Ibovespa começa o ano em queda de mais de 3%, pressionado por incerteza sobre combustíveis e arcabouço fiscal
A forte baixa do Ibovespa foi influenciada pela queda de mais de 6% nas ações da Petrobras; o dólar subiu 1,5%, a R$ 5,36

Dois de janeiro de 2023: estamos num dia útil e, em tese, tudo funciona normalmente. Mas a teoria é bem diferente da prática: muita gente ainda está de férias ou em clima de festa. E, depois de um fim de semana cheio de comemorações, uma certa ressaca tomou conta do brasileiro nesta segunda — e uma dor de cabeça particularmente aguda foi sentida nos mercados financeiros, com o Ibovespa em queda e o dólar em alta.
O primeiro pregão do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficará marcado como um dia de perdas firmes na bolsa e maior percepção de risco. Passados os fogos do réveillon e a festa popular em Brasília, a semana começou agitada para os investidores — o recesso prolongado vai ficar para o próximo ano.
E isso porque, já no primeiro dia do governo Lula, houve uma série de sinalizações importantes nos fronts político e econômico. Ainda durante a cerimônia de posse, o novo-velho-presidente voltou a dar declarações contrárias ao teto de gastos. E usou sua caneta para assinar uma medida que traz impacto direto às expectativas de inflação.
Via MP, Lula prorrogou a desoneração dos combustíveis: impostos federais sobre a gasolina e o etanol continuarão zerados por 60 dias e, para o diesel, por um ano. É uma decisão que freia o aumento nas bombas, mas que pode pressionar a dinâmica inflacionária num horizonte mais longo — é como se o inevitável estivesse sendo empurrado para frente.
Mais importante que isso: a medida foi interpretada como um primeiro atrito entre Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que tinha se mostrado favorável ao fim da desoneração já em janeiro.
"Nessa queda de braço, o Haddad já começou perdendo", disse um gestor de uma asset em São Paulo — segundo ele, a interpretação do mercado é a de que Lula dá a palavra final. "Há um avanço nos gastos do governo, há uma renúncia fiscal, mas não há contrapartidas que aumentem a arrecadação".
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Dito isso, é preciso fazer uma ressalva: os principais mercados globais tiraram o dia de folga. EUA, China e Reino Unido, entre outros, prorrogaram o descanso e ficaram fechados hoje — o que reduziu a liquidez por aqui e deu protagonismo à visão mais cautelosa dos investidores locais.
Nesse cenário, o Ibovespa terminou a sessão desta segunda em queda de 3,06%, aos 106.376 pontos. O recuo de 6,45% das ações da Petrobras (PETR4), em meio às dúvidas quanto à continuidade da política de preços com a nomeação do senador Jean Paul Prates (PT-RJ) para a presidência da estatal, puxou o índice para baixo.
O mercado de câmbio foi afetado pela mesma dinâmica: o dólar à vista fechou o dia em alta de 1,51%, a R$ 5,3597, enquanto a curva de juros passou por ajustes de alta em toda a sua extensão — com o cenário de inflação mais alta no médio prazo, os DIs refletiram apostas de continuidade da Selic em patamares elevados.
Ibovespa: Petrobras (PETR4) em baixa, Méliuz (CASH3) em alta
Na bolsa, destaque negativo para as ações da Petrobras: os papéis PN (PETR4) desabaram 6,45%, a R$ 22,92, enquanto os ONs (PETR3) recuaram 6,67%, a R$ 26,17. Além do impasse em relação à desoneração dos combustíveis, o mercado também segue com o pé atrás com a mudança na administração da estatal.
O grande temor dos investidores diz respeito à possibilidade de alteração na política de paridade de preços da Petrobras com o exterior. "Ela [a política de preços] tem sido o grande trunfo, geradora de caixa para a Petrobras", disse o gestor, mostrando dúvidas quanto às medidas a serem adotadas por Jean Paul Prates.
No lado oposto, Méliuz ON avançou 3,39%, a R$ 1,22, e teve o melhor desempenho de todo o Ibovespa. As ações reagiram à venda do controle do Bankly, o braço de serviços financeiros da empresa de cashback, para o banco BV — a subsidiária foi avaliada em R$ 210 milhões.
Ibovespa: maiores altas e maiores baixas
Ponta negativa
| CÓDIGO | NOME | COTAÇÃO (R$) | VARIAÇÃO |
| SMTO3 | São Martinho ON | 23,50 | -11,39% |
| SOMA3 | Grupo Soma ON | 9,25 | -8,78% |
| HAPV3 | Hapvida ON | 4,64 | -8,66% |
| LWSA3 | Locaweb ON | 6,42 | -8,55% |
| RDOR3 | Rede D'Or ON | 27,08 | -8,45% |
Ponta positiva
| CÓDIGO | NOME | COTAÇÃO (R$) | VARIAÇÃO |
| CASH3 | Méliuz ON | 1,22 | +3,39% |
| SUZB3 | Suzano ON | 48,98 | +1,53% |
| CSNA3 | CSN ON | 14,72 | +1,17% |
| IRBR3 | IRB ON | 0,87 | +1,16% |
| GOAU4 | Met. Gerdau PN | 13,05 | +0,62% |
Juros em alta
No mercado de câmbio e juros, a preocupação quanto à dinâmica fiscal do país fez com que o dólar à vista operasse em alta durante todo o dia; esse movimento foi acompanhado pela curva de juros, que passou por ajustes positivos em seus principais vértices, tanto na ponta curta quanto na longa.
Em linhas gerais, há a leitura de que a prorrogação da desoneração dos combustíveis vai adiar as pressões inflacionárias decorrentes do aumento do preço nas bombas. Ou seja: esse efeito será jogado para frente — o que, por sua vez, poderá fazer com que o BC mantenha a Selic em patamares elevados por mais tempo.
Veja abaixo a análise de Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter:
Confira também como ficaram os principais vencimentos da curva de juros nesta segunda:
- Janeiro/24: de 13,45% para 13,51%;
- Janeiro/25: de 12,69% para 12,91%;
- Janeiro/26: de 12,59% para 12,87%;
- Janeiro/27: de 12,60% para 12,91%;
- Janeiro/30: de 12,67% para 12,89%.
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