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Com juros altos e múltiplos pressionados, companhias da B3 recorrem ao caixa para comprar as próprias ações — mas movimento também levanta dúvidas sobre o crescimento à frente

Com juros ainda elevados e a bolsa brasileira negociando a múltiplos pressionados, um movimento vem chamando atenção no mercado: as empresas listadas na B3 aceleraram o ritmo das recompras de ações (buybacks).
Ao todo, são R$ 81 bilhões em programas abertos na B3, embora pouco mais de 10% tenham sido de fato executados até agora. Na prática, R$ 71,1 bilhões ainda podem ser retirados de circulação da bolsa nos próximos meses.
Só em maio, as companhias desembolsaram R$ 2,5 bilhões para comprar papéis de própria emissão. Isso representa mais de três vezes os R$ 800 milhões registrados em abril, segundo levantamento do Itaú BBA com dados compilados até 15 de junho.
Na visão de especialistas, a mensagem por trás do movimento é que, em um ambiente de custo de capital alto, crescimento econômico mais incerto e ações negociadas a preços considerados baixos, parte das empresas passou a enxergar os próprios papéis como uma alternativa competitiva para alocar caixa.
Em vez de direcionar recursos para aquisições, expansão de capacidade ou abertura de novas unidades, companhias têm optado por recomprar ações no mercado.
A decisão reflete uma comparação cada vez mais presente nas mesas de administração: qual aplicação oferece hoje o melhor retorno ajustado ao risco?
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Para Daniel Gewehr, analista de estratégia de ações do Itaú BBA, o avanço das recompras funciona como um “termômetro alternativo de valuation”.
A lógica é que, quando a administração decide usar recursos da companhia para adquirir ações no mercado, ela sinaliza que enxerga valor acima do preço que aparece na tela da bolsa.
“Quando os programas de recompra começam a ficar relevantes, quer dizer que quem mais entende da empresa — CEO, CFO e controladores — acredita que o ativo esteja subavaliado e atrativo”, afirma Gewehr, em entrevista ao Seu Dinheiro.
Nos últimos 30 dias, 15 empresas anunciaram novos programas de recompra, número acima da média recente. Para o analista, o aumento indica que uma parcela relevante do mercado voltou a oferecer pontos de entrada considerados interessantes pelas próprias companhias.
“Isso é um sinal de que o valuation está voltando a ficar interessante”, diz.
Os dados do Itaú BBA mostram que alguns setores concentram programas especialmente robustos quando comparados ao valor de mercado das empresas.
Energia lidera em buyback yield — indicador que mede o tamanho do programa em relação ao valor de mercado —, com 9,4%. Em seguida aparecem Consumo Cíclico, com 6,4%, e Utilidades Públicas, com 5,5%.
Entre os programas atualmente em aberto, cinco empresas se destacam por combinar volume superior a R$ 1 bilhão, yield relevante e execução ainda abaixo de 30%: Hapvida (HAPV3), Axia Energia (AXIA3), Prio (PRIO3), Localiza (RENT3) e Tim (TIMS3).
No entanto, a percepção de que as ações estão baratas é apenas uma parte da explicação.
Para Alexandre Sant’Anna, gestor da ARX Investimentos, a nova onda de recompras também reflete uma arbitragem cada vez mais comum entre o custo da dívida e o retorno implícito exigido pelo mercado acionário.
Nos últimos dois ou três anos, muitas empresas brasileiras conseguiram alongar seus passivos e captar recursos a custos mais competitivos, em alguns casos próximos ao CDI acrescido de spreads reduzidos.
Ao mesmo tempo, a bolsa passou a precificar diversas companhias com retornos implícitos mais altos.
Nesse cenário, as empresas passaram a comparar alternativas. Podem usar o caixa para amortizar dívida, investir em expansão, buscar aquisições ou recomprar ações que, na visão da administração, oferecem um retorno potencial mais atraente.
“Elas estão arbitrando o custo de capital da dívida com o custo de capital exigido pela ação”, afirma Sant’Anna.
Para o gestor, quando o retorno implícito das ações está em patamar elevado, faz sentido destinar uma parte do caixa à recompra. A decisão também oferece mais flexibilidade do que um grande projeto de expansão.
Afinal, um investimento produtivo pode exigir anos até começar a gerar retorno e depende de demanda, financiamento e condições macroeconômicas mais favoráveis. Já a recompra pode ser acelerada, reduzida ou interrompida conforme a conjuntura muda.
“É um atestado de valuation muito barato. Hoje, para várias empresas e setores, recomprar a própria ação é mais interessante do que fazer M&A [fusão e aquisição] ou investir organicamente”, afirma Gewehr, do Itaú BBA.
Isso não significa, porém, que as companhias tenham desistido de crescer.
Na leitura dos especialistas, a recompra ganha espaço justamente em um momento em que a visibilidade sobre o retorno de novos investimentos é menor, enquanto a bolsa segue negociando com desconto em relação a outras classes de ativos.
“Hoje, a melhor opção com menor risco tem sido a recompra”, afirma Rodrigo Santoro Geraldes, head de equities da Bradesco Asset.
Mas Santoro chama atenção para o outro lado desse movimento. Se a recompra se torna a principal escolha de alocação de capital por um período prolongado, ela também pode revelar uma escassez de projetos com retorno atrativo.
