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El Niño: choque climático pode reprecificar alimentos, inflação e commodities

O fenômeno chega em meio a um cenário de inflação ainda sensível, juros elevados, cadeias de suprimentos reorganizadas, fertilizantes mais caros e baixa tolerância dos bancos centrais a novos choques de preços

Imagem: iStock/fotokostic

Depois de um período em que a atenção do investidor esteve concentrada em petróleo, Oriente Médio, bancos centrais e inteligência artificial (IA), um velho conhecido voltou ao radar: o El Niño. O fenômeno é natural, recorrente e costuma aparecer a cada dois a sete anos, mas sua relevância econômica depende do momento em que ocorre. E o momento atual é pouco trivial.

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O mundo chega a este novo episódio com inflação ainda sensível, juros elevados, cadeias de suprimentos reorganizadas, fertilizantes mais caros e baixa tolerância dos bancos centrais a novos choques de preços. Por isso, mesmo que o El Niño seja um fenômeno climático, sua leitura para o investidor precisa ser macroeconômica.

A pergunta não é apenas onde choverá mais ou menos; é quais safras serão afetadas, quais preços podem reagir, quais países ficarão mais vulneráveis e como isso pode mudar a precificação de juros, moedas e ações.

O que é El Niño e por que este episódio preocupa

El Niño é a fase quente do fenômeno conhecido como ENSO (El Niño-Oscilação do Sul), caracterizada pelo aquecimento anormal das águas superficiais no Pacífico equatorial central e oriental.

A definição operacional mais comum considera anomalias de pelo menos 0,5ºC por vários meses na região de referência Niño 3.4. Na prática, esse aquecimento altera ventos, chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.

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A fotografia atual justifica atenção. A Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) informou em junho que condições de El Niño estão presentes e devem se fortalecer até o inverno do Hemisfério Norte de 2026/27.

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A Organização Meteorológica Mundial (WMO) também apontou probabilidade elevada de El Niño entre junho e agosto e chance ainda maior de continuidade até pelo menos novembro.

O International Research Institute for Climate and Society da Universidade de Columbia (IRI), por sua vez, indicou que a anomalia semanal do Niño 3.4 já havia subido para +1,7ºC em meados de junho, sugerindo intensificação em andamento.

O ponto importante é que intensidade não garante impacto mecânico em todas as regiões, mas aumenta a probabilidade de padrões climáticos atípicos: seca em algumas áreas, excesso de chuva em outras, ondas de calor, perdas agrícolas, pressão sobre água e deterioração de pastagens. Para o mercado, isso significa uma distribuição de riscos mais assimétrica para alimentos e inflação.

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Fonte: NOAA/CPC. Elaboração própria.

Do Pacífico ao IPCA: os canais de transmissão

O canal mais direto é agrícola. Seca reduz produtividade, chuvas excessivas prejudicam colheita e transporte, ondas de calor afetam pecuária e perdas de pastagem elevam custos de alimentação animal.

Como alimentos básicos têm demanda pouco elástica (as famílias não deixam simplesmente de comer porque os preços subiram), pequenas quebras de oferta podem gerar altas desproporcionais de preços.

O segundo canal é de insumos. Fertilizantes, energia e logística já estavam sensíveis por conta de tensões geopolíticas. O Banco Mundial alertou que os preços de fertilizantes devem subir fortemente em 2026, tornando-os os menos acessíveis desde 2022.

Se o clima piora no mesmo momento em que o custo de produzir alimentos sobe, o choque não fica limitado ao campo: ele chega ao varejo, às expectativas de inflação e às decisões dos bancos centrais.

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O terceiro canal é financeiro. Quando os investidores percebem maior risco de inflação de alimentos, a curva de juros pode abrir, moedas de emergentes ficam mais sensíveis e ativos de maior duração sofrem.

Ao mesmo tempo, commodities agrícolas e empresas ligadas a cadeias de insumos, armazenagem, logística e exportação podem ganhar prêmio, desde que a tese esteja acompanhada de fundamentos e valuation razoável.

Onde o risco climático vira risco de mercado

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) destacou que o risco de seca agrícola é mais elevado no Sahel, na África Meridional, no Sul e Sudeste da Ásia, no Corredor Seco da América Central e no Caribe, com algumas áreas agrícolas e de pastagem enfrentando probabilidade superior a 50% de seca nos próximos meses.

O Banco Mundial também chamou atenção para riscos em Sudeste Asiático e Sul Africano, inclusive com ameaça à produção de arroz em economias vulneráveis.

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Para o investidor, a geografia importa porque cada região conversa com commodities diferentes. Monções mais fracas na Índia e no Sudeste Asiático afetam arroz, milho, palma e açúcar. Seca na África Meridional e no Sahel pressiona alimentos básicos, pecuária e ajuda humanitária.

Na América Central e no Caribe, o choque climático pode atingir renda rural, segurança alimentar e fluxos migratórios.

Em algumas regiões, El Niño também traz excesso de chuva, aumentando risco de enchentes, doenças nas lavouras, perda logística e sinistros de seguros.

O histórico: inflação, crescimento e perdas persistentes

O histórico mostra que El Niño pode ter impacto econômico maior do que parece à primeira vista. Pesquisa divulgada por Dartmouth estimou perdas globais de US$ 4,1 trilhões e US$ 5,7 trilhões, respectivamente, nos cinco anos após os eventos de 1982-83 e 1997-98.

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A mensagem é que choques climáticos não são apenas “ruído” de uma safra: em países vulneráveis, eles podem reduzir renda, investimento e produtividade por anos.

O impacto sobre preços também é relevante. Um estudo do Banco Central Europeu (BCE) mostrou que a transição de um El Niño normal para um forte poderia elevar preços globais de alimentos por até dois anos, com pico estimado de 9% cerca de 16 meses após o início do episódio forte.

A reação varia por commodity, estoque e região, mas a direção do risco é clara: El Niño aumenta a incerteza e tende a pressionar alimentos quando ocorre em intensidade relevante.

Para o Brasil, a leitura é ambígua. Como grande produtor e exportador agrícola, o país pode se beneficiar de preços mais altos em algumas commodities e de uma demanda global por alimentos mais resiliente.

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Ao mesmo tempo, o consumidor doméstico fica exposto a alimentos mais caros, e o Banco Central precisa avaliar se o choque climático será temporário ou se contaminará expectativas.

A própria discussão inflacionária brasileira já incorporou o tema. O mercado estima impacto relevante do El Niño sobre a inflação de 2026 e 2027. Reuters reportou estimativas de cerca de 30 pontos-base em 2026 e 40 pontos-base em 2027, com alimentos no centro da preocupação.

O efeito pode ser mais rápido em itens como café, açúcar, cítricos e produtos sensíveis a seca ou excesso de chuva.

No agronegócio, a fotografia não é uniforme. O El Niño pode trazer chuvas que favoreçam certas culturas, como cana em algumas regiões, mas também pode atrapalhar operações de moagem, colheita e transporte.

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Para grãos, o risco está na combinação entre atraso de plantio, encurtamento de janelas da segunda safra, maior volatilidade regional e prêmios logísticos.

Em outras palavras: para o Brasil, El Niño pode ser positivo para receita de alguns produtores, mas negativo para a inflação e para a previsibilidade operacional.

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