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Ricardo Gozzi

É jornalista e escritor. Passou quase 20 anos na editoria internacional da Agência Estado antes de se aventurar por outras paragens. Escreveu junto com Sócrates o livro 'Democracia Corintiana: a utopia em jogo'. Também é coautor da biografia de Kid Vinil.

DA FARIA LIMA À MOOCA

A conexão da Reag, gigante da Faria Lima investigada na Carbono Oculto, com o clube de futebol mais querido dos paulistanos

Reag fez oferta pela SAF do Juventus junto com a Contea Capital; negócio está em fase de ‘due diligence’

Ricardo Gozzi
12 de setembro de 2025
7:01 - atualizado às 9:39
Se proposta de SAF sair do papel, Contea e Reag pretendem transformar o histórico campo da Rua Javari na Arena Juventus. - Imagem: Clube Atlético Juventus

Os temores de que as investigações sobre a Reag (REAG3) no contexto da Operação Carbono Oculto atrapalhem o processo de transformação em sociedade anônima do futebol (SAF) do Clube Atlético Juventus foram jogados para escanteio, pelo menos por enquanto. É o que afirma a empresa por meio de nota encaminhada à reportagem do Seu Dinheiro.

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Mas o que a operação policial que investiga o envolvimento de uma das gigantes da Faria Lima em um bilionário esquema de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC) tem a ver com um dos times mais queridos dos torcedores paulistanos e referência do futebol-raiz na capital paulista?

No fim de junho, os sócios do clube estabelecido no tradicional bairro da Mooca aprovaram a transformação do Moleque Travesso em SAF.

Reag participa de consórcio liderado pela Contea

A votação ocorreu na esteira de uma proposta de investimentos de R$ 500 milhões em dez anos apresentada por um consórcio liderado pela Contea Capital.

A Contea tem como sócia na empreitada a Reag Capital Holding, gigante da Faria Lima investigada na Operação Carbono Oculto sob suspeita de lavar dinheiro para o PCC. A gestora nega irregularidades.

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Quando a polícia bateu na porta da Reag, já estava em andamento o processo de due diligence para a conversão do Juventus em SAF.

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As investigações alimentaram incertezas em relação ao futuro do negócio. A reportagem do Seu Dinheiro não conseguiu contato direto com o clube nem com a Contea, mas obteve retorno da assessoria de imprensa da Reag.

Por meio de nota, a gestora — que possui mais de R$ 300 bilhões em ativos — informou que “o processo de due diligence segue em andamento, dentro do cronograma estabelecido”.

O processo em questão consiste na análise, pelos investidores, das situações jurídica, contábil, financeira e de governança do negócio a ser adquirido — no caso, o futebol do clube. No entanto, trata-se de procedimento padrão nesse tipo de transação.

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A due diligence no Juventus começou em julho, apenas algumas semanas depois da aprovação da SAF pelos sócios.

Diante disso, a expectativa é de que a avaliação dos potenciais riscos do negócio por parte dos investidores seja concluída até o fim de setembro.

Segundo time de muitos paulistanos

O Clube Atlético Juventus divide o coração de muitos torcedores paulistanos como uma espécie de segundo time.

Mesmo quem não admite a possibilidade de ter um clube de estimação tem dificuldade para antipatizar com o Moleque Travesso.

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Há décadas longe dos holofotes, a transformação do clube em SAF foi a saída proposta pelos diretores e acatada pelos sócios no fim de junho com a promessa de milhões em investimento e um futuro melhor.

“É uma honra para a Reag Capital Holding fazer parte desse novo capítulo da história do Clube Atlético Juventus. Como sócio do clube, ex-atleta de basquete, oriundo da Mooca e de família italiana é particularmente importante este processo e vamos trabalhar com seriedade e profissionalismo para devolver ao Juventus o lugar que nunca deveria ter saído, ou seja, o topo do futebol estadual”, afirmou o então presidente do conselho de administração da Reag na época da aprovação da SAF, João Carlos Mansur.

No entanto, o dinheiro prometido nem ao menos entrou nos cofres do Juventus e a investigação sobre a Reag por pouco não transformou o futuro em incógnita.

No início da semana, Mansur deixou de compor o quadro societário da Reag em meio à repercussão da Operação Carbono Oculto.

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Segundo a empresa, porém, tudo segue conforme o planejado no que se refere à SAF.

A oferta da Contea e da Reag pelo futebol do Juventus

Os planos da Contea e da Reag para o Juventus são ambiciosos. O projeto aprovado pelos sócios prevê o investimento de mais de R$ 500 milhões até 2035.

A proposta contempla a injeção de até R$ 480 milhões no futebol, além de R$ 60 milhões em melhora da infraestrutura.

No modelo societário da Juventus SAF, a fatia dos investidores chega a 90%. Os 10% restantes seguem com os associados do clube.

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A primeira meta é levar o Juventus de volta à Série A-1 do Campeonato Paulista até 2028, disse o presidente do clube, Dilson Tadeu dos Santos Deradeli, quando a SAF foi aprovada pelos associados.

Como o Moleque Travesso já se encontra na Série A-2 do estadual, o objetivo parece até cauteloso demais.

O que chama a atenção é o segundo passo.

"Nosso objetivo é que, dentro de dez anos, o Juventus esteja na Série A do Campeonato Brasileiro", disse Deradelli.

O Moleque Travesso está sem divisão no futebol nacional desde 2001.

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Em abril último, dois meses antes da aprovação da SAF, o Juventus anunciou que não disputaria a Copa Paulista de 2025.

Essa competição garante ao campeão o direito de optar entre uma vaga na Copa do Brasil ou na Série D do Brasileirão.

Ou seja, a pretendida ascensão meteórica do Juventus não vai começar antes de 2027.

Fim do futebol-raiz?

O Juventus é um dos últimos expoentes do chamado futebol-raiz na capital paulista.

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O modesto estádio da Rua Javari, na Mooca, tem capacidade para apenas 5 mil torcedores.

Sem refletores para jogos noturnos, as partidas do Juventus em casa costumam ser realizadas de manhã, início da tarde no máximo.

Se a transformação em sociedade anônima do futebol for consumada, isso deve mudar.

Um dos planos da Contea e da Reag no âmbito da SAF é ampliar a capacidade do Estádio Conde Rodolfo Crespi para 15 mil torcedores.

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O gramado também seria substituído, o estádio ganharia iluminação e até mudaria de nome. Passaria a se chamar Arena Juventus.

A entrada do dinheiro, no entanto, ainda depende da conclusão do processo de due diligence e da assinatura formal do contrato entre as partes.

Em meio à iminente queda de mais um histórico reduto do futebol-raiz em São Paulo, ao menos uma tradição não deveria ser alterada na Rua Javari: o cannoli do Seu Antônio.

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