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Depois de perder cerca de 90% de valor em poucos dias, as ações da Azul afundaram sob o peso da diluição bilionária e do Chapter 11. Especialistas explicam por que o tombo não significa colapso imediato da empresa, quais etapas da recuperação já ficaram para trás e os riscos que ainda cercam o futuro da companhia
Se uma de suas metas para 2026 é se tornar mais otimista, olhando para o copo meio cheio de uma situação, a Azul (AZUL54) pode ser um exercício dos bons para você. Até porque, quem vê a aérea perdendo praticamente 85% de valor de mercado em 5 dias, tende a pensar no pior — mas o cenário talvez não seja tão ruim quanto parece, pelo menos de acordo com os especialistas com quem o Seu Dinheiro conversou.
O copo meio vazio você provavelmente já conhece e pode ser resumido na dívida astronômica que fez a empresa apelar para o Chapter 11, a lei de falências nos Estados Unidos.
Já o copo meio cheio está na expectativa de que a aérea vá conseguir sair da recuperação judicial logo, uma vez que grande parte das etapas cruciais para o fim do processo já foi concluída ou está em andamento.
“A Azul vai sair da recuperação judicial e vai retomar o caminho de crescimento, eu não tenho nenhuma dúvida sobre isso”, afirmou Adalberto Febeliano, ex-diretor de RI da empresa ao Seu Dinheiro.
Dito isso, o momento ainda exige cautela. Para entender onde a Azul realmente se encontra, entre o alívio de um desfecho cada vez mais provável e os desafios que seguem no radar, destrinchamos a seguir as principais perguntas que hoje rondam a companhia.
Para isso, o Seu Dinheiro também conversou com: Fábio Percegoni de Andrade, sócio da BVZ Advogados; Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados e especialista em direito empresarial; Matheus Cabral, analista da Guardian Capital.
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Primeiro endereçando o elefante na sala: se as coisas não estão tão ruins como podem parecer, por que a ação está caindo tanto?
Para sair da recuperação judicial, a empresa precisou converter bilhões de reais de dívidas em ações, o que envolve a emissão de um volume gigantesco de novos papéis ao longo de uma série de etapas cruciais para o encerramento do processo.
O efeito colateral é uma diluição intensa dos acionistas atuais, estimada em cerca de 90%. Ou seja, um movimento que é bom para a empresa e ruim para o acionista.
A forte queda observada nos últimos dias nada mais é do que a reação do mercado a esse movimento.
Em paralelo a isso, a Azul também converteu as ações preferenciais da companhia (AZUL4) em ordinárias (AZUL3).
Essa é uma parte essencial para o fim do processo de recuperação judicial nos EUA, que visa simplificar a estrutura de capital da empresa, segundo Percegoni de Andrade.
Ter duas classes de ações cria camadas diferentes de direitos — voto, prioridade, tratamento econômico — e isso complica negociações com credores, novos investidores e potenciais financiadores.
Na prática, ações preferenciais não dão direito a voto, o que as torna pouco atrativas em um momento em que a empresa precisa trazer novos investidores dispostos a participar das decisões estratégicas. Em um processo de reestruturação, quem entra quer influência e isso só vem com ações ordinárias.
“Quando você tem direito de voto no conselho, passa a ter mais controle sobre a companhia. Por isso, para o credor que está recebendo ações e pretende participar de fato da empresa — especialmente em um processo de recuperação — é muito mais interessante ter ações ordinárias do que preferenciais”, conta Cabral, da Guardian Capital.
Além disso, Fernando Canutto levanta outro ponto: a legislação brasileira prevê hipóteses em que a companhia é obrigada a converter ações preferenciais em ordinárias — sendo a principal delas a ausência de distribuição de dividendos por três exercícios (anos) consecutivos.
“A lógica da ação preferencial é compensar a falta de direito a voto com alguma vantagem econômica, normalmente o recebimento prioritário de dividendos. Se essa vantagem deixa de existir, o acionista passa a ter, ao menos, o direito de participar da gestão da companhia, ainda que de forma limitada”, explica o advogado.
A história da tragédia do setor aéreo já sabemos de cor: custo em dólar, receita em real… e uma pandemia que veio para estourar o já delicadíssimo equilíbrio do setor.
No entanto, segundo os especialistas com quem o Seu Dinheiro conversou, no caso da Azul houve um agravante: a empresa demorou demais para pedir recuperação judicial.
A aérea passou muito tempo tentando negociar os débitos extrajudicialmente, o que não deu certo e atrasou o pedido oficial de recuperação — e, por consequência, a reabilitação da empresa.
“Eles só pediram a reestruturação em 2025, quando a pandemia já tinha acabado há muito tempo. A situação já era bastante complexa, e o valor das ações da Azul na bolsa praticamente havia derretido. Eles poderiam ter feito o pedido antes”, diz Percegoni de Andrade, da BVZ Advogados.
Para o Febeliano, o ex-RI da Azul, a Latam havia sido muito criticada por entrar com o processo logo depois do fim da emergência sanitária, mas a história provou que esse era o procedimento a ser feito.
Além disso, há uma forte correlação da empresa com o agronegócio. Desde a sua criação, o diferencial da Azul foi justamente operar rotas para cidades menores, pouco atendidas pela concorrência, com foco no interior do Brasil. Com isso, a companhia acabou ficando mais exposta à dinâmica econômica do agro, que sustenta boa parte da demanda nessas regiões.
“Coincidência ou não, o agronegócio brasileiro vem passando por dificuldades nos últimos dois anos”, ressalta Fernando Canutto.
