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Camille Lima

Camille Lima

Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap. Hoje, é repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. A cobertura atual é majoritariamente centrada no setor financeiro (bancos, instituições financeiras e gestoras), em companhias maiores listadas na B3 e no mercado de ações.

REPORTAGEM ESPECIAL

A era do ROE de 20% do Banco do Brasil (BBAS3) ficou para trás — e pode nunca mais voltar, mesmo depois do fim da crise, dizem analistas

Em meio a turbulências na carteira, especialmente no agronegócio, BB enfrenta desafios na busca por rentabilidade, e analistas revelam o que esperar das ações BBAS3

Camille Lima
Camille Lima
10 de novembro de 2025
6:02 - atualizado às 11:34
Logo do banco do Banco do Brasil (BBAS3)
Banco do Brasil (BBAS3). - Imagem: Shutterstock

Embora seja difícil se animar com o Banco do Brasil (BBAS3) no curto prazo, muitos investidores passaram a ver a situação como uma travessia turbulenta, mas que terá fim em algum momento. Porém, parte do mercado agora acredita que o BB jamais voltará a atingir a tão sonhada rentabilidade (ROE) de 20% — nem depois que superar a tormenta no agronegócio.

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Nos últimos trimestres, a combinação de inadimplência crescente, juros altos, crise no campo e regras mais duras da Resolução 4.966 fez o Banco do Brasil ampliar significativamente as provisões — o colchão contra calotes.

A fatura veio no balanço: o lucro caiu, e o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) derreteu para 8%, pior nível em décadas.

Com o peso sobre as finanças, o Banco do Brasil recebeu algumas “colheres de chá” nos últimos meses, incluindo um pacote bilionário de socorro ao agronegócio pelo governo federal — os detalhes você confere abaixo.

Mas os analistas ainda não estão convencidos de que a situação irá se resolver tão prontamente — e, mesmo depois que a tempestade for superada, a expectativa é que o balanço nunca voltará a ser o mesmo de antes dos problemas.

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“O Banco do Brasil chegou a dar mais de 20% de ROE em 2022 e 2023, mas eu não acredito que ele pode voltar a dar uma rentabilidade nesse nível algum dia”, disse Antônio Martins, analista da Kinea Investimentos, em entrevista ao Seu Dinheiro.

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O ROE de 20% pode voltar?

Parte dos analistas enxerga o 3T25 como o “fundo do poço”. Mesmo assim, a recuperação será lenta e gradual, e os desafios de rentabilidade devem se estender até o segundo semestre de 2026.

O gestor da Nero Capital, Daniel Utsch, acredita que, passado o momento ruim para o agronegócio, o Banco do Brasil poderia caminhar de volta a um ROE de 20%, ou próximo disso. 

“Talvez os 20% tenham sido em um momento conjuntural muito mais favorável, mas eu acredito em um patamar de dois dígitos alto, acima do custo de capital”, disse.

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Mas, para a Kinea, o novo normal do BB será outro. Martins acredita que o ROE deve se estabilizar em torno de 15% nos próximos anos — nem tão ruim como os 8% atuais, nem tão bom quanto os 20% dos tempos áureos.

A analista Larissa Quaresma, da Empiricus Research, concorda: “Para 2026, podemos pensar em um ROE voltando para a faixa dos 15%. Mas, para 20%, ainda falta confiança na recuperação da carteira e na qualidade das novas concessões, sem muito viés social.”

E quem impulsionou o BB no auge foi justamente o agronegócio, que hoje afeta sua rentabilidade. Em 2022 e 2023, o Banco do Brasil era o player dominante no agronegócio, em um momento de inadimplência muito baixa. Impulsionado pelo "boom das commodities", o banco mais do que dobrou sua carteira rural em apenas três anos, superando a marca de R$ 400 bilhões.

Acontece que, em 2027, esses elementos não devem continuar. A inadimplência do agro se tornou estrutural no setor, segundo o analista da Kinea. Ele cita três fatores que limitam o avanço daqui para frente:

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  • Maior competição no agronegócio, com novos players dividindo espaço;
  • Selic mais baixa, que reduz ganhos com títulos públicos e a rentabilidade da Previ;
  • Capital mais apertado, o que restringe o pagamento de juros sobre o capital próprio (JCP) e o benefício fiscal associado aos proventos.

Isso tudo sem falar na corrida pela eficiência, em que o Banco do Brasil ainda está atrás dos pares privados — o que implica em custos maiores e menos margem para oferecer serviços a preços mais competitivos aos clientes que os rivais.

“É fato que 2027 será um ano melhor do que 2025 e 2026. Mas é preciso entender qual o patamar de retorno normalizado do Banco do Brasil — e eu acredito que será consideravelmente menor do que foi no pico do banco”, disse o analista.

Banco do Brasil ainda não superou a tempestade

Na divulgação dos últimos resultados, o próprio diretor financeiro (CFO) do BB, Geovanne Tobias, avisou que não seria hora de falar em melhorias de resultado. Segundo ele, o ROE deve permanecer em níveis baixos de dois dígitos em 2025 e só começar a reagir em 2026. “Não espere uma rentabilidade próxima à de 2024”, disse o diretor.

A presidente do banco, Tarciana Medeiros, reforçou o alerta: o terceiro trimestre será “mais estressado”, com sinais de melhora apenas no quarto trimestre, impulsionados pelo crescimento da margem financeira bruta.

