Renda fixa capta bilhões em dólar e em real e consolida ‘novo normal’ no primeiro semestre de 2025, diz Anbima
Debêntures incentivadas ganham cada vez mais destaque, e até mesmo uma “alternativa exótica” cresce como opção

O mercado de capitais brasileiro atingiu o segundo maior volume histórico no primeiro semestre deste ano, somando R$ 328,4 bilhões em captações. Renda fixa segue sendo o maior destaque, com predominância absoluta das debêntures (R$ 192,68 bilhões).
O recorde anterior é do mesmo período do ano passado, quando a captação chegou a R$ 344 bilhões.
César Mindof, diretor da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), afirmou em entrevista coletiva com jornalistas, nesta quinta-feira (17), que 2024 foi um ano muito forte e o consenso era que seria difícil manter o mesmo patamar em 2025.
“Mas o que estamos vendo é uma diferença muito pequena, de 5%. O que nos leva a crer que esses números consolidam o mercado de capitais em um patamar completamente diferente de anos anteriores. Podemos estar diante de uma nova realidade”, diz Mindof.
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Títulos isentos: só dá debêntures incentivadas
Debêntures foram o maior destaque da renda fixa neste primeiro semestre.
Os dados da Anbima mostram que a classe incentivada atingiu um recorde de volume de captação semestral neste ano.
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Enquanto os títulos isentos como um todo tiveram uma leve queda geral, para R$ 112,5 bilhões entre janeiro e junho — frente R$ 120,7 bilhões no ano passado —, as debêntures incentivadas cresceram.
Esses papéis com benefício fiscal aumentaram a captação para R$ 74,5 bilhões, ante R$ 70,7 bilhões no primeiro semestre do ano passado.
O peso da queda ficou para os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e do Agronegócio (CRA).
Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, acredita que o avanço se dá diante da necessidade de financiamento dos emissores e melhor percepção dos investidores em relação aos papéis.
“São títulos que estão oferecendo boa rentabilidade e têm segurança. A possibilidade de investir em empresas com diferentes perfis de risco e setores também é positivo do ponto de vista de diversificação de portfólio”, disse Maranhão.
Já os CRIs e CRAs passam por um momento mais delicado. O principal instrumento de compra desses papéis de renda fixa, que são os Fundos Imobiliários e os Fiagros, estão em um momento de baixa no mercado.
Além disso, esses produtos foram alvo de mudanças regulatórias pelo Conselho Monetário Nacional, que dificultaram a adoção de alguns lastros, e Mindof acredita que isso pode ter prejudicado as emissões.
Versões exóticas
Além das debêntures incentivadas, as notas comerciais foram apontadas como um destaque interessante nas captações deste primeiro semestre.
Os produtos tiveram um salto grande, de R$ 12,96 bilhões para R$ 29,5 bilhões neste ano. A Anbima alerta que teve uma emissão de R$ 13 bilhões que poluiu a amostra. Mas, ainda assim, Maranhão e Mindof acreditam que é um instrumento que deve ganhar tração.
Os diretores da Anbima dizem se tratar de uma “alternativa às debêntures” para os emissores.
As notas comerciais são mais flexíveis em relação ao tempo e custos de estruturação, além de serem mais abrangentes quanto a quais empresas podem emitir.
“A desvantagem é que os investidores enxergam este produto como um ativo exótico para o portfólio. Tem pouca adesão, com exceção dos bancos. No universo bancário tem bastante aderência”, diz Mindof.
Outro instrumento que era visto como exótico e a cada dia mais está entrando nas carteiras dos investidores são os FIDCs.
Há alguns semestres, a Anbima vem apontando o crescimento das captações neste produto e não foi diferente entre janeiro e junho. Sem captações que distorceram os números, os FIDCs chegaram a R$ 40,65 bilhões de captações neste ano, acima dos R$ 37,32 bilhões do ano passado.
As estruturações de cotas com lastro em dívidas financeiras têm sido o foco: crédito consignado, crédito pessoal e multicarteiras financeiras. Agronegócio e recebíveis comerciais também tiveram bastantes emissões no período.
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Renda fixa? Até em dólar
Um último ponto destacado pela Anbima em relação ao primeiro semestre foi o quase recorde de captação da renda fixa no mercado exterior. As emissões atingiram o maior nível desde 2014, somando US$ 17,2 bilhões (R$ 95,77 bilhões, na cotação atual).
No mesmo período do ano passado, essa captação tinha ficado em US$ 14,3 bilhões.
Maranhão afirma que, neste ano, as emissões estiveram concentradas em grandes empresas com parte da receita em dólar. Porém, ele acredita que novos nomes, sem necessariamente ter caixa dolarizado, devem se aventurar no mercado internacional.
“É uma estratégia das empresas para não sobrecarregar o investidor local com muitas emissões. Dessa forma você diversifica seus investidores, com nomes estrangeiros, e melhora a gestão de recursos”, diz.
Um dos impulsos para esse aumento de captação do exterior a Anbima atribui ao governo federal, que tem mantido um volume significativo de emissões externas.
- Empresas: US$ 8,4 bilhões
- República: US$ 5,3 bilhões
- Instituições financeiras: US$ 3,6 bilhões
“A República como um grande emissor abre portas para que as empresas façam o mesmo. Tem sido um movimento recorrente nos últimos semestres”, diz Maranhão.
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