Mas isso não impediu que a Azul tivesse sucesso nas negociações para buscar a saída da recuperação judicial. Na visão dos especialistas, a companhia tomou decisões-chave que tornaram seu processo de recuperação judicial um dos mais bem-sucedidos já vistos.
A escolha pelos Estados Unidos foi central, já que o Chapter 11 permitiu incluir credores de leasing (arrendamento de aeronaves) — que ficariam fora da recuperação no Brasil por causa da nossa legislação — e garantir acesso a financiamento DIP, concedido a empresas que estão em recuperação judicial lá nos EUA.
"Os credores de leasing, os principais da Azul, não estão sujeitos à nossa recuperação. Ou seja, se a Azul tivesse entrado com o pedido por aqui, o maior problema dela não teria sido resolvido", destaca Percegoni de Andrade.
Com isso, o processo tende a ser muito mais rápido do que seria no Brasil, com conclusão esperada pela companhia para fevereiro deste ano. Ainda assim, o desfecho não garante, por si só, sucesso no futuro.
A partir do momento em que a empresa sair da recuperação, há dois cenários possíveis: um otimista e outro pessimista.
Começando pelo último: na visão do ex-RI da empresa, Adalberto Febeliano, a empresa pode ter perdido espaço para a concorrência da Latam, especialmente.
“O mercado segure crescendo e abrindo oportunidade de rotas, por exemplo. O problema é que a Latam tem capacidade de investir, e a Azul não teria, já que deve seguir focada em cortar custos e ajustar despesas. Nesse cenário, o crescimento do mercado tende a ser absorvido por quem tem mais capacidade de investimento, e a Latam deve sair desse processo maior do que a Gol e a Azul”, diz Febeliano.
Já no cenário otimista, a empresa sai da recuperação judicial com a saúde financeira reequilibrada e capacidade de competir de igual para igual com as rivais. Para Matheus Cabral, da Guardian Capital, a Azul parte de uma base favorável.
“A companhia tem uma frota relativamente moderna, o que reduz a necessidade de investimentos imediatos para manter as rotas atuais. Além disso, a presença de parceiros estratégicos — como Delta, American e United Airlines — cria um incentivo para a abertura de novas rotas e para a sustentação do negócio no pós-recuperação”, afirma o analista. Para ele, com esses parceiros por trás, o interesse não é deixar a Azul sucumbir, muito pelo contrário.
Cabe lembrar que, segundo o CEO da empresa, John Rodgerson, a intenção é que a alavancagem da Azul saia do nível de 5 vezes dívida líquida sobre Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) para 2,5 vezes após a saída do Chapter 11. Ele também afirma que a aérea está conseguindo cortar severamente tanto o custo da dívida quanto da operação. Saiba mais detalhes nesta matéria.
Dada a diluição da base acionária da Azul, hoje ela se encontra sem um acionista controlador definido, o que abre espaço para questionamentos sobre se a empresa poderia ser alvo de um processo de aquisição ou tomada de controle.
“A maior probabilidade hoje, na visão do mercado, é que os principais credores cheguem a um consenso para uma gestão conjunta, ao menos neste primeiro momento, evitando que a empresa fique sem rumo”, diz o analista da Guardian Capital.
O mercado também avalia a possibilidade de empresas estrangeiras — inclusive acionistas atuais, como a American Airlines — assumirem o controle da companhia. No entanto, entraves regulatórios tendem a tornar esse movimento caro e complexo. Para se ter uma ideia, mesmo para alcançar uma participação minoritária, a United já enfrenta um baita processo burocrático no Cade.
Além disso, há uma probabilidade relevante de que os reguladores brasileiros não autorizem operações desse tipo.
“O ambiente aqui é bastante complicado. Não me parece tão natural que uma empresa queira assumir o controle da Azul. Ter participação acionária é diferente de assumir o controle. São movimentos distintos, muito mais ligados à estratégia global dessas companhias do que, necessariamente, à situação das empresas aqui no Brasil.”, destaca Febeliano, ex-RI da Azul.
Os especialistas acreditam que não. “A união das duas parecia mais um abraço dos afogados. Agora, o cenário mudou e depois desse processo elas parecem muito mais animadas para concorrer entre si”, diz Canutto, da Godke Advogados.
Para Febeliano, a Gol vem sinalizando uma mudança relevante de estratégia, com foco em aeronaves maiores e expansão de voos internacionais, o que reduz a complementaridade que antes tornava uma eventual fusão mais atraente. Com isso, parte da lógica que sustentava a operação perde força.
Ainda assim, ele ressalta que isso não significa o fim definitivo das conversas, mas indica que, no cenário atual, as condições para uma fusão são menos favoráveis do que já foram.
Diante de tudo isso, resta saber se ainda há um futuro para as ações, que hoje são centro de forte especulação, com movimentações bruscas quase diariamente na bolsa de valores.
Por isso, a recomendação dos analistas ainda é ficar de fora do papel, até porque o cenário para as aéreas no Brasil nunca foi muito animador, mesmo que os especialistas não vejam demérito no modelo de negócios da companhia em si.
Ainda que a empresa saia da RJ, é preciso saber como ela vai seguir a partir disso e, a depender dos movimentos, a turbulência pode ser forte para o investidor. Por enquanto, o cenário de longo prazo também não chama a atenção.
"Eu, particularmente, sou entusiasta, mas colocar o meu capital — e o capital dos meus clientes — em companhias aéreas exige muito estômago, não faço. Mas, se fosse investir como pessoa física, seria por agora, antes da empresa de fato sair da recuperação judicial, como movimento estratégico, não uma aposta de longo prazo", diz Cabral.
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