São Paulo às escuras: quando a Enel assumiu o fornecimento de energia no estado? Veja o histórico da empresa
Somente no estado, a concessionária atende 24 municípios da região metropolitana, sendo responsável por cerca de 70% da energia distribuída

Após o vendaval que atingiu a cidade de São Paulo na quarta-feira, 10, com rajadas de até 98 km/h, 2 milhão de imóveis na capital e região metropolitana ficaram sem luz. Na tarde deste domingo (14), a Enel Distribuição São Paulo já havia restabelecido a energia elétrica de 99% dos clientes, porém 95.117 paulistas ainda estão sem luz.
Segundo a empresa, o evento causou "danos severos à infraestrutura elétrica". O apagão afetou comércio e serviços, que perderam ao menos R$ 1,54 bilhão em faturamento, segundo a FecomercioSP.
A Enel afirmou ter mobilizado mais de 1,8 mil equipes e veículos ao longo dos últimos dias para atender os clientes.
A resposta da concessionária à situação passou a ser acompanhada de perto por equipes da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), que fiscalizam o cumprimento do plano de contingência e as providências adotadas após o vendaval.
Além disso, o serviço da empresa passou a ser alvo de pressões do Ministério Público, que pediu a suspensão da renovação da concessão da Enel, e até do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que pediu intervenção estatal na companhia.
As críticas não são descabidas. Os problemas no fornecimento da Enel em São Paulo não são isolados: ao longo de 2025, episódios de chuvas intensas deixaram dezenas de milhares de imóveis sem energia em diferentes momentos em janeiro, fevereiro e março.
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As principais regiões que tiveram blecautes foram as zonas norte e oeste da capital e em municípios da região metropolitana.
Tempo de resposta e concessão em risco
Dados apresentados pela Aneel mostram que o tempo médio de atendimento a ocorrências emergenciais da Enel em São Paulo aumentou de 9,13 horas em 2019 para 12,21 horas em 2024, um acréscimo de cerca de três horas.
As falhas recorrentes renderam sanções. Em 2024, a Arsesp aplicou R$ 165,8 milhões em multas à Enel por problemas no fornecimento na Grande São Paulo, valor 4.116% maior do que o registrado em 2019.
A concessionária afirma cumprir suas obrigações contratuais e regulatórias e sustenta que realiza "investimentos recordes" para modernizar a rede.
Ainda assim, o contrato virou alvo de questionamentos políticos e judiciais. Em outubro de 2025, a Justiça Federal suspendeu o processo administrativo de prorrogação antecipada da concessão, atendendo a pedido da Prefeitura de São Paulo.
Quando a Enel passou a fornecer energia a São Paulo?
A Eletropaulo, antecessora da Enel no fornecimento de energia em São Paulo, foi fundada em 1981 e privatizada em 1999, quando o então governador do estado, Mário Covas (PSDB), a incluiu no Programa Estadual de Desestatização (PED).
Na privatização, a companhia foi dividida em quatro: Eletropaulo Metropolitana, Empresa Bandeirante de Energia (EDP Bandeirante), Empresa Paulista de Transmissão de Energia e Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE).
A Eletropaulo Metropolitana, responsável pela distribuição na Grande SP, foi adquirida por consórcio liderado pela AES Corporation. Após a compra em 2001 e outras mudanças de reestruturação societária em 2002, a AES assumiu a Eletropaulo, que passou a ser chamada de AES Eletropaulo até 2018.
Já a Enel Distribuição São Paulo, atual concessionária, entrou em cena em 2018, após a AES Eletropaulo ser comprada pelo Grupo Enel, multinacional italiana do setor elétrico. Em junho daquele ano, a Enel adquiriu 73,38% das ações da Eletropaulo por R$ 5,55 bilhões, em leilão realizado na B3.
À época, o governo estadual era comandado por Márcio França (PSB). O estado não vendeu sua participação no processo porque os papéis estavam dados como garantia em outra operação financeira. Com a operação, a marca Eletropaulo deixou de existir, dando origem à Enel Distribuição São Paulo.
O histórico da Enel
O Grupo Enel foi fundado na Itália em 1962, inicialmente como estatal. A empresa passou por um processo de privatização nas décadas de 1990 e 2000 e, hoje, tem capital aberto, com ações negociadas nas bolsas de Milão e Nova York.
O governo italiano mantém uma participação minoritária, de cerca de 23,6%. No Brasil, além de São Paulo, a Enel atua na distribuição de energia no Rio de Janeiro e no Ceará.
Somente em SP, a concessionária atende 7,5 milhões de unidades consumidoras em 24 municípios da região metropolitana, sendo responsável por cerca de 70% da energia distribuída no estado. Apesar do porte, a empresa acumula críticas de moradores, prefeitos e governos estadual e federal.
Nove dias antes do último blecaute, uma auditoria técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) recomendou que a Aneel avaliasse a possibilidade de intervenção federal na empresa, apontando o descumprimento de sete dos onze Planos de Resultados estabelecidos e a baixa efetividade das punições, muitas delas travadas pela judicialização das multas.
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