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Os cotistas dos fundos imobiliários de escritório ainda vão precisar ter estômago para atravessar o ciclo atual do mercado, mas especialistas enxergam ganhos no longo prazo

Quem anda pela Faria Lima hoje talvez nem se lembre mais de quando os restaurantes não tinham filas enormes e o trânsito não era caótico — durante a pandemia de covid-19, até o local mais disputado pelas empresas teve uma redução drástica do ir e vir de funcionários nos escritórios.
Seis anos depois da crise que elevou a vacância do setor de lajes corporativas, o segmento voltou aos níveis pré-pandemia. A taxa de desocupação de imóveis de alto padrão, que chegou a aproximadamente 20% no momento mais crítico, hoje está em cerca de 13%.
O destaque do setor continua sendo a Faria Lima. No fim do último mês, a região teve uma das “joias da coroa”, o Edifício Pátio Victor Malzoni, vendida por R$ 26,7 milhões pelo fundo imobiliário Catuaí VBI Triple A (BLCA11).
Enquanto as lajes corporativas vivem um ciclo positivo, os FIIs de escritórios ainda apresentam o segundo pior desempenho do IFIX, índice de referência da classe. Segundo levantamento do Itaú BBA, a performance dos fundos de escritórios foi de 1,9% em 2026.
Além disso, os fundos de escritório possuem o menor indicador Preço/Valor Patrimonial (P/VP), de 0,70. A medida mostra quando um ativo está sendo negociado com desconto: quanto mais distante de um for o resultado, maior a defasagem entre o preço das cotas na bolsa e o valor real da carteira do fundo.
Como todas as demais categorias de FIIs apresentam P/VP acima de 0,80, segundo o Itaú BBA, os fundos de lajes corporativas negociam com o maior desconto de toda a indústria.
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Afinal, o que falta para os fundos imobiliários de escritórios ganharem fôlego e sair da eterna recuperação?
Para entender o que acontece, o Seu Dinheiro conversou com Caio Araujo, analista da Empiricus Research; Carol Borges, analista da EQI Research; Rodrigo Abbud, gestor do Patria Investimentos; Fernanda Rosalem, head de investimentos da gestora Paladin; e Marcos Alves, CEO da RealtyCorp.
Quando a covid-19 chegou ao Brasil e forçou a população inteira a um isolamento social, as apostas eram que os trabalhadores nunca mais teriam que sequer pisar em um escritório.
“O setor foi massacrado. Todo mundo falou: 'É o fim dos escritórios, o home office é uma maravilha, ninguém mais precisa ir para o escritório'", disse Rodrigo Abbud, em evento realizado pela gestora.
Porém, com a flexibilização da quarentena, as empresas passaram a aderir ao formato híbrido.
Quatro anos após o fim da crise, muitas companhias já voltaram completamente ao regime presencial, inclusive instituições conhecidas pelo home office. É o caso do Nubank, que anunciou um investimento de R$ 2,5 bilhões nos próximos cinco anos para expandir a rede de escritórios no Brasil.
Só que, para os fundos imobiliários, o cenário foi ainda mais complexo durante a pandemia. Quando o mundo todo achou que era o fim das lajes corporativas, as cotas caíram muito na bolsa. Embora outros segmentos também tenham sofrido durante esse período, como os FIIs de shoppings, a recuperação foi bem diferente.
Com o fim das restrições, as pessoas voltaram rapidamente a frequentar centros comerciais. Em um país tropical, com altas temperaturas, e marcado por problemas de segurança, os shoppings naturalmente retomaram seu papel como destino para passear, comer e fazer compras.
Já o retorno aos escritórios tem sido muito mais gradual e, para piorar, partem de um patamar ainda menor. “A recuperação em lajes corporativas tende a ser em passos mais lentos mesmo, vai ser mais engatinhando", afirmou Carol Borges.
Além disso, ela destaca que o excesso de estoque de escritórios também dificulta a retomada plena do setor.
Isso porque, em imóveis em que o custo de produção é muito alto, como galpões logísticos, as construções costumam ocorrer já com um inquilino previsto, ou seja, pré-locado. Então, não são adicionados imóveis vagos no mercado com frequência.
Enquanto isso, basta sair na rua para ver um prédio comercial.
Só que não é só a pandemia que pesa na conta, afinal, já faz quatro anos que a crise acabou. Acontece que o mercado também mudou.
"O escritório hoje não é mais um depósito de gente; ele é o centro cultural das empresas. É onde acontecem as inovações e os insights. E essas trocas de ideias ocorrem no cafezinho, não na reunião do Teams”, afirmou Marcos Alves.
O Patria Investimentos também observou essa mudança. “Com o fim da pandemia, as empresas começaram a gerar uma demanda de espaço por colaborador maior do que antes da crise, porque agora buscam áreas para interação, reuniões de equipe e espaços especializados”, disse Rodrigo Abbud.
Isso fez com que os fundos imobiliários que administram esses imóveis precisassem aprimorar os ativos, movimento que ainda vem acontecendo.
As taxas de juros também não andam facilitando a vida do investidor de fundos imobiliários. Com a Selic a 14,25% ao ano, a renda fixa fica bem mais atraente, drenando os ativos de risco, como os FIIs.
“O investidor pessoa física e o institucional tendem a voltar para os fundos imobiliários apenas quando a renda fixa perde essa atratividade”, afirmou Borges ao Seu Dinheiro.
