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Nos últimos anos, os preços do urânio parecem ter caído demais, chegando a uma região ‘oversold’; guerra pode reverter rejeição à energia nuclear
Com o domínio completo do noticiário pela guerra na Ucrânia, o mercado tem buscado se posicionar cada vez mais em alguns investimentos que se beneficiam das tensões no leste europeu, associados com inflação e commodities, ainda que de maneira cautelosa.
Títulos indexados à inflação, petróleo, gás natural e metais preciosos são os nomes geralmente apresentados pelo mercado como veículos para surfar o atual momento de estresse. Contudo, naturalmente, haveria uma saturação dessas posições.
Começaram a nascer, porém, outras avenidas de exposição interessantes, derivadas também do conflito entre ucranianos e russos. A que mais me chama a atenção é uma velha conhecida minha: a energia nuclear. Falo aqui mais precisamente do urânio.
Nos últimos anos, os preços do urânio parecem ter caído demais, chegando a uma região "oversold" ("sobrevendida", ou vendida em demasia). Depois de atingir seu fundo há algum tempo, a commodity vem subindo em uma trajetória robusta nos últimos dois anos e pode ter acabado de sair desse fundo.
Note abaixo que, finalmente, conseguimos recuperar o patamar de dez anos atrás, impulsionados pela demanda energética, carente de alternativas limpas na transição necessária para a nossa matriz de energia nos próximos anos.
Hoje, os futuros de urânio negociam acima de US$ 51 por libra-peso, próximo da máxima em 10 anos, em meio a preocupações com a oferta, enquanto os preços do petróleo dispararam e o futuro incerto do fornecimento de energia na Europa levou os investidores a aumentarem as apostas em alternativas aos combustíveis fósseis.
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A verdade é que, atualmente, muitas commodities estão em alta. Meu entendimento é o de que algumas delas provavelmente estão apenas começando a subir, sendo o urânio uma delas. Claro, é preciso entender que qualquer exposição ao urânio, e provavelmente também às ações de urânio, é uma proposta bastante arriscada.
Vale destacar que, apesar dos nossos esforços, 80% da energia consumida no mundo ainda vem de combustíveis fósseis. O debate sobre meio ambiente, mudança climática e ESG tem se tornado relevante, mas o processo tem sido gradual demais.
A guerra pode ter se transformado no gatilho para a troca da matriz energética que a mudança climática tentava ser há anos e não tinha tanto sucesso em convencer os governos. A escalada de ataques e violações do cessar-fogo das forças russas na Ucrânia renovaram as preocupações de que os EUA poderiam considerar sancionar as importações, inclusive de urânio (setor nuclear).
Para ilustrar, o setor de energia nuclear dos EUA produz 20% da eletricidade do país e depende da Rússia e de seus aliados para cerca de metade do urânio que alimenta suas usinas.
Enquanto isso, os preços mais altos dos combustíveis fósseis e os esforços para reduzir a dependência da energia russa melhoraram as perspectivas globais para a energia nuclear.
Não precisamos que a substituição daqueles 80% se deem 100% por meio de matriz renovável, mas, sim, por meio de energia de baixa ou de zero emissão. Notadamente, renováveis são parte importante desse processo; contudo, não são a única forma. Energia nuclear entra nesse segundo grupo.
Por isso, cada vez mais vemos fortes advogados da energia nuclear no mundo.
A ideia por trás do movimento é que você não conseguiria atingir as metas de emissão do Acordo de Paris sem a participação da energia nuclear. A energia nuclear é uma forma limpa ("verde") de geração, apesar de não ser renovável (o urânio é limitado na natureza) e ser rejeitada por um grupo ainda pelo preconceito derivado dos acidentes nucleares do passado.
Na verdade, o problema acaba sendo mais político do que econômico.
Político porque ainda há alguns grupos duros contra a energia nuclear. O argumento é de que as grandes usinas são de lenta construção e caras tanto em termos absolutos quanto em termos de eletricidade que produzem.
