Juros vão cair nos EUA? O que o dado de inflação de outubro diz sobre o futuro da maior economia do mundo
Um bancão não descartou a possibilidade de recessão em 2024 mesmo diante da força da economia norte-americana este ano; saiba o que o Fed precisará fazer se isso acontecer

O presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, bem que tentou calibrar as expectativas do mercado ao manter sobre a mesa a possibilidade de um novo aumento de juros ainda este ano nos EUA — mas os dados de inflação de outubro sacramentaram o que os investidores já esperavam: o trabalho do banco central norte-americano está concluído.
O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) norte-americano ficou estável em outubro na comparação mensal e abaixo da previsão de 0,1% da Dow Jones, segundo dados do Departamento de Trabalho. Em termos anuais, o CPI subiu 3,2%, também menor do que a projeção de alta de 3,3%.
Para completar, o núcleo do índice — que exclui os preços mais voláteis da energia e dos alimentos — subiu 0,2% em base mensal e 4% em termos anuais, com ambas as leituras abaixo das previsões de 0,3% e 4,1%, respectivamente.
É verdade que o CPI não é a medida preferida do Fed para a inflação e que Powell já disse várias vezes que um dado isolado não é o suficiente para convencer o banco central de que os preços estão em uma trajetória de queda sustentável — e na direção da meta de 2%.
Mas tanto o CPI como o PCE — como é conhecido o índice de preços para gastos pessoais, a métrica usada pelo Fed para a inflação — estão desacelerando há alguns meses, respondendo ao agressivo aperto monetário iniciado pelo BC dos EUA em março de 2022.
Olhando para esse quadro, os investidores comemoraram o dado desta terça-feira (14). Wall Street abriu as negociações com altas superiores a 1% e os yields (rendimentos) do título de dez anos do governo norte-americano ficaram abaixo de 4,5% depois do pico de 5% de algumas semanas atrás.
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Por aqui, o CPI de outubro também foi comemorado. O Ibovespa passou a subir 2% e atingiu o maior nível do ano, o dólar caiu a R$ 4,85 e os DIs também perderam força. Acompanhe nossa cobertura ao vivo dos mercados.
Os juros vão cair nos EUA?
As apostas dos traders mostram que sim — e bem antes do que era esperado.
Na semana passada, quando Powell fez um discurso dizendo que o banco central não estava convencido de que a inflação seguia uma trajetória sustentável de desaceleração para a meta de 2%, o mercado esperava que um corte de juros nos EUA só aconteceria a partir de junho de 2024.
Mas os dados do CPI de hoje mudaram essa visão. Agora, as apostas são de que uma redução da taxa referencial pelo Fed já pode acontecer em janeiro do ano que vem, de acordo com dados compilados pelo CME Group.
A ferramenta FedWatch mostrou ainda 99,8% de probabilidade de manutenção dos juros em 5,25% e 5,50% ao ano na última reunião de 2023, marcada para 12 e 13 de dezembro.
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O que dizem os especialistas
Embora as apostas indiquem manutenção dos juros em dezembro e corte das taxas a partir de janeiro do ano que vem, os analistas evitam cravar o que pode acontecer a partir de agora nos EUA.
Para a diretora administrativa e economista sênior da TD Economics, Leslie Preston, ainda é cedo para o Fed declarar vitória em relação à inflação porque os índices ainda estão acima da meta de 2% do banco central.
“O desafio do Fed é que grande parte dos frutos mais fáceis de alcançar em matéria de desinflação já foram colhidos. A resolução dos problemas da cadeia de abastecimento que mantinham os preços elevados e outros pontos problemáticos da reabertura da pandemia já exerceram uma influência descendente sobre a inflação”, disse Preston.
- Leia também: A bola de cristal de Powell: Fed mantém juros no nível mais alto em mais de 20 anos como esperado — o que vem agora?
Segundo ela, os dados do varejo de outubro, que serão divulgados na quarta-feira (15), são essenciais para entender se a demanda segue aquecida nos EUA.
“Até agora, a demanda dos consumidores tem se mantido elevada, mas estaremos atentos aos números das vendas do varejo de amanhã em busca de sinais de fadiga. Se não começarmos a observar um maior esfriamento, o Fed provavelmente precisará aumentar novamente os juros”, acrescenta Preston.
Já o economista-chefe internacional do ING, James Knightley, diz que os dados de inflação de outubro não devem ter surpreendido o Fed, que trabalhou pela desaceleração dos preços.
“Com uma inflação de 2% parecendo possível no próximo verão [que, no hemisfério Norte vai de junho a agosto], a precificação dos cortes de juros deve se intensificar daqui para frente”, afirmou.
Knightley acredita que o esfriamento dos preços dará mais flexibilidade para o Fed agir daqui para frente, mas preferiu não cravar o que acontecerá com as taxas a partir de agora. Ele ressalta uma abordagem cautelosa do banco central por conta do mercado de trabalho aquecido e do ritmo de aumento dos salários.
O UBS, por sua vez, espera que o Fed corte os juros em até 2,75 pontos percentuais em 2024 usando a possibilidade de recessão da economia dos EUA como um fator adicional para esse movimento.
Na previsão para a economia norte-americana para 2024-2026, publicada na segunda-feira (13), o banco suíço afirma que, apesar da resiliência econômica até 2023, muitos dos obstáculos e riscos permanecem.
O UBS espera que a desinflação e o aumento do desemprego enfraqueçam a atividade econômica em 2024, levando o Fed a cortar os juros “primeiro para evitar que a taxa nominal se torne cada vez mais restritiva à medida que a inflação desacelera, e mais tarde no ano para conter o enfraquecimento econômico”.
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