Super Quarta em meio ao caos da guerra: Copom e Fed sob a sombra de Ormuz
Guerras modernas raramente ficam restritas ao campo militar. Elas se espalham por preços, cadeias produtivas, inflação, juros e estabilidade institucional

A semana começou com os mercados reagindo de forma moderadamente positiva às notícias de que o Irã teria apresentado aos Estados Unidos uma nova proposta para reabrir o Estreito de Ormuz, ainda que as discussões sobre o programa nuclear possam ficar para uma etapa posterior.
O cenário, no entanto, segue frágil e marcado por contradições. A tentativa de retomada das negociações no fim de semana fracassou após o cancelamento do encontro previsto no Paquistão, deixando claro que o impasse central entre as partes permanece sem solução.
Teerã insiste que não negociará sob pressão ou bloqueio, enquanto Washington mantém o cerco aos portos iranianos e amplia sua presença militar na região.
Ao mesmo tempo, canais diplomáticos indiretos seguem abertos, com o chanceler Abbas Araghchi em conversas com Rússia e Paquistão, além de relatos de que um acordo provisório poderia envolver a reabertura de Ormuz em troca do fim das restrições norte-americanas.
Nesse contexto, o estreito permanece no centro da disputa, afetando uma das principais rotas energéticas do mundo e mantendo o Brent acima de US$ 100 por barril.
O dilema do Banco Central nos cortes da Selic
Além da geopolítica, contudo, a semana será marcada por uma agenda intensa de política monetária global.
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No Brasil, o principal evento da semana será a decisão do Copom na chamada Super Quarta. A expectativa predominante segue sendo de corte de 25 pontos-base na Selic, dando continuidade ao ciclo de flexibilização monetária.
Ainda assim, a tendência é de uma comunicação mais dura e cuidadosa por parte do Banco Central. Isso significa que, mesmo reduzindo os juros agora, a autoridade monetária deve reforçar que o espaço para novos cortes está mais limitado e dependerá fortemente da evolução dos dados à frente.
O mercado buscará sinais sobre a velocidade e a extensão do ciclo remanescente, em um momento no qual o debate deixou de ser se a Selic cairá e passou a ser até onde ela poderá recuar.
Há razões concretas para essa postura mais contida. A inflação corrente mostra sinais de aceleração (e está qualitativamente ruim) e as expectativas para horizontes mais longos seguem desancoradas em alguns segmentos.
A alta recente do petróleo, impulsionada pelas tensões no Oriente Médio, tende a contaminar combustíveis, fretes e cadeias produtivas, dificultando o trabalho de desinflação, o que reduz o espaço para movimentos muito agressivos no Brasil sem impacto cambial relevante.
Nesse contexto, o Banco Central pode revisar para cima suas projeções de inflação no horizonte relevante, reforçando a necessidade de prudência.
Para os mercados locais, a mensagem tende a ser clara: o ciclo de cortes continua vivo, mas provavelmente em ritmo mais gradual e menos profundo do que se imaginava meses atrás.
As consequências para os mercados e empresas
Isso favorece uma postura mais seletiva na bolsa de valores, premiando empresas com lucros resilientes, capacidade de repasse de preços e balanços saudáveis.
Também ajuda a explicar por que setores excessivamente dependentes de juros muito baixos podem enfrentar uma trajetória menos linear daqui em diante.
A reunião desta semana, portanto, pode confirmar não apenas mais um corte da Selic, mas também uma transição importante: da fase de alívio monetário mais evidente para uma etapa de calibragem fina, marcada por maior cautela.
Qual deve ser a decisão do Fed
Se no Brasil a tendência é de continuidade dos cortes com maior cautela, nos Estados Unidos o quadro parece ainda mais restritivo. A outra metade da Super Quarta será marcada pela reunião do FOMC, em um ambiente consideravelmente mais complexo para o Federal Reserve.
