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Discurso de separação não tranquilizou investidores, que temem risco de contágio, dependência financeira e possível inclusão da subsidiária no processo de recuperação

A Fictor Alimentos (FICT3) vive um dia dramático na bolsa de valores após sua holding controladora entrar com um pedido de recuperação judicial (RJ) no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). Por volta das 15h, as ações da subsidiária desabavam quase 40% na B3, negociadas abaixo de R$ 1 pela primeira vez na história.
A forte queda veio apesar de a empresa-mãe, a Fictor Holding, afirmar que o braço alimentício não deve ser incluído no processo de recuperação judicial.
No documento, o grupo argumenta que a Fictor Alimentos possui geração recorrente de receitas, estrutura financeira reforçada por um recente aumento de capital e ausência de endividamento bancário relevante — fatores que, segundo a holding, afastariam a necessidade de proteção judicial para a subsidiária.
Cabe lembrar que a lei brasileira permite que a subsidiária se mantenha de fora do processo, uma vez que os CNPJs são distintos. Acontece que o buraco é mais embaixo… e é isso que está derrubando as ações hoje na bolsa.
Segundo o documento, a subsidiária é o principal braço econômico do grupo e a maior fonte de geração de receitas. Por isso, sua inclusão na recuperação judicial enfraqueceria justamente a empresa que é capaz de ajudar no reerguimento da holding.
A empresa-mãe também destaca que a Fictor Alimentos teve sua estrutura financeira reforçada recentemente por meio de um aumento de capital de R$ 70 milhões, não possui endividamento bancário relevante e mantém uma estrutura societária e operacional própria, com administração, contratos e fornecedores independentes.
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Além disso, a holding afirma que a inclusão da subsidiária no pedido de recuperação judicial poderia desencadear um efeito dominó sobre a operação.
Segundo o argumento, o enquadramento da Fictor Alimentos no processo tenderia a levar fornecedores e clientes a reverem contratos, endurecerem condições comerciais e exigirem pagamentos à vista, afetando o abastecimento, a logística e a continuidade da produção.
Apesar do discurso da holding, a Fictor Alimentos possui uma ligação umbilical com sua controladora e isso afeta o futuro da companhia, segundo fontes com quem o Seu Dinheiro conversou, o que pode dificultar a separação das companhias dentro da RJ.
A Fictor Alimentos pode acabar sendo alcançada pelo processo por alguns motivos: um deles é que a Justiça poderia entender que a empresa-mãe não tem capacidade de honrar seus compromissos financeiros.
Esse risco ainda é difícil de mensurar neste momento, já que o pedido de RJ sequer foi aprovado e, portanto, não há definição sobre a viabilidade do plano de pagamento nem sobre como o judiciário avaliará a real capacidade financeira do grupo.
“Há a chance de o juiz determinar que outras empresas do grupo, como esse braço de alimentos, entrem no processo para elevar a capacidade de pagamento da holding”, aponta o advogado Marcos Poliszezuk, sócio fundador da Poliszezuk Advogados.
Além disso, a estrutura financeira construída pelas empresas nos últimos meses as associa de forma quase indistinguível.
Em agosto do ano passado, por exemplo, a Fictor Alimentos realizou um aumento de capital de R$ 70 milhões, do qual cerca de 85% (por volta de R$ 60 milhões) foram subscritos pela própria holding.
Na prática, o movimento reforçou a dependência da subsidiária em relação à controladora e alimentou dúvidas no mercado sobre o grau de autonomia operacional e financeira da empresa — um ponto sensível quando se discute a exclusão ou não da companhia do processo de RJ.
A avaliação de fontes é que, enquanto a Fictor Alimentos ainda não se mostra suficientemente pujante para se manter sozinha no mercado, o apoio da controladora é considerado fundamental para garantir a continuidade dos negócios, seja por meio de aportes financeiros, seja pela sustentação da estrutura operacional.
Essa interdependência fica evidente tanto na estrutura financeira quanto na governança. Atualmente, depois de uma série de renúncias, o presidente do Conselho de Administração e Diretor-Presidente interino da Fictor Alimentos é Rafael Ribeiro Leite de Góis, que também é sócio-fundador e CEO do grupo como um todo.
Isso significa que quem manda na holding também manda, ao mesmo tempo, na gestão e na supervisão da Fictor Alimentos. Essa concentração poderia reforçar a ideia de que as duas empresas funcionam como uma só.
A Fictor Alimentos é a principal subsidiária do grupo, resultado direto da estratégia mais agressiva de diversificação adotada pela holding a partir de 2016.
Depois de crescer em outras frentes, a empresa direcionou esforços para o agronegócio e, mais recentemente, para a indústria de proteínas, buscando construir um novo pilar de crescimento.
A entrada no setor de alimentos ocorreu em 2023, com foco em aves e suínos, mas o ponto de inflexão veio em dezembro de 2024.
Naquele momento, a companhia realizou um IPO reverso, assumiu o controle da Atom Participações, empresa de educação para o setor financeiro, alterou o objeto social e passou a negociar ações na B3 sob o ticker FICT3.
A tese era clara: usar o acesso ao mercado de capitais para consolidar ativos industriais ligados à proteína animal.
Desde então, a Fictor Alimentos avançou aproveitando o ciclo desfavorável do agronegócio, em busca de aquisições a preços mais baixos e ganhos rápidos de escala.
Agora a companhia se vê cercada por dúvidas sobre os próximos passos, em meio ao impacto da crise que atingiu a holding e à necessidade de preservar a operação, manter o plano de expansão e sinalizar ao mercado como pretende atravessar esse período de incerteza.
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