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Processos como o atual fazem parte de movimentos naturais do mercado; a agressividade da correção se relaciona com o tempo em que nos distanciamos de nossa essência
Sempre me senti fascinado pela conexão que criamos com nós mesmos, ainda que inconscientemente. Nos agarramos ao que nos constitui mais profundamente, aos nossos laços com a mãe terra, nossas raízes, aos moldes de Anteu, que teve seus pés alçados do chão para ser posteriormente derrubado por Hércules.
Muitas vezes somos provocados a explorar algo mais profundo em busca das mais variadas explicações para problemas que nem sempre possuem respostas tão distantes. De certa forma, nada é o suficiente para sanar a curiosidade humana, provocando muitas vezes distorções frente ao que realmente importa.
No conto de ficção científica "Zima Blue and Other Stories", de Alastair Reynolds, posteriormente adaptado em um curta de animação pela Netflix, nos deparamos com uma ideia parecida. Nele, em um futuro distante, o artista plástico Zima Blue, que está prestes a apresentar sua obra final, transparece sua inquietação existencial.
Zima, que inicialmente costumava retratar pessoas em suas obras, se vê mais interessado em alcançar o cosmo, passando assim a pintar o universo em seus painéis gigantes, alguns maiores que planetas. Um pequeno porém: em suas obras, pouco a pouco, passou a pintar pequenos detalhes da cor Zima Blue (um tom de azul).
As intrusões da cor vão se tornando cada vez maiores e mais diversificadas em seus formatos, até que os painéis gigantes do artistas sejam apenas peças gigantescas da cor Zima Blue. Mas qual a razão da obsessão de Zima pela cor que deu origem ao seu nome artístico? Por que o artista estaria se dedicando a obras como essa?
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Painel gigante de Zima Blue
Preciso aqui, infelizmente, contar o final da história.
Peço licença aos leitores, mas se faz necessário esclarecer o que leva Zima a nos trazer obras homéricas e espaciais da cor azul. O motivo se relaciona justamente com o trabalho final do artista: uma piscina com fundo da cor Zima Blue.
Ocorre que ele nunca foi humano, mas, sim, um androide construído a partir de uma robô limpa-piscinas que teve suas partes modificadas e aprimoradas para se parecer mais humano ao longo de seus séculos de existência.
Veja só, Zima passou a pintar murais cósmicos procurando um sentido para sua existência, mas foi só depois de se reencontrar com a sua lembrança mais antiga que se viu realmente em paz. A cor azul dos azulejos era a única lembrança do tempo em que limpava a piscina de sua criadora, quando ele era verdadeiramente feliz.
Zima só se viu inteiro quando voltou a se conectar com a sua origem, sua realidade. Ele construiu as maiores obras de arte do universo, mas só se viu completo quando se conecta consigo mesmo novamente, bem distante das distorções que o tempo o levou.
De modo parecido, o mercado parece ter se distanciado de suas raízes ao longo da última década, sendo de maneira ainda mais evidente de 2020 para cá, com a pandemia. Anos de liquidez desenfreada despejada sobre os mercados pelos Bancos Centrais criou enormes artificialidades.
Nunca estivemos tão distantes de nós mesmos, do que nos constitui.
Lembre-se: no final do dia, as ações ainda são pedaços de empresas.
Por mais que haja um esforço hercúleo para que os valuations sejam lançados a patamares absurdamente altos, como os painéis gigantes e cósmicos de Zima, não há como fugir da realidade.
Acredito que os primeiros meses do ano tenham se baseado um pouco nisso: voltar para patamares mais críveis de valuation, desta vez condizentes com a realidade originária do mercado. Chega de nos basearmos apenas em expectativas irreais de crescimento (com juros mais altos, não será mais possível crescer como antes).
Precisamos agora nos atentar à realidade: os resultados corporativos.
Neste contexto de aperto monetário, em que há uma mudança de paradigma das autoridades sobre como lidar com a inflação, precisamos passar por uma recessão. Justamente por isso a palavra recessão foi citada com recorrência ao longo do Fórum Econômico Mundial, que aconteceu na semana passada em Davos.