A expectativa amplamente dominante é de manutenção dos juros na faixa de 3,50% a 3,75%, mas, assim como no caso brasileiro, a decisão em si tende a ser menos importante do que a mensagem transmitida pela autoridade monetária.
Foco está em Powell
O foco do mercado estará concentrado no tom de Jerome Powell, que deve comandar sua última reunião à frente do banco central norte-americano. Depois de semanas em que se discutia quando os cortes seriam retomados, o debate passou a girar em torno de por quanto tempo os juros precisarão permanecer elevados.
A principal razão para essa mudança está justamente no pano de fundo geopolítico discutido anteriormente. A alta recente do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio adiciona uma nova camada de pressão inflacionária à economia norte-americana, especialmente por meio de combustíveis, transporte e expectativas de preços.
Em outras palavras, ainda que o choque venha de fora, ele dificulta o trabalho doméstico do Fed. Ao mesmo tempo, a atividade econômica segue relativamente firme e o mercado de trabalho ainda mostra resiliência, reduzindo a urgência por cortes imediatos.
Isso coloca Powell diante de um dilema clássico: manter juros altos ajuda a preservar a credibilidade no combate à inflação, mas prolongar esse aperto aumenta o risco de uma desaceleração mais intensa à frente.
No campo institucional, cresce também a atenção em torno da sucessão de Powell, com avanço político do nome de Kevin Warsh para a presidência do Fed.
Após a retirada de resistências no Senado, aumentou a probabilidade de sua confirmação, reduzindo o risco de vacância prolongada no comando da instituição. Warsh é visto como um nome experiente, com passagem por Wall Street e pelo próprio Fed, além de potencialmente mais alinhado às prioridades econômicas do governo Trump.
Sua eventual chegada pode sinalizar uma combinação de maior abertura futura para cortes de juros com postura mais rigorosa em relação ao balanço patrimonial do banco central. A reunião desta semana, portanto, pode representar não apenas mais uma decisão de manutenção, mas o encerramento de uma era e o início de uma nova fase para a política monetária norte-americana.
As consequências da guerra no Oriente Médio na economia global
A discussão desta semana deixa claro que o choque no Oriente Médio já transcendeu a geopolítica e passou a influenciar diretamente o trabalho dos bancos centrais.
No curto prazo, a alta do petróleo pressiona combustíveis, transporte e expectativas inflacionárias, ajudando a explicar por que tanto o Copom quanto o Federal Reserve tendem a adotar posturas cautelosas, ainda que estejam em momentos distintos de seus ciclos.
Os efeitos, contudo, podem ir além da energia. O conflito já começa a pressionar a cadeia global de alimentos, com fortes altas em fertilizantes importantes como ureia e amônia, em parte porque cerca de 30% desse comércio mundial depende do Estreito de Ormuz.
Soma-se a isso a interrupção parcial da produção russa e as restrições de exportação impostas pela China, formando um ambiente de oferta mais apertada e custos crescentes. Caso esse quadro persista, os impactos tendem a aparecer com maior intensidade nas próximas safras, elevando despesas no campo e aumentando o risco de inflação de alimentos ao longo de 2027.
Para economias emergentes, onde a alimentação pesa mais no orçamento das famílias, esse efeito costuma ser ainda mais sensível.
Para os países mais pobres, a crise já começou. Pequenos produtores rurais operam com margens estreitas e são os primeiros a sentir a alta de insumos, fretes e energia, enquanto organismos internacionais alertam para o risco de agravamento da fome aguda e aumento da instabilidade social.
Historicamente, a insegurança alimentar frequentemente antecede protestos, rupturas políticas e novos conflitos. O episódio atual reforça uma lição recorrente dos mercados globais: guerras modernas raramente ficam restritas ao campo militar. Elas se espalham por preços, cadeias produtivas, inflação, juros e estabilidade institucional, impondo custos econômicos muito além da zona de combate.
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