Todos contra Milei? Pacotaço, protestos e processo na justiça — os desafios dos primeiros dias do novo presidente da Argentina
O chefe da Casa Rosada soltou o câmbio, prepara um decreto que mudará as relações de trabalho no país e ainda teve que encarar uma derrota para os EUA nos tribunais

Javier Milei tomou posse como presidente da Argentina há pouco mais de duas semanas e já enfrenta desafios que provocaram um turbilhão na economia dos nossos hermanos.
De cara, o ultraliberal anunciou dois pacotes que pegaram vários setores de surpresa — do agronegócio ao varejo e até a indústria.
Talvez a medida que mais tenha chamado atenção foi a desvalorização da moeda: 54%, o que tirou o dólar dos mais de 400 pesos para 800.
Em questão de dias, alguns produtos subiram quase 90%, segundo consultoras. A previsão é que dezembro termine com uma inflação entre 20% e 30%, levando a taxa de 2023 para 200%.
Mas se os setores ligados ao consumo foram os primeiros a sentir o impacto das medidas, seguido dos trabalhadores e das indústrias, do outro lado da balança, o agronegócio comemorou o fim de entraves de exportação e o maior ganho com um dólar mais caro.
Leia também: Os EUA escaparam em 2023 — como será 2024: a maior economia do mundo vai entrar em recessão?
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Protestos contra Milei
O novo presidente argentino também enfrenta manifestações.
Nesta quarta-feira (27), por exemplo, milhares de membros da principal central sindical e de organizações sociais da Argentina protestaram em frente à sede do Poder Judiciário contra o decreto de Milei que desregula a economia e contempla reformas trabalhistas que consideram desfavoráveis aos trabalhadores.
O decreto, que entrará em vigor na sexta-feira (29), contempla a revogação ou modificação de mais de 300 leis com o objetivo de desregulamentar uma economia com forte intervenção do Estado.
Em relação ao trabalho, o decreto introduz mudanças que desafiam o poder dos sindicatos e alterações à legislação que até agora tem favorecido os trabalhadores.
Entre elas, o decreto restringe o direito à greve em atividades essenciais como serviços hospitalares, educação e transportes e abre caminho para novos mecanismos de compensação que tornarão menos oneroso o despedimento de trabalhadores.
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Argentina perde na justiça
As derrotas judiciais também entram no caminho de Milei. A Argentina perdeu uma disputa na Justiça norte-americana relacionada à estatização da petroleira YPF.
A decisão de um tribunal de Nova York é que a Argentina comece a pagar a partir de janeiro US$ 16,1 bilhões, diante de uma demanda realizada pelo fundo Burford Capital.
Em entrevista ao La Nación, Milei, disse que "uma das ideias" com as quais seu governo trabalha é emitir um bônus perpétuo para ir saldando uma dívida derivada do processo nos EUA.
"Não temos o dinheiro, mas temos a vontade de pagar", disse Milei.
A inflação argentina e as novas notas de peso
Em meio a todo esse imbróglio, Milei segue lutando contra a inflação. O presidente da Argentina confirmou que o banco central está preparando a emissão de notas de 50 mil e 20 mil pesos.
As células novas surgem diante da disparada da inflação e das complicações que a falta de um papel de denominação superior a atual trazem. Hoje, o maior valor em circulação no país é de 2 mil pesos.
Na entrevista ao La Nación, Milei disse que a questão das cédulas é uma "tortura".
"Imagine que você tem que fazer um pagamento em dinheiro, tem que andar por aí com um maço de papéis, colocam uma etiqueta na sua testa que diz 'roube aqui, roube aqui. É óbvio que você está carregando dinheiro", afirmou.
Neste sentido, sublinhou que a ausência de cédulas maiores "dificulta as transações e traz muitos custos". Ele atribuiu as dificuldades do caso aos governos anteriores.
"Entendo que os Kirchneristas usaram este truque para tentar abrandar a circulação do dinheiro, mas nós, como parte do nosso programa fiscal, monetário e cambial, fechamos a torneira monetária, tanto ao nível dos Leliqs como ao nível do déficit", afirmou.
E vem mais por aí, não é Milei?
E mais deve estar por vir. Isso porque o presidente da Argentina entregou nesta quarta-feira (27) um amplo pacote de medidas ao Congresso do país.
O projeto, denominado “Lei de Bases e Pontos para Liberdade dos Argentinos”, prevê:
- Eliminação das eleições primárias (Paso, na sigla em espanhol);
- Modificação da forma de eleger deputados;
- Mudanças no financiamento dos partidos políticos;
- Transferência da Justiça Nacional para a Cidade de Buenos Aires;
- Concessão de poderes ao Executivo para privatizar empresas estatais;
- Prisão para quem participa de manifestação contra o governo;
- Um teste como o Enem no Brasil para os alunos do ensino médio.
*Com informações da AFP e do La Nación
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