A causa dessa possível recessão global é uma combinação entre a inflação mais acelerada em 40 anos no mundo desenvolvido, em especial nos EUA, e uma série de aumentos agressivos dos juros (contração de liquidez) para combatê-la.
Há quem espere um novo regime no qual as taxas de inflação dos mercados desenvolvidos permaneçam acima de 3% ao ano, em vez de retornar à tendência pré-Covid de cair abaixo de 2%.
Neste cenário, em vez de lutar contra a estagnação secular com afrouxamento quantitativo interminável e taxas de juros próximas de zero, as autoridades monetárias estão elevando as taxas rumo a uma reflação secular.
Para o Fed, não importa o que ele faça, pessoas inocentes vão se machucar com a desaceleração da economia. Se ele parasse de aumentar as taxas, ou mesmo começasse a cortar os juros, uma inflação cada vez mais rápida destruiria os gastos do consumidor e derrubaria os planos da empresa. Isso leva a uma recessão por si só.
Mas o Fed vê o dano menor no ato de continuar subindo até parecer que a inflação esteja sob controle, uma vez que deixar os preços correrem desenfreados levaria a uma desaceleração ainda maior do que a que vem com taxas de juros altas o suficiente para prejudicar o crescimento.
A guerra entre a Rússia e a Ucrânia piorou muito a situação inflacionária do mundo, o que prejudica ainda mais a disponibilidade de renda e o poder de compra da população.
Preços de energia e de alimentos costumam funcionar como tributações altamente regressivas, que impactam principalmente os mais necessitados; além disso, o impacto dos lockdowns na China ainda não repercutiu direito nas cadeias de suprimentos globais.
Neste sentido, uma recessão em 2022 seria em grande parte explicada pela inflação, o que parece pouco provável, uma vez que a economia americana ainda parece saudável o suficiente para aguentar tal choque neste momento.
A preocupação fica concentrada principalmente no ano que vem, com os primeiros efeitos do aperto monetário do Fed amadurecendo. Meu entendimento é que o "pouso suave" proposto pelo Fed seja muito difícil, uma vez que desde a segunda guerra mundial, dos 12 apertos monetários nos EUA, apenas 3 não resultaram em uma recessão.
Portanto, haverá uma recessão.
Não temos como fugir dela, dado que se trata de nosso regresso às origens. Estamos corrigindo anos de distorção e passando a viver uma realidade mais condizente com os resultados corporativos.
É uma espécie de recessão em tons de Zima Blue.
Em um cenário como este, alguns investimentos me chamam a atenção.
O primeiro é o em metais preciosos, em especial o ouro, que costuma a ir bem em um momento de maior inflação. Ter um pouco de metal precioso, algo como 3% da carteira, em uma combinação de 75% ouro e 25% prata, me parece interessante.
Lá fora, ainda prefiro ter caixa. Não me parece o momento certo para voltarmos com força para a Bolsa americana, que flerta várias vezes com o que chamamos de "bear market rally" (rali de mercado de baixa) e poderá voltar a conhecer novas mínimas ao passo em que o Fed segue apertando sua política monetária.
Por fim, o Brasil não me parece pouco atraente. Aliás, pelo contrário, nosso histórico hiperinflacionário ainda está em nossa memória, fazendo com que estejamos mais preparados que o resto do mundo para este novo ambiente inflacionário.
Adicionalmente, enquanto o mundo começa agora o seu aperto monetário, nós estamos muito mais avançados no processo — já temos um dos maiores juros reais do mundo. Com isso, o investidor pode comprar renda fixa pagando dois dígitos e um pouco de Bolsa por menos de 7 vezes lucros para os próximos 12 meses.
Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
Não temam. Processos como o atual fazem parte de movimentos naturais do mercado. A agressividade da correção corrente se relaciona com o tempo em que nos distanciamos de nossa essência.
Voltamos agora à verdade, ao nosso azulejo da cor Zima Blue.
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