Guerra pode travar cortes na Selic? A resposta de Galípolo diante das tensões geopolíticas que não chegam ao fim
Com conflito entre EUA, Israel e Irã aparentemente longe de terminar, o presidente do BC vê cenário mais incerto; enquanto isso, inflação sobe nas projeções e espaço para queda dos juros diminui

A guerra no Oriente Médio não deve sair tão cedo do radar do Banco Central, e justifica a postura mais cautelosa da autoridade monetária na condução da política monetária e no corte da Selic. Quem diz isso é o próprio presidente do BC, Gabriel Galípolo.
Segundo ele, o mercado ainda tenta dimensionar os possíveis cenários: de um conflito mais curto até uma escalada mais intensa, com impactos diretos sobre a infraestrutura do Irã.
Esse segundo caso poderia atrasar a normalização da oferta global de petróleo, pressionando preços, atividade econômica e crescimento no mundo todo.
O problema é que falta visibilidade. Com poucas informações concretas sobre os desdobramentos da guerra, fica mais difícil “precificar o futuro” , afirmou Galípolo nesta segunda-feira (6), durante um evento da FGV/Ibre, no Rio de Janeiro.
Diante desse cenário, o recado do BC é claro: ir com calma. “A cautela, para o Banco Central, significa ganhar tempo para entender melhor o problema e tomar decisões mais seguras”, afirmou.
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Segundo ele, essa estratégia já ajuda o Brasil a atravessar o choque com um câmbio mais estável.
Inflação volta a preocupar banco central
Se a resolução da guerra ainda é uma incógnita, seus efeitos já começam a aparecer nas projeções do mercado.
A expectativa de inflação para 2026 subiu pela quarta semana seguida, passando de 4,31% para 4,36%, segundo o Boletim Focus divulgado nesta manhã.
As estimativas também avançaram para 2027 e 2028, um sinal de que o mercado começa a ver pressões mais persistentes nos preços.
Na prática, isso reduz o espaço para cortes mais agressivos na Selic. Em março, o BC diminuiu a taxa básica em 0,25 ponto percentual (pp), para 14,75% — metade do que parte do mercado esperava.
Ainda assim, a projeção para o fim do ano segue em 12,5%.
Custo de vida pressiona famílias
Segundo Galípolo, a inflação voltou ao centro do debate econômico, agora com uma dimensão mais ampla, que extrapola os indicadores técnicos e se conecta diretamente à percepção da população sobre o custo de vida.
Para ele, a sociedade passou a reagir menos à variação da inflação e mais ao nível de preços acumulado, o que altera a forma como a política monetária é percebida e cobrada.
“Banqueiros centrais olham para a inflação, mas a população está focada no nível de preço”, avaliou.
Enquanto a inflação mede a velocidade de aumento dos preços, o nível de preços reflete o patamar já alcançado após sucessivos choques. Mesmo com a desaceleração da inflação, o custo de vida no Brasil permanece elevado.
Na prática, isso significa que o alívio capturado pelos índices não é necessariamente percebido no cotidiano, sobretudo em um cenário em que os ganhos salariais não acompanharam os aumentos acumulados.
Esse descompasso, segundo Galípolo, tem alimentado dúvidas sobre a credibilidade dos próprios indicadores. “Isso tem gerado um certo grau de ceticismo em relação aos números oficiais”, afirmou.
Banco central e um mundo de choques
Por trás desse cenário está uma sequência de choques globais nos últimos anos, como pandemia, rupturas nas cadeias produtivas, crises energéticas e conflitos geopolíticos.
“Estamos falando de quatro choques de oferta em seis anos. Estamos todos um pouco cansados de participar de eventos históricos”, disse Galípolo, em tom irônico.
Diferentemente de choques de demanda — que podem ser combatidos com mais eficiência via juros —, os choques de oferta mexem diretamente com custos e capacidade produtiva, tornando a resposta do Banco Central mais limitada.
O fim do “look through”
Ao discutir a atuação dos bancos centrais, Galípolo destacou que há hoje maior cautela na condução da política monetária, especialmente após críticas de que, no passado recente, houve demora na reação à inflação global.
Nesse contexto, conceitos como o “look through”, que é a estratégia de ignorar choques temporários de oferta, perderam espaço. A avaliação é que o custo de subestimar a persistência da inflação aumentou, sobretudo pelo impacto sobre expectativas.
“O custo de credibilidade de dizer que o choque é temporário, pela quarta vez, é muito alto“, afirmou.
Além disso, o presidente do BC reforçou que as ferramentas tradicionais da política monetária atuam principalmente pelo lado da demanda, o que limita sua eficácia diante de choques de oferta.
Galípolo ainda resumiu o dilema da autoridade monetária: independentemente do cenário, as críticas são inevitáveis. “Se a economia vai melhor, é porque você fez pouco. Se vai pior, é porque você está atrasado”, declarou.
*Com informações do Money Times e do UOL
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