E agora, Lula? ‘Onda vermelha’ nos EUA pode se somar à dominância fiscal e anular poder do Banco Central sobre inflação, diz gestora
Para a TAG Investimentos, o Brasil caminha para uma situação de “dominância fiscal”, quando a política monetária e a fiscal se distanciam uma da outra

O termo “tempestade perfeita” é utilizado pelos operadores do mercado financeiro para descrever condições exatas para que algo aconteça com máxima efetividade — seja um evento positivo ou negativo. As eleições americanas e a recente elevação do risco fiscal brasileiro, por exemplo, deram alguns sinais para os “meteorologistas” atentos a esses sinais.
Em sua carta mensal, a TAG Investimentos enxerga que uma vitória de Donald Trump na corrida pela Casa Branca e um avanço do partido republicano sobre o Senado e o Congresso — o que os analistas chamam de “onda vermelha” — possa anular qualquer tentativa do nosso Banco Central de controlar a inflação.
Voltando alguns passos, o Brasil caminha para uma situação de “dominância fiscal”, quando a política monetária (de responsabilidade do BC) e a fiscal (do governo federal) se distanciam uma da outra.
Esse conceito de dominância fiscal diz que, em situações de altos déficits e aumento da dívida pública, as tentativas do BC de controlar a inflação podem até mesmo atrapalhar a tentativa de disciplinar as contas do governo.
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Déficit, juros altos, risco fiscal — e repete
Em linhas gerais, quando os governos injetam mais recursos na economia e, consequentemente, elevam os gastos e aumentam suas dívidas, há uma pressão inflacionária sobre a economia, o que também piora a percepção de risco daquele país.
Isso cria um cenário de desancoragem das expectativas, o que exige do Banco Central um aumento nas taxas de juros. Porém, o aperto monetário também eleva os custos da dívida pública — o que leva a uma desconfiança fiscal novamente e o ciclo se repete.
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Na visão da TAG, pode ser cedo para falar de um cenário de dominância fiscal, ainda que, em termos de endividamento, o Brasil caminhe para um panorama parecido.
Mesmo assim, os analistas enxergam o atual momento — que chamam de “momento da verdade” — com bons olhos, ao menos no que diz respeito às contas públicas.
“Somos otimistas neste cenário pela história, afinal o Brasil é o país que sempre chega no abismo, mas não pula”, escrevem.
E onde entra a onda vermelha com Donald Trump
Mas o Brasil não é uma ilha isolada do mundo. Fatores externos podem exigir uma postura mais agressiva do Banco Central contra uma potencial inflação descontrolada, como é o caso de um câmbio mais forte em relação ao real.
Na última semana, o dólar fechou no segundo maior patamar da história, acima dos R$ 5,80. A expectativa com uma vitória de Trump impulsionou a moeda norte-americana contra os pares, o que penalizou especialmente os emergentes.
Isso porque o mercado vê como maior possibilidade uma vitória de Trump sobre Kamala Harris. Além disso, as chances de os republicanos formarem maioria nas Casas Legislativas também é elevada.
Ainda que ambos os candidatos prometam aumentar o déficit fiscal do país (Trump na casa dos US$ 2 trilhões e Harris na casa dos US$ 1,5 trilhão), as políticas do candidato republicano tem um viés mais inflacionário, na visão dos analistas da TAG.
Tudo que o Brasil não precisa
Isso porque Trump promete desregulamentar a economia e elevar tarifas de importação de maneira linear em 10% em todo mundo, além de taxas extras em países como China e ampliar uma política de deportação de imigrantes ilegais.
”Tanto a questão tarifária quanto a migratória são inflacionárias. Talvez impedindo o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) de continuar a cortar as taxas de juros”, dizem os analistas.
Por fim, um cenário de onda vermelha seria bom para o crescimento americano, bom para a bolsa americana (alguns setores como financeiro, saúde, doméstico e petróleo), dólar mais forte e uma curva de juros longos voltada para cima.
E tudo o que o Brasil não necessita, em um momento de crise de credibilidade, é de um cenário externo adverso aos emergentes, dizem os analistas.
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