Ibovespa recupera patamar de 80 mil pontos e fecha abril em alta de 10,25%
Índice acionário teve queda no pregão desta quinta-feira (30); dólar mantém trajetória de alta e fecha mês com valorização de 4,66%, cotado a R$ 5,43

O Ibovespa respira. Após a queda vertiginosa de 30% em março, o pior desempenho mensal desde 1998, quando caiu abaixo dos 80 mil pontos, o principal índice acionário do Brasil fechou abril em alta de 10,25% e recuperou o patamar. A performance positiva reflete o alívio de investidores, que um mês atrás estavam sob imenso estresse com as incertezas sobre o tamanho dos impactos do novo coronavírus na economia global.
É verdade que essas dúvidas permanecem, mas alguns de seus impactos já são visíveis: em parte, o mercado incorporou aos preços o severo desemprego da maior economia do mundo, a dos Estados Unidos, que apresenta números cada vez maiores de pedidos de auxílio-desemprego. Por aqui também, tanto nos balanços das empresas quanto na economia, o coronavírus também mostra os seus efeitos.
Além disso, a visão de que a curva de contágio do covid-19 foi suavizada tanto nos Estados Unidos como na Europa, para além trouxe calmaria aos mares da renda variável global recentemente, o que fez o principal índice acionário local pegar carona.
O cenário local, no entanto, teve disputas políticas internas se associando à pandemia. Nas últimas duas semanas, o governo de Jair Bolsonaro perdeu os ministros Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde, e Sergio Moro, ex-chefe da pasta da Justiça e Segurança Pública.
Último pregão
No último pregão do mês, o humor foi austero. A bolsa brasileira operou em queda firme nesta quinta-feira (30), uma reação a dados econômicos que implicaram a crise do coronavírus, balanços corporativos ruins e a cautela típica de vésperas de feriado nos preços dos ativos.
O resultado foi uma queda de 3,20%, para 80.505,89 pontos. Na sessão anterior, o principal índice acionário da B3 fechou aos 83 mil pontos.
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Nos Estados Unidos o movimento também foi de perdas, mesmo após o Federal Reserve (Fed) anunciar a expansão do programa de crédito, após manter a taxa de juro estável na véspera. O índice Dow Jones caiu 1,17%, o S&P cedeu 0,92% e o Nasdaq recuou 0,28%.
Na Europa, o índice pan-europeu Stoxx 600 caiu mais de 2%, refletindo a queda de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro no primeiro trimestre, segundo dados preliminares da agência oficial de estatísticas da União Europeia, a Eurostat.
No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o desemprego subiu para 12,2% no primeiro trimestre de 2020. Embora ruins, os dados ainda não captaram os efeitos do isolamento social imposto pela pandemia, segundo o instituto — o que significa que a taxa deve crescer nos próximos meses.
O país tem 78.162 casos confirmados de novo coronavírus, de acordo com o Ministério da Saúde - mas com subnotificação. São 5,4 mil pessoas mortas pela covid-19 no país, sendo 2,2 mil no Estado de São Paulo.
A prefeitura da cidade de São Paulo indicou hoje que deve prorrogar a quarentena após o dia 10 de maio e que vai adotar restrições mais rígidas para impedir o avanço do coronavírus no município. O isolamento segue padrões diferentes no País.
A despeito dos dados ruins e da incerteza quanto ao isolamento, o diretor de investimentos do Andbank Brasil, Rodrigo Otávio Marques, diz que a queda da bolsa nesta quinta-feira é uma mera correção. "Voltamos para o nível pré-demissão do [então ministro da Justiça, Sergio] Moro", disse ele.
A saída no último dia 24 do ex-juiz da Lava Jato e um plano econômico lançado pela ala militar levantou temores no mercado de que a agenda do ministro Paulo Guedes seria deixada de lado. Nas horas seguintes ao pronunciamento de Moro, a bolsa registrou perdas de 9%.
Mas no início desta semana o presidente Jair Bolsonaro sinalizou a permanência de Guedes, o que contribuiu para as altas do Ibovespa nos dias seguintes. "Hoje temos um ajuste técnico, com BCs dando sinais de política monetária expansionista", diz Marques.
Para o diretor de investimentos, o foco para maio deve ser a quantidade de empresas que vão continuar a entrar em dificuldades por conta da extensão do isolamento. "É muito provável que tenhamos um respiro, com queda de volatilidade, aguardando novas notícias nas duas primeiras semanas do mês", diz.
Balanços
A crise do coronavírus bateu em ao menos um "bancão": o Bradesco. A instituição reportou uma queda de 39,8% no lucro do primeiro trimestre, diante de uma provisão para lidar com um esperado aumento da inadimplência. As ações da empresa fecharam como a terceira maior queda do pregão desta quinta-feira.
Outro destaque do dia foi a Multiplan, a primeira empresa de shoppings a divulgar os resultados do trimestre. Os efeitos do isolamento para a companhia diminuíram vendas e aluguéis, como mostrou o balanço.
A Multiplan cortou custos, reverteu remuneração baseada em ações (voltada para executivos) e registrou um evento não recorrente. Resultado: crescimento de 93% no lucro líquido, que atingiu R$ 177,7 milhões no trimestre. Ainda assim, o papel da empresa chegou a ser segunda maior queda hoje na bolsa, atrás apenas da Smiles.
Outra marca de shopping de luxo, o Iguatemi teve uma sessão muito negativa. A empresa sofreu a segunda maior queda do Ibovespa, em baixa de 7,68% no preço de seus papéis.
Maiores baixas
- Smiles (SMLS3): −8,87%
- Iguatemi (IGTA3): −7,68%
- Bradesco (BBDC4): −7,22%
- Gol (GOLL4): −7,05%
- Cyrela (CYRE3): −6,85%
Maiores altas
- Marfrig (MRFG3): +2,64%
- BB Seguridade (BBSE3): +2,12%
- Suzano (SUZB3): +1,78%
- Azul (AZUL4): +1,64%
- Klabin (KLBN11): +1,48%
Dólar e juros futuros
O dólar, por sua vez, diferentemente do Ibovespa, prosseguiu a sua trajetória de valorização. A moeda subiu 1,56% no pregão de hoje, para R$ 5,43. No mês, a divisa avançou 4,66%, e soma alta de 35% no ano.
As taxas de juros dos contratos de depósitos interbancários tiveram desempenho misto na sessão de hoje. Os contratos de vencimento mais curto operam estáveis ou em leve queda, enquanto os juros intermediários e longos sobem, acompanhando a alta do dólar.
Segundo Srour, da ARX Investimentos, além da realização pré-feriado, o mercado também pode estar refletindo a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, que disse que o Banco Central pode emitir moeda em meio à crise e, eventualmente, comprar a dívida interna.
"Essa fala do Guedes dizendo que BC pode monetizar dívida acaba levando a curva longa a abrir e dólar a subir", disse Srour.
- Janeiro/2021: de 2,805% para 2,785%;
- Janeiro/2022: de 3,66% para 3,62%;
- Janeiro/2023: de 4,77% para 4,82%;
- Janeiro/2025: de 6,47% para 6,53%;
- Janeiro/2027: de 7,38% para 7,48%.
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