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O alerta da estatal é o mais recente de uma série de pedidos de socorro feitos ao longo dos últimos meses

Menos de dez dias depois de virar assunto no mercado pela possível compra da fatia privada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, a Eletronuclear voltou a ficar sob os holofotes — mas agora por um motivo que acendeu o alerta em Brasília e pode trazer dores de cabeça para o presidente Lula.
A estatal, que opera as usinas de Angra 1 e 2, pediu um socorro de R$ 1,4 bilhão ao governo para não ficar no escuro, segundo o jornal Folha de S.Paulo. De acordo com o documento ao qual o veículo teve acesso, o caixa da empresa deve secar já em novembro, e a Eletronuclear teme não conseguir honrar seus compromissos até o fim de 2025.
De acordo com o jornal, o pedido teria sido realizado por meio de um ofício encaminhado na última segunda-feira (20) à ENBPar, empresa da União que controla as usinas. O Seu Dinheiro entrou em contato com a instituição, que afirmou que não iria se manifestar.
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Ainda segundo informações do jornal, o comando da Eletronuclear alertou que uma eventual inadimplência de contratos teria um efeito cascata, com antecipação de cerca de R$ 6,5 bilhões em dívidas, além de retenção de receitas dadas como garantia de financiamentos e até a inviabilidade definitiva do Projeto Angra 3.
Porém, um levantamento do BNDES a pedido da Eletronuclear, divulgado em 2024, indicou que o custo para retomar as obras de Angra 3 seria de R$ 23 bilhões. Por outro lado, o valor é ligeiramente superior ao custo estimado para abandonar completamente o projeto, de R$ 21 bilhões. O total investido até agora é de R$ 7,8 bilhões.
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E não para por aí: a Eletronuclear ainda gasta cerca de R$ 1 bilhão por ano com a manutenção e o serviço da dívida de Angra 3. A obrigação consome o caixa próprio da companhia, uma vez que não é coberta pela tarifa de energia.
"Assim, vislumbra-se risco de colapso operacional e financeiro da Eletronuclear já a partir de novembro de 2025, diante do exaurimento de caixa, com potenciais desdobramentos", diz o documento ao qual a Folha teve acesso.
O alerta da Eletronuclear é o mais recente de uma série de pedidos de socorro feitos pela estatal ao longo dos últimos meses.
A recente compra da fatia privada pela Âmbar Energia, braço da J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, traria fôlego à Eletronuclear, que esperava pagar a fatura com a emissão de R$ 2,4 bilhões em debêntures subscritas pela então Eletrobras e que agora serão assumidas pela J&F.
Porém, a operação ainda não saiu do papel. Embora a empresa tenha a expectativa de que o processo seja concluído até dezembro, se isso não ocorrer, a estatal ficará de cara com a inadimplência, “sujeitando-se não apenas a multas e juros, mas também à aceleração de outras dívidas", alertou a ENBPar, citando financiamentos contratados com BNDES e Caixa Econômica Federal.
Segundo a Folha, o ofício cita ainda um passivo de R$ 450 milhões com a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que fornece combustível às usinas. Até o fim de outubro, esse número já subiu para algo próximo de R$ 700 milhões.
A crise da Eletronuclear pode acabar no colo de Lula. Isso porque a estatal já avisou que, sem solução para o colapso iminente, pode se tornar dependente do Tesouro Nacional para pagar despesas de pessoal e custeio.
A dependência de verba federal seria um desfecho desastroso para o governo, que precisaria abrir espaço no já apertado Orçamento Fiscal para acomodar as despesas da Eletronuclear, tendo que sacrificar outras políticas da gestão.
Vale lembrar que o governo enfrentou um dilema semelhante com os Correios, que agora serão socorridos com um empréstimo de R$ 20 bilhões.
Em um documento anterior, enviado pela ENBPar para o Ministério de Minas e Energia (MME) em setembro, detalha a situação delicada da Eletronuclear, que, em dezembro deste ano, precisa quitar uma dívida de R$ 570 milhões com os bancos BTG Pactual e ABC Brasil, contraída para viabilizar a prorrogação da licença de operação de Angra 1 por mais 20 anos.
No documento, a ENBPar indica à União quanto ela precisaria injetar na empresa e dá a entender que o aporte é pré-condição para a emissão das debêntures.
Já o Ministério da Fazenda disse que "tem posição restritiva quanto a pedidos de aporte em empresas estatais". A pasta afirmou ainda que está estimulando melhorias de gestão e alternativas próprias de negócio.
"Eventual pleito de reequilíbrio deve estar embasado em um plano detalhado de sustentabilidade, cuja avaliação concreta deve se dar primeiramente no âmbito setorial e junto à coordenação das estatais", disse à Folha.
Sem perspectiva de aporte, a Eletronuclear busca outras opções, como o "enquadramento extraordinário e antecipado" da empresa nas regras do Decreto n.º 12.500 de 2025, que regulamenta o plano de reequilíbrio econômico-financeiro de estatais não dependentes.
Porém, a Eletronuclear afirma que quaisquer saídas darão alívio ao caixa, mas não resolvem a equação maior.
"O custo de R$ 1 bilhão por ano de Angra 3 é insustentável e ameaça corroer a geração de caixa das demais usinas. A tarifa atual está dimensionada apenas para Angra 1 e 2. Sem uma definição clara sobre o projeto, a Eletronuclear segue em risco iminente de desequilíbrio estrutural", disse à Folha.
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