Questão fiscal não é o único problema: esses são os 6 motivos que inibem retorno dos investidores gringos para o Brasil, segundo o BTG Pactual
Nos últimos meses, o cenário internacional continuou a se deteriorar para a América Latina, o que prejudica o panorama para investir na região, de acordo com os analistas

Após meses de especulação sobre o que poderia aumentar o interesse dos estrangeiros pelo Brasil, o mercado financeiro agora percebe o retorno desses investidores à bolsa brasileira mais como uma fábula contada na Faria Lima do que uma realidade tangível — e, segundo o BTG Pactual, essa tendência não deve mudar no curto prazo.
Na avaliação dos analistas, para além do problema fiscal brasileiro, há um punhado de questões globais que inibem o retorno dos gringos ao Brasil — especialmente após a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.
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Dos últimos meses para cá, o cenário internacional continuou a se deteriorar para a América Latina, o que complica a vida dos formuladores de políticas locais e prejudica o panorama para investir na região.
Na visão dos analistas, existem seis principais fatores que podem amplificar o impacto negativo sobre os ativos de risco locais — como é o caso da bolsa brasileira e de fundos de ações e multimercados, por exemplo.
Confira a seguir:
1 - A gestão de Trump nos EUA
Um dos motivos que podem prejudicar o retorno dos gringos para o Brasil está nos Estados Unidos — mais especificamente, do lado da inflação e das curvas de juros após a volta de Trump à presidência.
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Na visão do BTG, a nova gestão do republicano deve gerar implicações negativas para mercados emergentes, a começar pelo dólar mais forte no mundo inteiro, maior inflação e esticamento da curva de juros por lá.
Trump já deixou claro que adotará uma postura agressiva em relação à China, que concederá estímulos maiores às empresas norte-americanas e aumentará tarifas para negócios estrangeiros.
Segundo os analistas, isso eleva as chances de novas tensões econômicas e geopolíticas entre as duas maiores economias do mundo e, por consequência, impactar diretamente o crescimento global.
2 - Inflação dos Estados Unidos em xeque
Outra questão nos Estados Unidos levanta preocupações sobre a volta dos estrangeiros para a bolsa brasileira: a inflação.
Isso porque o mercado teme o potencial inflacionário das políticas do republicano para a economia norte-americana, com medidas fiscais e tarifárias que podem ter efeito direto na alta de preços por lá.
Mesmo nos dados mais recentes, os EUA já demonstraram uma estagnação no processo de desinflação. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) de outubro subiu 0,2% no comparativo mensal, a 2,6% ao ano. Em setembro, o indicador havia subido 0,2% na base mensal e 2,4% no comparativo anual.
“O caminho da desinflação parece menos linear, com (alguns) sinais de estagnação, sugerindo um cronograma mais longo para atingir a meta de 2%, em nossa opinião. Potencialmente em 2026?”, disseram os analistas do BTG Pactual.
3 - Por que os juros nos EUA afetam o Brasil?
Ainda de olho na macroeconomia norte-americana, a curva de juros é uma questão crucial para uma eventual retomada dos investimentos estrangeiros no Brasil — e a situação parece ter piorado recentemente.
Em meio à expectativa de inflação maior nos EUA, os yields (rendimentos) dos Treasurys — os títulos de dívida do governo norte-americano — também subiram na terra do Tio Sam.
Nas últimas semanas, o yield dos T-notes de 10 anos chegou a 4,40%. Você confere com detalhes o que são os títulos do Tesouro norte-americano e por que a alta das taxas nos EUA mexe com a bolsa brasileira aqui.
“Como o principal determinante do custo de capital global, esse movimento é um claro obstáculo para os fluxos para mercados emergentes, bem como para os níveis de valuation”, escreveram os analistas.
É por isso que os juros nos EUA também pesam sobre os investimentos na América Latina — especialmente diante da perspectiva de taxas mais elevadas por mais tempo na maior economia do mundo.
Para o BTG, a expectativa para os juros nos EUA ao fim de 2025 é de “apenas” 3,80%, o que indica uma forte revisão em relação às perspectivas anteriores, de uma taxa terminal de 2,80%.
O presidente do BC dos EUA, Jerome Powell, inclusive desanimou o mercado nas últimas semanas ao sinalizar uma postura mais cautelosa sobre a flexibilização do aperto monetário por lá.
Em meados de novembro, Powell afirmou que o forte crescimento econômico dos EUA permite que a autoridade monetária tenha tempo para decidir até que ponto e quão rápido os juros devem cair a partir de agora.
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4 - A economia da China
Mas os EUA não são os únicos obstáculos no caminho dos gringos de volta ao Brasil.
Na realidade, um dos pontos fundamentais para a equação que determinará os rumos do apetite dos estrangeiros vem de outro continente — mais especificamente, da China.
De acordo com os analistas, a economia chinesa tem forte influência sobre o destino dos recursos dos gringos — e, nas últimas semanas, o cerco só parece ter apertado para Pequim.
Para além da guerra comercial com os EUA e os potenciais impactos da política protecionista de Trump, a China recentemente também enfrentou outra decepção com a “terapia de choque” de estímulos à economia local.
Nas últimas semanas, Pequim anunciou um pacote de 10 trilhões de yuans (R$ 8 trilhões, no câmbio atual) para um período de 5 anos com intuito de dar suporte à dívida dos governos locais.
Para o BTG Pactual, o anúncio foi uma “decepção”, uma vez que não continha medidas para dar suporte ao consumidor e também não forneceu garantias de que os mercados imobiliários se estabilizarão.
Em meio a perspectivas menos animadoras, os economistas começaram a reduzir as projeções de crescimento da economia chinesa para o ano que vem — já antecipando os efeitos de uma eventual escalada da guerra comercial com os EUA depois das eleições.
5 - Pressões de commodities
Isso nos leva a outra questão: o peso sobre as commodities.
Afinal, o dólar mais forte no mundo inteiro e as perspectivas de crescimento chinês mais fracas começaram a pesar sobre os preços das matérias-primas.
“As principais commodities importantes para a região — como petróleo, minério de ferro, celulose e aço — continuam com excesso de oferta, com baixas expectativas de uma recuperação em 2025”, destacaram os analistas.
6 - O peso dos EUA sobre o Brasil
O motivo final de preocupação citado pelo BTG Pactual é, na verdade, um apanhado de todos os outros pontos acima mencionados.
A economia mais forte dos EUA, reforçada pela desregulamentação, ganhos de produtividade e cortes de impostos, tende a dar mais suporte aos mercados de ações locais e favorecer os ativos norte-americanos.
Ou seja, nesse ambiente, não haveria motivos para mercados emergentes, como é o caso do Brasil, brilharem aos olhos dos estrangeiros — o que pode manter limitados os fluxos de investimentos gringos para cá, segundo o banco.
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