Maior queda do Ibovespa: saída de CFO do Pão de Açúcar (PCAR3) deixa CEO novato com “bombas” na mão
A saída do executivo que liderava a desalavancagem e as negociações fiscais aumentou a percepção de risco do mercado e pressionou as ações da varejista

O Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) está entre as maiores quedas do Ibovespa nesta sexta-feira (9), com uma desvalorização de 3,52% na reta final do pregão. O tombo vem depois da renúncia de Sirotsky Russowsky aos cargos de vice-presidente executivo financeiro e de diretor de relações com investidores.
Quem assume a posição de CFO de forma interina é o CEO recém-empossado, Alexandre de Jesus Santoro, anunciado nesta semana. Para a diretoria de relações com investidores, foi nomeado Rodrigo Manso.
Russowsky estava na companhia desde 2012. Ao longo dos anos, ele atuou no conselho em diferentes operações do grupo, incluindo GPA, Éxito, FIC e Stix.
Para a XP, a saída não foi uma surpresa, dado as movimentações recentes no alto escalão do GPA.
No entanto, para o JP Morgan, a notícia pode gerar reações negativas, aumentando a incerteza sobre o futuro da companhia.
Segundo o banco, Russowsky liderava o processo de desalavancagem e as negociações tributárias com o fisco, e seu substituto terá que acumular funções de CFO mesmo com pouco tempo na empresa, elevando o risco de execução.
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A dança das cadeiras no Pão de Açúcar
A dança das cadeiras no Pão de Açúcar ocorre em meio ao avanço da família Coelho Diniz na companhia, diante da aparente intenção do grupo mineiro — sem qualquer relação com o bilionário falecido e ex-controlador Abilio Diniz — de priorizar a nomeação de executivos de confiança na empresa da qual agora é o maior acionista.
Em agosto do ano passado eles elevaram a participação para 24,6% do capital do GPA. Em conjunto, a família Coelho Diniz se tornou a maior acionista do GPA, superando a empresa francesa Segisor, que tem pouco mais de 20% do capital.
A Segisor se tornou acionista após reorganização societária realizada em 2015 pela Casino, antiga controladora francesa do Grupo Pão de Açúcar.
Aliás, o Casino está tentando deixar de vez a participação na varejista. Recentemente, o conglomerado europeu afirmou que deixará de oferecer garantias em processos fiscais que somam R$ 2,6 bilhões.
O antigo controlador afirma que, por estar em recuperação judicial na França, as garantias oferecidas não seriam válidas.
A decisão eleva a pressão financeira sobre o GPA, que passa a arcar sozinho com o risco dos processos fiscais, com impacto negativo sobre caixa, provisões e percepção de risco.
O problema fiscal do GPA e o problema da saída do CFO
Por trás disso, está uma batalha que a empresa trava com a Receita Federal sobre a dedução fiscal de ágio — o valor adicional pago em aquisições quando uma companhia compra outra por um preço acima do seu valor contábil, geralmente associado a expectativas de ganhos futuros, como sinergias e maior geração de caixa.
O Fisco não concordou e aplicou uma multa de R$ 2,6 bilhões, o que pode aumentar consideravelmente a dívida da empresa, além de representar metade do provisionamento de contingências fiscais registrados no terceiro trimestre de 2025.
Até aqui, o Casino funcionava como respaldo do GPA nas disputas com a Receita Federal, oferecendo garantias para eventuais perdas. Com a retirada desse suporte, a varejista precisará buscar um novo fiador para cobrir os riscos envolvidos nos processos.
Assim, a saída do CFO, que lidava com esse assunto, causa uma séria instabilidade para os rumos da empresa.
Russowsky também cuidava da dívida da empresa
Tudo isso acontece em um Pão de Açúcar que hoje é apenas uma sombra do que já foi.
Cabe lembrar que, em seu auge, o GPA detinha controle sobre uma série de marcas relevantes no varejo brasileiro. Entre elas, destacam-se Pão de Açúcar, Extra, Assaí, Minuto Pão de Açúcar, Drogaria Extra e a participação na Via Varejo, que reunia Casas Bahia e Ponto Frio.
Tudo isso foi sendo vendido para tentar conter a sangria do então controlador francês da marca, o Casino, que mergulhou em dívidas lá fora e foi usando os ativos brasileiros para conter a sangria.
Assim, o Pão de Açúcar, que já sofria com a concorrência forte de hortifrutis e da própria Oxxo diante da bandeira Minuto, foi ficando de escanteio nas vendas e acumulando problemas que antes eram do grupo como um todo.
As dívidas foram se avolumando e, hoje, são descritas por um gestor ouvido pelo Seu Dinheiro como “impagáveis”. Esse valor ficou em R$ 2,7 bilhões no terceiro trimestre de 2025, a mais recente divulgação de resultados da companhia.
Ou seja, dá para entender por que o mercado se incomodou tanto com saída da pessoa que lidava tanto com os problemas com o Fisco como com a alavancagem, dois dos mais cruciais problemas que a empresa enfrenta. Fora que a pessoa que assume está na companhia oficialmente desde segunda-feira (5).
As dívidas “impagáveis” do Pão de Açúcar
Segundo gestores que conversaram com o Seu Dinheiro, a situação da empresa só poderia melhorar se a gestão topasse sentar com os credores e iniciar negociações, o que fica como o grande desafio para Santoro a partir de agora.
“Se fizéssemos um exercício hipotético com a ação do Pão de Açúcar, para ela ser viável de imediato, teria que haver uma conversão de dívida de quase R$ 3 bilhões. Isso implica que a empresa teria que valer mais do que isso. Mas o valor atual está bem abaixo [em cerca de $ 1,9 bilhão, segundo dados do Trademap]”, afirma. Portanto, na visão do gestor, a ação teria que cair.
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