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Movida cresce na pandemia, mas ações (MOVI3) estão abaixo dos níveis anteriores à crise. Para Renato Franklin, CEO da companhia, há um potencial “gigantesco” para destravar valor
Comprar um carro ou alugar? A pergunta que passa pela cabeça da maioria das pessoas que pensam em colocar um automóvel novo na garagem hoje já começa a provocar uma transformação no mercado automotivo. É claro que Renato Franklin, CEO da Movida, está mais do que atento à mudança no comportamento do consumidor, que abriu um novo e promissor filão para as empresas de locação de veículos: o carro por assinatura.
O potencial é tão grande que, para ele, esse deverá se tornar o maior mercado dentro do negócio de aluguel dentro de alguns anos. “Uma coisa é certa: o carro não será alugado carro do jeito que é hoje”, me disse Franklin, em uma entrevista por videoconferência.
Ou seja, se a Movida for bem sucedida e se tornar uma das líderes desse segmento, as ações da companhia negociadas na bolsa (MOVI3) tendem a se beneficiar.
O negócio de carros por assinatura é tão estratégico que a Movida não abre números dessa operação, que hoje fica dentro da unidade de gestão de frotas. Mas a empresa tem hoje uma posição privilegiada: é a única com veículos para pronta entrega em meio à falta de insumos que paralisou a produção.
Com muito mais demanda que oferta — mesmo com muitos competidores entrando nesse ramo — o aluguel mensal para o consumidor ainda opera com margens melhores do que a média dos negócios da companhia, o que soa como música para os ouvidos dos acionistas.
Mas o acionista não precisa nem esperar pelo futuro. O CEO diz que a Movida já se encontra hoje em outro patamar. E para demonstrar isso ele menciona apenas um número: o lucro líquido anualizado, que chegou à casa dos R$ 800 milhões, 73% maior que os 12 meses anteriores.
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Esse resultado considera o resultado de R$ 198 milhões do segundo trimestre e inclui a recente aquisição da CS Frotas, que foi aprovada após o fechamento do balanço.
Para além da questão financeira e estratégica, o negócio foi apontado como modelo do ponto de vista de governança corporativa. Isso porque a CS Frotas fazia parte da Simpar, a holding que controla a Movida e também é dona da JSL Logística.
Como a participação na assembleia de acionistas poderia representar um conflito de interesses, os controladores se comprometeram a acompanhar o voto dos minoritários, que acabaram aprovando a transação por unanimidade.
“A operação reforça o compromisso em gerar valor para todos os acionistas. Existe um destravamento de valor da CS dentro da Movida, é como se fosse uma outra forma de fazer IPO.”
Com a aquisição, a Movida adiciona 24 mil veículos à frota e passa a atuar com clientes do setor público, incluindo autarquias e universidades. Mas para quem tem calafrios só de pensar em fazer negócios com o governo, Franklin destaca que a CS Frotas foi reconhecida inclusive pela ONU pelas boas práticas de transparência em seus contratos.
O problema é que esse outro patamar dos números da Movida não se reflete na cotação das ações. Os papéis (MOVI3) são negociados abaixo dos níveis anteriores à crise provocada pela pandemia da covid-19. O valor de mercado da companhia hoje na B3 é da ordem de R$ 6,5 bilhões.
Franklin reconhece que o mercado ainda precisa se convencer da estratégia, mas diz que as ações devem refletir o novo momento à medida que a companhia entregar resultados.
“Acredito que existe um potencial gigantesco para destravar valor. O mercado gosta de ver para crer. Quem ganha é quem enxerga antecipadamente.”
O consenso de mercado com 11 analistas mostra que MOVI3 possui oito recomendações de compra e três de manutenção, de acordo com dados da Refinitiv disponíveis no Trademap. A mediana do preço-alvo encontra-se em R$ 24,50, um potencial de alta de quase 37%.
Não custa lembrar que a Movida não passou imune da crise provocada pela covid-19. A queda drástica no movimento dos aeroportos afetou em particular a demanda por aluguel de carros no início da pandemia.
Mas um fenômeno curioso aconteceu ao longo da quarentena: a flexibilidade do trabalho provocada pelo home office estimulou a procura por locação por um público que começou a usar o carro para viagens mais curtas.
Tanto que, mesmo com o impacto das novas medidas de restrição à circulação com a segunda de casos, a receita com aluguel de carros da Movida e a taxa de ocupação da frota cresceram no segundo trimestre deste ano. Diante dessa nova demanda, a empresa vem adquirindo mais carros mais caros, como SUVs, que possuem margens melhores na revenda.
Por falar em revenda, os analistas mais céticos sobre o desempenho da Movida destacam que os resultados recentes foram turbinados pelas receitas com a venda de carros seminovos da frota.
De fato, a empresa se aproveitou da alta dos preços provocada pela escassez de veículos zero quilômetro diante da falta de componentes para a indústria automotiva.
No segundo trimestre, a receita líquida no negócio de seminovos chegou a R$ 673 milhões, graças ao aumento do valor médio de venda, que chegou a quase R$ 55 mil por carro.
A dúvida é: a Movida vai conseguir sustentar os bons resultados quando a onda passar? Não há dúvidas de que o efeito positivo é temporário, mas Franklin destaca que as margens no negócio de seminovos devem se sustentar por um bom tempo.
Isso porque boa parte da frota foi adquirida antes da disparada dos preços, e a renovação da frota — com a compra de novos carros por um preço maior — deve acontecer em até 36 meses.
Se a margem deve diminuir com o passar do tempo, o efeito da alta dos preços tende a ser permanente. “A inflação não volta para trás, o preço não vai cair, só vai voltar a subir em um ritmo menor”, diz o CEO.
Com todas as iniciativas de expansão em curso, a Movida pode chegar a uma frota de até 340 mil carros até 2025, praticamente o triplo do número de 2020. Durante a última teleconferência de resultados, Franklin disse que a compra da CS antecipa esse plano — sem especificar uma data.
Nesse sentido, novas aquisições estão no radar da companhia? “Existe muita oferta de empresas menores, com dificuldade de competir. Tem muita coisa na mesa, então podem acontecer aquisições menores.”
Esse, contudo, não é a maior barreira que ele enxerga para a companhia. Além da falta de veículos zero no mercado, uma questão de curto prazo, ele aponta uma questão mais estrutural. “O nosso maior gargalo hoje não é balanço, nem capacidade, é gente. O maior desafio hoje é como atrair e desenvolver pessoas, existe muita oportunidade, mais oportunidade que gente.”
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