Adicionalmente, seu risco muito pequeno, mas real, de falha catastrófica requer um alto nível de regulamentação e tem um histórico perturbador de captura regulatória, amplamente demonstrado no Japão (produz resíduos extremamente duradouros e tóxicos).
Todos esses fatores contribuem para um mal-estar com a tecnologia. Na Alemanha, por exemplo, essa ala política teve muita voz na última década, o que exacerbou a dependência alemã ao gás russo.
A Alemanha, na verdade, acabou com a energia nuclear. Após o desastre nuclear de Fukushima no Japão em 2011, a Alemanha anunciou a intenção de eliminar gradualmente a energia nuclear. Também fechou várias de suas usinas nucleares em funcionamento, com o plano atual de fechar o restante deste ano.
Agora, porém, tal plano pode ser revertido.
No final do dia, a energia nuclear bem regulamentada é segura. Com a terrível exceção de Chernobyl na era soviética, os desastres nucleares aconteceram sem grandes números de mortos — foi o tsunami, não a radiação, que tirou quase todas as vidas em Fukushima.
Assim, neste momento, se os custos do petróleo e do gás continuarem subindo e as tensões geopolíticas continuarem a aumentar, ou mesmo permanecerem nos níveis atuais, é provável que a energia nuclear acabe recebendo uma oferta séria de diversos países.
É o caso dos membros da União Europeia, que podem em breve considerar a energia nuclear como verdadeiramente verde (como de fato é) de modo a incentivar o desenvolvimento dela.
Ou seja, a energia nuclear poderia ser adotada como medida para reduzir a dependência europeia do petróleo e do gás russos, bem como do petróleo e do gás de todas as fontes. As atuais preocupações geopolíticas poderiam potencialmente iniciar e reiniciar planos anteriores que incluíam energia nuclear.
Não podemos nos esquecer que o clima está em crise e as usinas nucleares podem fornecer algumas das vastas quantidades de eletricidade livre de emissões que o mundo precisa para lidar com isso — as energias solar e eólica até podem ser agora muito mais baratas do que eram antes, mas continuam sendo intermitentes.
Com isso, fornecer uma rede confiável é muito mais fácil se parte de sua capacidade de geração puder ser considerada disponível o tempo todo. A energia nuclear fornece essa capacidade sem emissões contínuas, e está fazendo isso com segurança e em escala.
Nem mesmo o ataque angustiante da Rússia à maior usina nuclear da Ucrânia na semana passada deveria nos assustar. Isso porque o incidente não resultou em outro Chernobyl, em parte porque a usina é um gigante complexo blindado que pode resistir a praticamente qualquer coisa que a Rússia ou a natureza possam lançar nele — modelo moderno de usina.
Dessa forma, se essa tendência continuar, os preços do urânio podem ter um longo caminho a percorrer. O urânio atingiu o pico pela última vez em US$ 70 em 2011 e chegou a US$ 136 em 2007. Embora não seja certo que os preços estejam voltando a esses níveis, é possível que o urânio esteja se movendo para uma nova faixa de preço para esta década que seja geralmente superior. Estimativas apontam para algo próximo de US$ 60 por libra-peso até o fim de 2022.
Sim, eu sei que a energia nuclear é uma questão complicada nos dias de hoje. Ainda assim, tem um forte potencial para ser escolhida como uma alternativa adequada no futuro. Por isso, o investimento em empresas do setor, em fundos ou em ETFs deve ser realizado com cuidado.
Ou seja, tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
Para quem topa correr esse risco com algo como 1% de seu patrimônio (aquilo que você topa perder), o fundo índice (ETF) Global X Uranium ETF (NYSE: URA) oferece acesso a uma ampla gama de mineradores de urânio, bem como produtores de componentes nucleares, como empresas envolvidas na extração, refino, exploração de urânio, bem como aquelas que fabricam equipamentos para as indústrias de urânio e nuclear.
Pode ser uma boa alternativa para se expor nesse mercado volátil, mas bastante promissor, que pode ter nessa guerra mais um gatilho para se tornar atrativo para os países.
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