Com o capex (investimento) de expansão limitado por juros elevados, empresas podem preferir a previsibilidade de reduzir o número de ações em circulação à incerteza de um projeto de crescimento orgânico.
“Menos crescimento é um múltiplo menor. As empresas geram menos lucro à frente. Isso com certeza vai cobrar o seu preço em crescimento de lucro para frente”, avalia Santoro.
A questão, portanto, não é apenas se a recompra é uma boa decisão hoje, mas se ela continuará sendo a melhor alternativa quando o ambiente de juros e atividade econômica mudar.
Segundo ele, uma alocação eficiente de caixa pode se transformar em sinal de menor ambição se os projetos de investimento permanecerem parados por tempo demais.
Além do valuation, os especialistas em ações avaliam que há outro fator que ajuda a explicar o avanço dos programas: a tributação dos dividendos.
Historicamente, o investidor brasileiro se acostumou a olhar para os proventos como a principal forma de remuneração ao acionista.
Com a nova taxação em vigor desde o início do ano, as recompras passaram a ganhar relevância como uma alternativa indireta de distribuição de valor.
Isso porque, ao retirar ações de circulação, a empresa reduz a base sobre a qual seus lucros são divididos. Em tese, isso pode elevar o lucro por ação e aumentar a participação econômica dos investidores que permanecem no papel.
Sant’Anna avalia que a recompra tende a ganhar espaço como instrumento complementar, embora não deva substituir integralmente os dividendos.
“A recompra veio para ficar como parte de uma estratégia para mitigar a tributação dos dividendos”, afirma o gestor.
A expectativa é que distribuições extraordinárias possam, em alguns casos, ser parcialmente substituídas por programas de recompra.
Gewehr também vê o mercado brasileiro caminhando para uma combinação maior entre dividendos e buybacks (recompra), em linha com o que ocorre nos Estados Unidos.
Ainda assim, os dividendos devem continuar relevantes, sobretudo para empresas que disputam a atenção do investidor com a renda fixa e para um público acostumado a receber recursos diretamente na conta.
Na visão de Santoro, a recompra ainda é um conceito menos tangível para a pessoa física brasileira.
O gestor calcula que o volume total recomprado na bolsa equivale a cerca de 1,2% do valor de mercado das companhias, funcionando como uma espécie de rendimento adicional indireto (yield) para o acionista.
“O brasileiro tem uma mentalidade muito voltada para dividendos porque é fácil tangibilizar o dinheiro caindo na conta”, diz Santoro.
Para o gestor, o efeito da recompra existe, mas não aparece como crédito no extrato. Ele se manifesta, em tese, por meio de uma base menor de ações em circulação e de uma participação maior de cada investidor nos resultados futuros da companhia.
Embora a recompra de ações costume ser bem recebida pelo mercado, o movimento também tem efeitos colaterais — especialmente em uma bolsa que já convive com baixa liquidez em uma parcela relevante das empresas listadas.
Ao retirar ações de circulação, as companhias reduzem o free float e podem dificultar a negociação dos papéis, sobretudo em empresas menores ou com participação acionária concentrada.
“No fundo, esse evento de recompra mais acelerada é um fator negativo porque enxuga liquidez”, alerta Sant’Anna.
Em mercados mais profundos, como o norte-americano, esse efeito tende a ser menos relevante. No Brasil, porém, uma redução maior de ações disponíveis pode tornar alguns papéis ainda menos acessíveis para investidores institucionais.
Gewehr avalia que o impacto agregado sobre o volume diário negociado na B3 tende a ser limitado. Ainda assim, reconhece que casos específicos podem ser mais sensíveis, principalmente quando a companhia já opera com free float reduzido.
Além disso, também é preciso separar programas que refletem uma oportunidade real de valuation daqueles que podem ser usados apenas como uma tentativa de dar suporte às ações em um mercado com pouca liquidez.
Para Santoro, o investidor precisa olhar além do anúncio. A pergunta central é se a empresa está aproveitando uma janela de oportunidade ou se simplesmente não encontrou projetos mais rentáveis para o caixa.
O gestor da Bradesco Asset não vê, porém, um cenário definitivo de menor dinamismo no mercado de capitais.
Segundo ele, há um pipeline estimado em R$ 50 bilhões em IPOs (ofertas iniciais de ações) e follow-ons represados, apenas à espera de uma descompressão na curva de juros para voltar ao mercado.
O Itaú BBA lembra que 2024 marcou o recorde histórico de programas de recompra anunciados desde 2005, com 126 operações abertas. Em 2025, foram 82 programas. Em 2026, já são 42 até agora.
Para Gewehr, do Itaú BBA, a relação entre bolsa e recompras costuma ser quase inversa: quando os preços caem e os múltiplos ficam pressionados, as empresas tendem a aumentar as execuções; quando o mercado sobe e se aproxima de máximas, a intensidade diminui.
Com o Ibovespa negociando próximo de oito vezes o lucro estimado, o sinal de compra parece estar ligado em uma parcela relevante das companhias listadas.
A queda dos juros pode devolver espaço a investimentos de longo prazo, aquisições e novas emissões de ações. Mas a expectativa dos analistas é que as recompras não desapareçam com a mudança de ciclo.
“Elas vieram para ficar. Com a tributação dos dividendos, houve também um empurrão para que se consolidassem como mais uma ferramenta de retorno ao acionista”, diz Gewehr.
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