzir significativamente seu nível de endividamento. Esse processo deve envolver desinvestimentos em alguns ativos, mas sem a obrigação de vender empresas específicas.
“Não existe determinação para vender um ativo específico para zerar dívida”, disse o executivo.
Martins também negou que a companhia esteja sendo pressionada por acionistas a realizar vendas rápidas. “Nenhum acionista da companhia nos pressiona a vender ativos a qualquer preço.”
A desalavancagem, segundo ele, deve acontecer gradualmente, à medida que o portfólio da holding for sendo reorganizado.
“Nosso objetivo é zerar a dívida da holding”, afirmou. “Mas isso deve acontecer ao longo do tempo, com desinvestimentos seletivos.”
Ao final do trimestre, a dívida líquida expandida da Cosan somou R$ 9,76 bilhões no período, queda de 58% na comparação anual e de 46% na comparação com o 3T25.
Rumo entra no radar — mas Cosan nega negociações
Entre os ativos do grupo que frequentemente aparecem em especulações de mercado está a Rumo, operadora logística controlada pela Cosan.
Porém, Martins afirmou que não há negociações em andamento envolvendo a empresa. Segundo ele, os rumores recentes refletem apenas movimentos de mercado em torno da avaliação do ativo.
“O que acontece na Rumo hoje é especulação por preço que não nos interessa”, disse.
Ele afirmou que a companhia não descarta eventual venda de participação nessa investida, mas que não está definida uma fatia específica.
O executivo também afirmou que a participação da Cosan na companhia não está definida como um ativo prioritário para venda.
*Com informações do Estadão.
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