Rodolfo Amstalden: As expectativas de conflação estão desancoradas
A principal dificuldade epistemológica de se tentar adiantar os próximos passos do mercado financeiro não se limita à já (quase impossível) tarefa de adivinhar o que está por vir
O Ibovespa acumula valorização de +10% desde o início de 2025.
Com uma esticada a mais, é quase um ano inteiro de Selic…
Investigando caso a caso as componentes do índice, encontramos ganhos ainda mais significativos.
Ações de beta elevado como COGN3, MGLU3, YDUQ3 e CVCB3 subiram entre +40% e +70% YTD, ajudadas também pelo short squeeze.
- E MAIS: Quer investir melhor? Veja como ficar por dentro do que está acontecendo de mais quente no mercado financeiro
De fato, até mesmo papéis quality entregaram grandes porradas durante esta janela de primeiro trimestre, com saltos entre +30% e +40% para CYRE3, EMBR3 e BPAC11 - só para citar alguns exemplos nobres.
Pessoalmente, e sobretudo adotando uma visão ex ante, eu prefiro lucrar +40% com Cyrela a lucrar +70% com Cogna. Mas sem juízo de valor aqui: no Carnaval, cada folião tem o direito de encontrar o seu parceiro ideal.
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Agora, imagine que o Carnaval nem chegou ainda, e o melhor da diversão está por vir.
A dificuldade de prever o mercado
Vamos voltar um pouco no tempo.
Lá em dezembro de 2024, se o Oráculo me dissesse que o IBOV começaria o próximo ano com o pé direito, graças à derrocada de Lula nas pesquisas, acompanhada por uma pronta ascensão de Tarcísio, eu responderia que até faz sentido como tendência, mas parece um pouco rápido demais.
E se esse mesmo Oráculo dissesse que a atividade doméstica perderia tração, dando margem a uma virada antecipada do ciclo monetário, eu fingiria um certo entusiasmo, por educação, mas guardaria sérias dúvidas sobre a virtuosidade holística deste novo cenário.
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Agora, se o tal do Oráculo me garantisse que o caos tarifário implementado por Donald Trump bagunçaria o espírito animal dos empresários americanos e provocaria um imediato influxo de bilhões de dólares rumo aos mercados emergentes, eu pediria licença e voltaria para casa extremamente frustrado por ainda acreditar em entidades capazes de antever o futuro.
A principal dificuldade epistemológica de se tentar adiantar os próximos passos do mercado financeiro não se limita à já (quase impossível) tarefa de adivinhar o que está por vir.
Pois, mesmo que tivéssemos relativo sucesso nesse sentido, ainda dependeríamos de seguir adiante, desenhando toda a teia sucessiva de causas e efeitos incitados por aquela causa raiz.
Você abre um bilhete premiado recebido de um estranho no metrô, na manhã de Natal de 2024, e ali está escrito: “Trump vai tocar o terror geral com suas tarifas malucas!”.
O que você faz?
Qual a sua primeira reação espontânea?
Comprar Bolsa brasileira?
Era tão óbvio…
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