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O aguardado início de um ciclo de corte de juros pelo Fed tende a mudar a dinâmica das ações e do dólar nos mercados globais
Nas últimas semanas, o mercado cambial brasileiro tem passado por flutuações significativas. O dólar, que já vinha em uma trajetória de alta, alcançou níveis próximos a R$ 5,70 entre junho e julho e, na última segunda-feira, superou a marca de R$ 5,80.
Esse cenário sugere um possível ressurgimento de pressões inflacionárias, dado que o Brasil é um grande importador de bens de consumo. Um dólar elevado por um período prolongado pode resultar em uma inflação mais alta e persistente no país.
Isso é especialmente preocupante após o IPCA de julho atingir o teto de 4,5% na comparação anual.
O índice para o mês superou as expectativas, alcançando 0,35%, e nos coloca à beira de ultrapassar o limite máximo da meta de inflação, considerando que o índice de agosto do ano passado foi de apenas 0,22%.
Acontece que alguns agentes de mercado defendem um aumento da taxa Selic com base justamente na expectativa de que o real continue depreciado.
No entanto, com o Federal Reserve sinalizando possíveis cortes nas taxas de juros, essa perspectiva se torna menos clara.
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Observe que o real se recuperou em relação ao dólar após a turbulência da última segunda-feira, o que sugere uma possível estabilização.
Por isso, mantenho a previsão de que a Selic permanecerá no patamar atual, mesmo que os mercados futuros indiquem uma possível elevação.
No cenário internacional, algumas projeções sugerem dois cortes consecutivos de 50 pontos-base nas próximas reuniões do Fed, em setembro e novembro.
Esses cortes seriam justificados pela deterioração do mercado de trabalho e pela inflação relativamente controlada nos EUA, sugerindo uma rápida redução dos juros para 3,25%, equivalente a um juro real de 1%.
Pessoalmente, questiono a necessidade de medidas tão drásticas, pois elas poderiam enviar um sinal alarmante para a economia global.
Como discutimos anteriormente, o recente aumento na aversão ao risco foi impulsionado pelo temor de uma recessão nos EUA.
Portanto, cortes de juros excessivos ou desnecessários poderiam, em tese, intensificar as preocupações (sinal de desespero) em vez de proporcionar alívio.
Não acredito em uma recessão nos EUA, uma perspectiva que é corroborada pelo recente relatório de pedidos de auxílio-desemprego.
Ao mesmo tempo, considero improvável que posturas conservadoras, como a de Michelle Bowman, membro do conselho do Federal Reserve, que defende a manutenção das taxas de juros, se mantenham inalteradas nos próximos meses, especialmente à luz dos novos dados econômicos que estão por vir.
A inflação desta semana, por exemplo, será um fator crucial nesse cenário.
Espera-se que o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de julho registre um aumento de 3% em relação ao mesmo período do ano anterior e 0,2% em relação ao mês anterior.
Esse aumento anual de 3% está em linha com o observado em junho, enquanto o crescimento mensal contrasta com a queda de 0,1% registrada no mês anterior. Excluindo os preços de alimentos e combustíveis, a inflação anual deve alcançar 3,2%.
Além do CPI de julho, que caso venha abaixo do esperado ajudaria o real, outro evento significativo que se aproxima é o Simpósio de Jackson Hole, marcado para o final de agosto, pouco antes da reunião do Fed em setembro, onde se espera um possível corte de juros.
Este simpósio será uma oportunidade essencial para compreender melhor as perspectivas dos principais dirigentes da política monetária global.
Em relação a esse cenário, além das minhas avaliações, comentários de peso, como os de Louis Gave, da Gavekal, apontam para uma probabilidade crescente de que o Fed corte sua taxa básica de juros, o que poderia resultar em uma desvalorização do dólar frente às principais moedas globais. Caso esse corte de juros se concretize nos EUA, pode não ser necessário elevar as taxas de juros no Brasil.
A manutenção da Selic em 10,50% ao ano, acompanhada de um discurso firme por parte do Banco Central, poderia ser suficiente para garantir resultados positivos com o real, como observado recentemente.
Em outras palavras, à medida que o dólar enfraquece, outras economias poderiam assumir a liderança no crescimento global, e outros mercados poderiam impulsionar um novo ciclo de alta.
Assim como o estouro da bolha das pontocom entre 2000 e 2001 não representou o fim, mas sim uma transição, o término do mercado em alta nas bolsas norte-americanas e uma possível desaceleração do PIB dos EUA não devem ser encarados como catastróficos.
Pelo contrário, podem abrir caminho para novas oportunidades. Esse cenário nos leva de volta à questão da rotação setorial.
Esse movimento tem realocado investimentos, antes concentrados nas grandes empresas de tecnologia, para setores menos valorizados, como as "small caps", motivado, em parte, pelo aumento do pessimismo em relação aos elevados custos associados ao desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial.
A "tempestade perfeita" que se formou na semana passada, impulsionada por temores de recessão, resultados corporativos aquém do esperado no setor de tecnologia, uma excessiva concentração de capital em poucas empresas e o fim do financiamento a juro zero proporcionado pelo iene, intensificou ainda mais a correção nos mercados.
Desde julho de 2021, os principais desafios para os ativos de risco no Brasil têm sido as elevadas taxas de juros internacionais e o foco quase exclusivo na inteligência artificial, setor em que o Brasil tem pouca participação.
Com a queda dos juros nos Estados Unidos, aumenta o interesse por mercados periféricos.
Essa mudança no panorama econômico traz boas perspectivas para o real.
No Brasil, os prêmios de risco estão elevados, muitos ativos encontram-se subvalorizados e o mercado antecipa um aperto específico nas condições monetárias.
Com isso, espera-se que o segundo semestre deste ano apresente dinâmicas consideravelmente distintas das observadas na primeira metade.
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