NuConta, CDB e fundos Tesouro Selic podem perder da poupança?
Aplicações que pagam 100% do CDI costumam ser vendidas como mais rentáveis que a poupança, mas nem sempre é o caso; mesmo assim, elas ainda são mais interessantes que a caderneta.

Com a Selic em suas mínimas históricas, investir na renda fixa ultraconservadora - aqueles produtos com baixo risco de crédito e altíssima liquidez - deixou de ser alternativa para fazer o patrimônio crescer e passou a ser apenas para reserva de emergência e objetivos de curtíssimo prazo.
Mas mesmo para essas finalidades, a pessoa física dispõe hoje de alternativas mais interessantes que a caderneta de poupança, como é o caso dos fundos que investem em Tesouro Selic e não cobram taxa, a NuConta e outras contas de pagamento que pagam 100% do CDI e os CDB de bancos médios que pagam 100% do CDI com liquidez diária.
Em tese, esses investimentos podem, em circunstâncias BEM específicas, perder da poupança ou se igualar a ela. Mesmo assim, eles ainda são mais vantajosos que a caderneta.
Já vimos aqui no Seu Dinheiro, que o Tesouro Selic comprado via Tesouro Direto perde para a caderneta de poupança nas suas datas de aniversário até completar, mais ou menos, quatro meses de investimento. A partir de cinco meses, o Tesouro Selic já consegue bater a poupança.
Isso acontece porque, no curto prazo, a alíquota de imposto de renda sobre a rentabilidade do Tesouro Selic é de 22,5%, um percentual pesado para o atual cenário de Selic baixa.
Além disso, o investimento via Tesouro Direto está sujeito a uma taxa de custódia obrigatória de 0,25% ao ano e ainda há um spread entre as taxas de compra e venda - uma espécie de pedágio para quem sai do título antes do vencimento.
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Esse spread já foi maior, mas depois de uma matéria que eu publiquei no Seu Dinheiro no ano passado, ele foi reduzido para apenas 0,01 ponto percentual, o que ainda não resolveu totalmente o problema.
Os investimentos que pagam 100% do CDI, por sua vez, não têm spread nem taxa, então conseguem bater a poupança mais facilmente. Mas se considerarmos apenas as datas de aniversário da poupança, o retorno desses investimentos pode sim ficar abaixo do rendimento da caderneta, ou no mínimo se igualar. Dá uma olhada nessa simulação:

Feriados e fins de semana atrapalham o seu bolso
Para fazer essa simulação, eu utilizei datas reais de aplicação e resgate, sempre no mesmo dia do mês - por exemplo, de 11 de fevereiro a 11 de março de 2020. Repare que nos prazos de até 3 meses, o retorno das aplicações que pagam 100% do CDI é o mesmo que o da poupança no aniversário.
Só a partir do prazo de quatro meses é que as aplicações que pagam 100% do CDI passam a render mais que a caderneta.
O pesado desconto de IR é, sem dúvida, um dos responsáveis, como no caso já mencionado do Tesouro Selic. Os juros baixos também atrapalham. E há ainda a questão de que o CDI costuma ficar um pouco abaixo da Selic. Atualmente - e eu considerei isso na simulação - o CDI está em 4,15%, enquanto a Selic se encontra em 4,25%.
Mas há ainda um quarto motivo: a poupança rende no dia do aniversário independentemente da quantidade de dias úteis ou corridos que o prazo de aplicação tenha. Já no caso das aplicações atreladas ao CDI, o retorno depende do número de dias úteis.
Como a rentabilidade desses investimentos é diária, quanto mais dias úteis, melhor o retorno. O mês de fevereiro deste ano, por exemplo, tem 29 dias, mas apenas 18 dias úteis. Já o mês de abril tem 30 dias e 21 dias úteis.
Assim, se no primeiro mês da simulação houvesse 20 dias úteis, a poupança perderia da renda fixa; mas se houvesse 18, ela ganharia. Como eram 19, empatou.
Minúcias e migalhas
Sei o que você deve estar pensando: estou entrando em minúcias e contando migalhas. Afinal, estamos falando de uma diferença na segunda casa decimal.
É verdade. Mas acho essa análise importante para o investidor entender por dois motivos:
Primeiro para o investidor entender por que, em certos períodos curtos, suas aplicações de renda fixa conservadora podem ter rendido menos que a poupança.
Segundo, para ficar bem claro que, num cenário em que a renda fixa conservadora de fato só rende migalhas no curto prazo, a poupança já não é mais tão vilã assim. Quando falamos em períodos de alguns poucos meses, meio que tanto faz deixar o dinheiro na poupança ou em um fundo Selic sem taxa.
Renda fixa ainda é mais vantajosa
Porém, quero fazer aqui uma defesa das aplicações que rendem 100% do CDI sem cobrar taxas: elas têm rentabilidade diária, e a poupança não. Se estivéssemos comparando essas aplicações em datas “quebradas” - por exemplo, do dia 11 de fevereiro ao dia 20 de abril - a renda fixa, mesmo tributada, ganharia da poupança, que só teria rendimento no mês cheio.
Assim, se estamos falando da sua reserva de emergência - aquela que você não sabe quando poderá ter que sacar - ou de um objetivo financeiro que você não vai conseguir casar com a data de aniversário da poupança, as aplicações que rendem 100% do CDI ainda valem mais a pena.
A poupança só seria mais vantajosa na situação específica de um objetivo de prazo inferior a seis meses que você conseguisse casar com a data de aniversário. Basicamente, os planetas precisariam se alinhar.
E se estamos falando de prazos mais longos, em que as alíquotas de IR serão de 20% ou menos, a vantagem das aplicações que pagam 100% do CDI é bastante clara.
Sendo assim, eu reitero a minha recomendação de preferir estes investimentos à poupança quando se tratar de um objetivo de curto prazo para o qual você não possa prescindir dos recursos de jeito nenhum.
Já para a reserva de emergência, reitero a minha recomendação para os fundos Tesouro Selic de taxa zero, cuja rentabilidade tende a ser melhor do que a do investimento direto em Tesouro Selic e com a segurança de um investimento garantido pelo governo.
Atualmente, há fundos desta modalidade sendo oferecidos nas plataformas on-line do BTG Pactual Digital, das corretoras Pi e Rico e da Órama.
Finalmente, não custa lembrar: essas aplicações ultraconservadoras são só para quem não pode mesmo correr nenhum risco e para reserva de emergência. Elas não serão capazes de te enriquecer e, dadas as atuais perspectivas para a inflação, mal conseguem preservar o poder de compra das suas reservas.
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