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A economia começou a perder fôlego e a eleição vai sentir

O Brasil começou 2026 surpreendendo para cima na atividade, apoiado por renda, mercado de trabalho resiliente e uma nova rodada de estímulos fiscais. Esse impulso ajudou a adiar os efeitos de uma política monetária muito restritiva. Agora, porém, os dados começam a mostrar que o fôlego está diminuindo e isso acontece justamente quando a campanha eleitoral entra nas ruas

Moedas de real mostram queda ou desvalorização
Imagem: Shutterstock

O IBC-Br de junho recuou 0,6% na comparação mensal, ligeiramente pior do que a expectativa de queda de 0,5%, após avanço de 0,1% no mês anterior. O indicador, calculado pelo Banco Central e frequentemente tratado como uma espécie de termômetro mensal da atividade, não é o PIB, mas ajuda a antecipar a direção da economia. E a direção, neste momento, é de perda de velocidade.

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O número não surgiu isoladamente. A produção industrial caiu 1,8% em junho; o varejo ampliado, excluído o atacarejo, recuou 1,2%; e os serviços perderam força ao longo de maio e junho. O segundo trimestre começou melhor do que terminou.

Essa sequência confirma uma mudança que já vínhamos observando desde o fim de março: a recuperação que marcou a virada de 2025 para 2026 estava se esgotando.

Variações mensais com ajuste sazonal. Fontes: IBGE.

Isso ainda não é recessão. É importante separar desaceleração de contração persistente. Os dados disponíveis apontam para uma economia mais fraca, não para um colapso. O problema é que, depois de um início de ano artificialmente resistente ao aperto monetário, a mudança de inclinação passa a importar muito mais.

Os “esteroides” fiscais não duram para sempre

Para entender por que a atividade demorou tanto a responder aos juros elevados, vale lembrar que política fiscal e política monetária atuaram em sentidos opostos.

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Enquanto o Banco Central mantinha a Selic em nível muito restritivo para conter inflação e expectativas, o setor público ampliava transferências e medidas de suporte à renda. Esse dinheiro adicional ajuda a sustentar consumo e serviços e, por algum tempo, reduz a potência do freio monetário.

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No início do ano, esse desenho contribuiu para as surpresas positivas de atividade. O ponto é que estímulo fiscal não cria crescimento permanente por decreto. Ele antecipa ou sustenta demanda, mas precisa ser financiado e pode aumentar o prêmio de risco, a dívida e as expectativas de inflação.

Se o mercado passa a exigir juros mais altos para financiar o governo, parte do impulso que entrou pela renda sai pela curva de juros, pelo crédito mais caro e por um custo de capital maior para empresas.

As evidências mais recentes sugerem que algumas medidas desenhadas para aumentar a renda disponível tiveram transmissão menor do que o esperado. A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda não gerou, até aqui, uma aceleração inequívoca do consumo nas regiões e grupos mais expostos ao benefício.

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Na Previdência, a redução da fila do INSS também não se traduziu em aumento de benefícios na magnitude inicialmente esperada, em parte porque a taxa efetiva de concessão ficou abaixo das hipóteses mais otimistas.

Isso ajuda a reconciliar duas coisas que parecem contraditórias: o governo continuou oferecendo estímulo, mas a atividade desacelerou.

A explicação mais plausível é que o impulso fiscal ainda existe, porém com potência menor, ao mesmo tempo em que os efeitos acumulados dos juros altos finalmente começam a aparecer com mais clareza em crédito, investimento e consumo.

Fonte: BCB e consenso de mercado.

O resultado para a segunda metade do ano tende a ser de crescimento modesto, não de queda livre. Indicadores preliminares de julho ainda apontam atividade fraca, mas sem aprofundamento claro da desaceleração. É justamente por isso que a leitura correta não é de pânico, mas, sim, de mudança de regime.

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A desaceleração chegou em plena campanha

O calendário torna essa história mais sensível. A propaganda eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto; o horário eleitoral no rádio e na televisão começa no fim do mês; o primeiro turno ocorre em 4 de outubro e, se necessário, o segundo será em 25 de outubro. Ou seja: a fase em que o eleitor passa a prestar mais atenção à campanha coincide com a fase em que a economia começa a perder impulso.