Além disso, o mercado usa como base de comparação o prêmio dos títulos públicos indexados à inflação, como o Tesouro IPCA+, que atualmente estão em patamares elevados, em cerca de IPCA + 8%.
Nesse cenário, o investidor passa a exigir um prêmio ainda maior para colocar dinheiro em investimentos de risco, como os fundos imobiliários.
No caso específico dos FIIs de lajes corporativas, o mercado tem exigido cerca de dois pontos percentuais de cupom. Ou seja, é necessário um dividend yield (taxa de retorno de dividendos) de aproximadamente 10%.
Isso porque os cotistas colocam na conta a volatilidade da ocupação, que, em escritórios, tende a ter maiores riscos de ciclos curtos.
Diferentemente de galpões logísticos, por exemplo, que contam com contratos atípicos — ou seja, que possuem longos prazos, não contam com revisional no meio do período da locação e têm alta penalidade por rescisão antecipada —, lajes corporativas costumam ter cláusulas menos rígidas para a saída do inquilino.
E se o aluguel não sobe rápido o suficiente para atingir esse patamar de dividendos cobrado pelos investidores, o ajuste acontece no valor das cotas na bolsa.
“O mercado coloca o preço da cota um pouco mais para baixo para que essa renda seja compatível com o momento macroeconômico", disse Borges.
Vale lembrar que o retorno medido pelo dividend yield leva em conta o dividendo distribuído nos últimos 12 meses em relação ao valor atual do ativo na bolsa. Assim, quando o preço da cota é menor, o dividendo fica proporcionalmente maior.
Assim, Borges avalia que a Selic impõe um limite para a cotação dos FIIs de lajes corporativas. “Com a taxa de juros próxima a 14%, o mercado provavelmente não vai ter uma valorização muito expressiva em fundos de escritórios”, afirmou.
Em meio a um cenário nada favorável para os fundos imobiliários de escritórios, a pergunta que fica é: afinal, vale a pena investir na classe? Segundo os especialistas, a resposta depende do perfil do investidor.
Para Borges, os cotistas de FIIs de lajes corporativas ainda vão precisar ter estômago. “Não vejo uma janela de oportunidade no curto prazo, porque o desconto da cota em relação ao valor patrimonial deve continuar até que o cenário fiscal e os juros sejam endereçados”, afirmou a analista.
Atualmente, a EQI Research mantém participação baixa em fundos de lajes corporativas na carteira, locados apenas em fundos que possuem boa diversificação, localização adequada e que possui gestão ativa.
“Não buscamos uma grande valorização no curto prazo, é uma posição mais estrutural para a carteira”, completou.
Araujo, por sua vez, enxerga uma janela de oportunidade para colocar FIIs de lajes corporativas no portfólio, já que a classe apresenta o maior desconto entre os fundos imobiliários. Porém, o analista da Empiricus Research destaca que é necessário ter cautela, uma vez que os ativos são mais sensíveis a movimentos do mercado.
A gestora Paladin tem uma avaliação semelhante. Segundo Rosalem, existem boas oportunidades em fundos descontados que tendem a se recuperar conforme a vacância diminui e a taxa de juros cai.
“Mas é sempre bom olhar o todo, porque o mercado imobiliário é filme, não é foto. O cotista precisa entender o que aconteceu até aqui para justificar o cenário atual”, disse.
Se o investidor precisa separar o joio do trigo na hora de investir em FIIs de lajes corporativas, a lógica não é diferente quando a empresa escolha sua localização em imóveis reais.
A região da Faria Lima-Itaim Bibi é, em geral, a mais disputada. Porém, o resultado dessa atratividade toda foi uma explosão nos preços dos empreendimentos, com os aluguéis ultrapassando o valor de R$ 300 por metro quadrado.
“Essas regiões, como a Faria Lima, mostraram-se muito mais resilientes e defensivas, com oscilações de vacância bem menores do que as regiões descentralizadas”, afirmou Abbud.
Embora a localização seja vista como defensiva para a carteira dos investidores, os especialistas avaliam que as companhias já estão em busca de outras localidades devido ao aumento expressivo dos preços na Faria Lima.
Com isso, o maior potencial de valorização de aluguel está transbordando para regiões adjacentes da capital paulista, como o entorno da Avenida Rebouças, Avenida Paulista e Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini.
Atualmente, a Paulista possui baixa vacância, porém sofre com a falta de terrenos para novos prédios. Por isso, a perspectiva de ganho vem por meio de investimentos em modernização, já que os estoques tendem a ser mais antigos. Com as reformas, a expectativa é de uma valorização do aluguel na região.
Já as áreas da Chucri Zaidan e Berrini possuem um perfil semelhante ao visto na Faria Lima, porém ainda apresentam preços mais atrativos. Por outro lado, a vacância nas duas regiões ainda é elevada e, segundo a RealtyCorp, deve aumentar ainda mais com a entrega de novos projetos, como o Alto das Nações, empreendimento que já conquistou o título de arranha-céu mais alto de São Paulo.
Enquanto isso, o entorno da Avenida Rebouças chama atenção por conta de transformações vistas nos últimos anos. A região passou por uma intensa modificação, com a construção de prédios novos que, atualmente, já estão praticamente locados.
No entanto, ao que tudo indica, a “bola da vez” é Pinheiros, que vem atraindo empresas que buscam serviços, boa infraestrutura e conexão com o metrô.
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