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As ações da CVC (CVCB3) se aproximam das mínimas após o caos gerado pelo fim das operações da Itapemirim (ITA), autorizadas pela Anac em maio
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas a CVC (CVCB3) certamente discorda do ditado. Afinal, após o apuro que a empresa de viagens passou com a falência da Avianca Brasil, ela vê a história se repetir com a suspensão repentina das operações da Itapemirim (ITA) — e, como resultado, suas ações caem forte nesta segunda-feira (20).
Por volta de 12h30, os papéis CVCB3 recuavam 6,91%, a R$ 14,14, e apresentavam o pior desempenho entre todos os ativos do Ibovespa; no mesmo horário, o índice tinha baixa de 2,13%. Com a forte queda do momento, as ações da companhia agora amargam perdas de 27% no ano.
O fiasco envolvendo a ITA é apenas mais um duro golpe na CVC, que vem lidando com uma série de problemas internos e externos nos últimos anos. Falência da Avianca Brasil, pandemia, disparada no dólar, inconsistências contábeis nos balanços, troca de diretoria, alta no combustível de aviação... Uma espécie de tempestade perfeita — e duradoura — que ganhou mais um componente neste fim de semana.
O xis da questão, agora, é a realocação dos clientes. Suponha que você fechou um pacote de viagens com a companhia que incluía passagens aéreas e hospedagem — e que os bilhetes eram justamente da ITA. Para a CVC, há duas alternativas: cancelar os contratos e lidar com as compensações ou recolocar os passageiros em outros voos.
Como a primeira opção seria péssima, tanto em termos financeiros quanto de reputação, resta o segundo caminho. E é justamente isso que a CVC tem tentado fazer, ainda que aos trancos e barrancos.
"Por suas unidades de negócio, a CVC Corp tem buscado atender seus clientes de forma ativa e emergencial desde o início do incidente", disse a companhia, em nota, afirmando que disponibilizou voos fretados adicionais e entrou em contato com outras companhias aéreas para reacomodar os passageiros afetados.
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A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) autorizou o início das operações da ITA em maio deste ano — o primeiro voo foi realizado no dia 29 de junho — a companhia aérea, portanto, não durou nem seis meses. O aval foi dado pelo órgão regulador mesmo com o longo histórico de problemas financeiros do grupo.
Um dos mais tradicionais operadores do transporte rodoviário brasileiro, a Itapemirim está em recuperação judicial desde 2016 — um status que, a priori, não impede a Anac de conceder o registro aéreo a uma empresa. Dito isso, chama a atenção uma declaração dada pela própria agência ao Broadcast, ainda em fevereiro de 2020.
Na ocasião, o presidente do grupo Itapemirim, Sidnei Piva, começava a revelar seus planos para a abertura de uma companhia aérea. Questionada pela Broadcast, a Anac disse, em nota, que empresas em recuperação judicial "podem apresentar dificuldades em obter as certidões que comprovem sua regularidade fiscal, previdenciária e trabalhista, exigidas para aprovação".
E o que mudou de lá para cá? A resposta é complexa. Há, sem dúvida, um componente de preocupação com a malha aérea do país, dada a falência da Avianca Brasil, a recuperação judicial da Latam e as dificuldades financeiras de Gol e Azul em meio à pandemia — a entrada de mais um player no setor, assim, seria providencial.
Tanto é que a concessão do aval da Anac à ITA foi comemorado pelo governo: em outubro de 2020, os planos de expansão do grupo Itapemirim para o modal aéreo foram comemorados pelo presidente Bolsonaro, numa live transmitida pelo YouTube; o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, participou da transmissão.
Seja como for, fato é que a ITA tinha mais de 500 vos programados entre o último dia 17 — data em que a empresa informou a suspensão das operações — e o dia 31 de dezembro. Ou seja, falamos de cerca de 80 mil passageiros que tiveram seus planos de fim de ano alterados, dos quais uma parte têm ligação com a CVC.

Ao longo do fim de semana, sites e canais de TV mostraram uma situação caótica no aeroporto internacional de Guarulhos, com passageiros da ITA reivindicando esclarecimentos por parte da companhia e das autoridades.
A questão é que o procedimento adotado pela Itapemirim, com um apagão completo das operações sem qualquer aviso prévio, pegou todos o sistema aéreo de surpresa — e empresas de turismo, como a CVC, se viram no centro de um enorme problema. Em comunicado emitido na noite de sexta (17), a empresa disse apenas que a decisão foi tomada "por necessidade de ajustes operacionais".
Em notas enviadas ao longo do fim de semana, a empresa disse estar prestando assistência aos passageiros afetados e orientando-os a não irem aos aeroportos — depoimentos colhidos pela imprensa, no entanto, deram a entender que a empresa era muito pouco útil em termos de ajuda aos clientes.
A Anac, por sua vez, lavou as mãos e limitou-se a dizer que a ITA foi "intimada a cumprir medidas para assistência aos passageiros que adquiriram bilhetes aéreos da companhia e a prestar à Agência informações atualizadas sobre as ações previstas para honrar os bilhetes vendidos e reacomodação dos seus clientes".
Vale lembrar que o setor aéreo é particularmente difícil, dada a grande quantidade de fatores externos que podem afetar as finanças das companhias. A variação do dólar e do preço do petróleo mexem diretamente com os gastos com combustível de aviação (QAV); grande parte dos custos relacionados às aeronaves também é orçado em dólares.
Além disso, um mês após o início das operações da ITA, surgiram as primeiras notícias de dificuldade financeira da recém-criada companhia aérea, com atrasos no pagamento de funcionários — um sinal de que algo não ia bem.
O problema, infelizmente, estourou às vésperas do natal, causando um enorme estrago ao setor aéreo do país e ao planejamento de milhares de brasileiros no fim do ano.

Mas voltemos à CVC (CVCB3): para piorar a situação, 25 voos da Latam foram cancelados ao longo do fim de semana após uma falha no sistema de iluminação no aeroporto de Guarulhos, aumentando ainda mais a escassez aérea e a dificuldade para remanejar os passageiros afetados pela Itapemirim.
Por fim, há ainda uma preocupação maior com a pandemia: a variante Ômicron tem gerado uma nova onda de restrições na Europa, e há o temor de que essa dinâmica seja replicada no restante do mundo ao longo dos próximos meses. O que, se concretizar, provocaria uma nova turbulência no setor de turismo, justamente na época de maior demanda por viagens.
Tanto é que as ações ON da CVC (CVCB3) já se aproximam das mínimas do ano, recuando quase 50% em relação aos patamares vistos em julho. Veja o gráfico abaixo:

Segundo dados do TradeMap, os papéis CVCB3 têm uma recomendação de compra, três de manutenção e uma de venda. O preço-alvo médio é de R$ 23,75, o que representa um potencial de alta de 67% em relação aos patamares atuais — a estimativa mínima, no entanto, é de R$ 8,00.
Em termos de valuation, o EV/Ebitda estimado para CVCB3 ao fim de 2022 é de 4,7 vezes, acima da média de três anos para as ações, de 3,1 vezes.
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