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O BB divulga o balanço em 12 de novembro, após o fechamento dos mercados — e deve ser outra vez o azarão da temporada dos bancos. O consenso prevê lucro líquido de cerca de R$ 4 bilhões no 3T25 — uma queda de quase 60% em relação ao mesmo período do ano passado —, com rentabilidade de apenas 8,6%.

Segundo os analistas, a exposição ao agronegócio continua sendo o principal calcanhar de Aquiles do BB, já que cerca de 35% da carteira de crédito está concentrada nesse segmento. Mas ela não é a única preocupação.

A boia salva-vidas do agronegócio — e suas limitações

O pacote de socorro ao agronegócio, lançado pelo governo federal, foi recebido como um respiro. A Medida Provisória 1.314 permite alongar dívidas rurais por até nove anos e refinanciar até R$ 12 bilhões em créditos. Como o BB responde por quase metade do crédito agrícola do país, deve ficar com cerca de R$ 6 bilhões dessa fatia.

Mas, na prática, a ajuda está longe de resolver o problema, de acordo com o mercado.

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A execução da MP foi lenta, e isso acabou gerando um “risco moral” entre produtores — que, na esperança de condições melhores, pararam de pagar as dívidas e esperaram o refinanciamento, segundo o JP Morgan. O resultado disso deve aparecer nas provisões para perdas, na avaliação dos analistas.

Além disso, os R$ 6 bilhões representam uma gota num oceano: a carteira rural do BB supera R$ 360 bilhões. E ainda há dúvidas sobre o quanto os produtores realmente vão aderir ao programa, já que muitos estão em recuperação judicial — e, portanto, fora da renegociação anunciada pelo governo.

Para o analista da Kinea, o pacote traz alívio, mas não resolve a questão estrutural: “Com o pacote, a situação para de piorar. Mas tenho dificuldade em ter confiança de que o negócio vai melhorar para a frente.”

Na mesma linha, Larissa Quaresma, da Empiricus, acredita que os efeitos práticos virão apenas em 2026, quando as renegociações começarem a gerar impacto real nos índices de inadimplência.

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Mas, segundo Quaresma, o que vai sanar o problema do Banco do Brasil “é uma concessão um pouco mais conservadora, diante desse cenário de alavancagem excessiva e recuperação judicial usada pelos produtores”.

Já o Citi está mais otimista quanto aos efeitos futuros da boia salva vidas do governo ao agro no balanço do Banco do Brasil, com receitas marginalmente maiores, uma base de capital mais ampla, e uma eventual melhora no provisionamento a partir do ano que vem.

O agro não é o único risco do Banco do Brasil

A questão é que os problemas do Banco do Brasil não se restringem ao campo. A inadimplência também cresceu nas carteiras de pessoa física e de pequenas e médias empresas (PMEs).

O Citi alerta para riscos adicionais vindos das PMEs, que representam cerca de 11% da carteira total, já que a desaceleração da economia afeta mais esses clientes.

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Diante disso, o BB vem apertando os cintos e realizando uma limpeza relevante na carteira de crédito, sem tantas novas concessões para empresas mais enroscadas e de menor nível de faturamento. 

O foco agora é ter uma carteira com mais garantias, reforçar as renegociações e ser mais seletivo na concessão de novos créditos. O banco também busca expandir operações no segmento de Pessoa Física e crescer no público de alta renda — um esforço que o Seu Dinheiro detalhou em entrevista recente com a diretora responsável pelo segmento.

Um processo longo e doloroso: o que esperar do Banco do Brasil daqui para frente?

Segundo os analistas, o “banho de limpeza” do BB deve se estender até meados de 2026. 

Porém, a avaliação dos especialistas é que o processo “é sempre muito doloroso”: enquanto o banco reorganiza a carteira e ajusta o apetite de risco, o crescimento fica limitado.

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É por isso que o analista da Kinea vê 2026 como “um ano ainda bem desafiador”. “Tem que arrumar a casa e parar de dar crédito para quem está mega estressado. Mas, quando um banco tem que resolver problemas de carteira, nunca é um processo rápido”, disse Martins.

A aposta da Empiricus é que o ponto de virada do BB acontecerá quando a nova safra de crédito começar a ser paga — potencialmente na metade de 2026. Até lá, a perspectiva ainda é de uma rentabilidade aquém do custo de capital, abaixo de 15%.

E as ações BBAS3?

Em geral, a recomendação do mercado ainda é de cautela para as ações do Banco do Brasil. De oito recomendações para BBAS3, seis são neutras e apenas duas são de compra, de acordo com a plataforma TradeMap.

O Citi recentemente elevou a recomendação de neutra para compra, acreditando que o banco pode encontrar uma rota mais tranquila e recuperar parte do terreno perdido na B3.

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Para a Empiricus, porém, a valorização das ações depende de uma melhora sustentada da rentabilidade ou de um novo ciclo de crédito mais forte, o que não deve ocorrer tão cedo.

Quaresma destaca que há, ainda, um elemento político no horizonte: as eleições de 2026. “O papel depende muito do ciclo eleitoral. Se tiver aumento de chance de um governo mais ‘centro-direita’ nas pesquisas de intenção de voto, o Banco do Brasil tende a reagir, assim como outras estatais”, afirmou.

Até lá, o Banco do Brasil segue no modo reconstrução — arrumando a casa, renegociando dívidas e tentando provar ao mercado que o pior já ficou para trás.

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