Eleições não são decididas por uma variável econômica isolada. Segurança, rejeição, identidade política, escândalos, alianças e campanhas importam. Mas renda, emprego, inflação e crédito moldam a percepção cotidiana do eleitor.

Pesquisas realizadas ao longo do ano mostram um contingente muito elevado de famílias endividadas e uma relação clara entre dificuldade para comprar, pagar contas e avaliação do cenário econômico.

É aqui que o enfraquecimento da atividade pode ganhar dimensão política. Uma desaceleração moderada, que apenas retire excesso de demanda e permita juros menores, pode passar quase despercebida. Uma perda de fôlego que comece a afetar emprego, renda ou crédito perto da eleição tem outro peso.

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O eleitor não acompanha o IBC-Br; ele percebe a economia pela parcela do cartão, pelo custo do supermercado, pela facilidade de encontrar trabalho e pela capacidade de fechar o mês.

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O problema do bolso é que o nível de preços continua alto

A inflação recente trouxe sinais positivos: alimentos recuaram, a difusão caiu e agosto deve contar com o alívio pontual do bônus de Itaipu. Mas desinflação não significa que os preços voltaram ao nível anterior. Significa apenas que estão subindo mais devagar.

Para famílias que já carregam dívidas elevadas e pagam juros altos, essa diferença é essencial: a taxa de inflação pode melhorar antes que a sensação de aperto desapareça. Esse detalhe também explica por que estímulos eleitorais têm retorno econômico e político incerto. Transferir renda ou reduzir impostos pode aliviar o orçamento no curto prazo, mas, se o desenho piorar a percepção fiscal e mantiver os juros altos, parte do benefício é corroída pelo próprio custo do dinheiro.

O ciclo fica perverso: mais estímulo para sustentar a demanda exige mais cautela monetária; mais cautela monetária enfraquece a atividade; e uma atividade mais fraca aumenta a pressão por novos estímulos. Em outras palavras, a eleição pode transformar a desaceleração em tema político; o fiscal transforma esse tema em problema de juros.

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Para o Banco Central, a perda de fôlego da atividade é uma informação importante. Uma economia menos aquecida reduz a pressão sobre preços e ajuda o processo de desinflação. Somada aos sinais recentes de melhora na composição do IPCA, ela abre espaço para mais um ajuste modesto da Selic. Nossa leitura continua sendo de que um novo corte de 25 pontos-base é plausível.

Mas existe um limite claro para essa conclusão. A inflação ainda está acima da meta, as expectativas seguem desconfortáveis e choques externos, sobretudo petróleo, grãos e a instabilidade no Oriente Médio, podem recolocar pressão sobre preços.

Além disso, o fiscal continua determinando quanto o Banco Central consegue reduzir juros sem perder credibilidade. Quanto maior o prêmio de risco associado à dívida, maior tende a ser o juro neutro exigido pela economia.

É por isso que a discussão mais importante talvez não seja quantos cortes cabem até o fim deste ano, mas o que acontecerá depois da eleição.

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O próximo governo encontrará dívida pública acima de 80% do PIB, déficit relevante e uma economia que já mostra os custos de conviver com juros reais elevados.

Independentemente de quem vença, a discussão sobre estabilização da dívida, qualidade do gasto e regras capazes de limitar a expansão permanente das despesas tende a ser inevitável em 2027.

Um ajuste fiscal crível teria dois efeitos importantes. Primeiro, reduziria o prêmio exigido nos juros longos, facilitando o trabalho do Banco Central e permitindo que a Selic caia sem provocar desancoragem. Segundo, criaria uma base mais saudável para o crescimento, substituindo estímulos temporários por melhora do ambiente de investimento, crédito e produtividade.

O caminho oposto (responder a cada sinal de fraqueza com nova expansão fiscal) pode prolongar a atividade no curto prazo, mas aumenta o risco de juros estruturalmente altos.

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A desaceleração, portanto, não é necessariamente uma má notícia. Ela é parte do mecanismo que permite reduzir inflação e, adiante, juros.

O risco está em como chegamos até aqui: uma economia sustentada por estímulos fiscais temporários enquanto a política monetária precisava permanecer excessivamente restritiva. Se o crescimento perder fôlego sem um ajuste na origem do problema, teremos apenas trocado uma surpresa positiva de curto prazo por um custo maior no futuro.

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