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O coronavírus, as movimentações do Fed e a decisão do Copom aparecem entre os principais fatores de influência para a bolsa — saiba quais ações tendem a se destacar
Os mercados estão atravessando um momento bastante distinto: com o avanço do coronavírus e a guerra de preços do petróleo, a bolsa brasileira e as demais praças acionárias do mundo entraram numa espiral negativa — muitos já declararam o fim do 'bull market'.
E o turbilhão visto na semana passada tende a continuar pelos próximos dias, uma vez que a doença continua se alastrando num ritmo bastante elevado — o que gera enorme incerteza em relação ao futuro da economia global. Mas, mesmo em meio ao caos, há algumas ações que podem se destacar, tanto para baixo quanto para cima.
Antes de nos aprofundarmos quanto aos papéis e setores que estarão sob os holofotes, vale um aviso: a sessão desta segunda-feira (16) tende a ser, mais uma vez, recheada de tensão. E tudo porque o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) surpreendeu e voltou a cortar os juros do país.
No dia 3 de março, a autoridade monetária já deu um primeiro passo e reduziu as taxas em 0,5 ponto, de maneira extraordinária, para a faixa entre 1% e 1,25% ao ano. Neste domingo (15), fez um movimento ainda mais brusco: zerou os juros.
A justificativa para esses cortes surpresa — a reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, uma espécie de Copom dos EUA), ocorrerá somente nesta quarta-feira (18) — seria a urgência para conceder estímulos à economia americana, em meio ao surto de coronavírus.
Um plano que parece perfeitamente racional, exceto por um detalhe: as medidas tomadas pelo Fed contrastam com as declarações oficiais do governo americano, que mantém o discurso de que a situação da doença está sob controle, muito embora o número de casos siga aumentando no país.
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Assim, medidas tão drásticas quanto cortes extraordinários de juros acabam sendo interpretadas por muitos como um sinal de que a situação do coronavírus é muito mais preocupante do que a oficialmente divulgada. Desta maneira, muitos enxergam na movimentação atípica do Fed uma espécie de 'sinal de alerta'.
Na Ásia, o tom é negativo nas principais praças, embora sem perdas massivas; no mercado futuro, no entanto, o tom é mais alarmante: os índices americanos chegaram a cair mais de 5%, acionando o limite de baixa.
Uma parte dos economistas e analistas de mercado defende que novos cortes de juros teriam pouco efeito para estimular a economia em meio ao surto de coronavírus, uma vez que fornecer mais estímulo ao consumo seria inútil numa situação de quarentena prolongada.
Ou seja: mesmo após uma medida tão radical por parte do Fed, ainda não há um sentimento de otimismo no mercado. E, desta maneira, o clima tenso tende a continuar no curto prazo.
Com o surto de coronavírus atingindo severamente a Europa e gerando pânico nos Estados Unidos, o setor aéreo global acaba sendo um dos mais impactados. Dada a incerteza relacionada à doença, muitas pessoas e empresas naturalmente reduziram o número de viagens, de modo a evitar riscos de contágio.
O que já era uma dura pancada acabou virando um golpe potencialmente fatal a partir da decisão, tomada pelo governo americano, de suspender todas as viagens entre o país e a Europa, por um período inicial de 30 dias, de modo a tentar conter o avanço do vírus.
Você deve estar pensando que a questão não atinge as aéreas brasileiras, como Gol e Azul — e, de fato, nenhuma delas opera nas rotas fechadas. Contudo, vale lembrar que o setor aéreo é altamente conectado, com as grandes empresas firmando acordos e parcerias — assim, problemas na malha global criam uma espécie de efeito dominó no segmento.
Por exemplo: a United corta sua oferta de voos internacionais em 50%. Consequentemente, as empresas globais que têm acordo com a americana deixarão de exibir tais voos em seus sites de venda — o que diminui o apelo para quem irá fazer viagens internacionais.
Assim, dado o potencial caos aéreo que se desenha por causa do coronavírus, as ações PN da Gol (GOLL4) e PN da Azul (AZUL4) tiveram perdas massivas na semana passada: as primeiras desabaram 46,9%, enquanto as últimas despencaram 37,9%.
As notícias a respeito do setor aéreo internacional não são nada animadoras: a American Airlines cortou os voos para o Brasil e o resto da América Latina; nos Estados Unidos, já há quem fale num fechamento total do espaço aéreo do país — algo que não ocorre desde o 11 de setembro.
Além disso, há outro fator trazendo pressão às aéreas brasileiras: o estresse no câmbio. Como as despesas com combustível de aviação são denominadas em dólar, essas empresas são especialmente sensíveis às oscilações do mercado de moedas — e, nas últimas semanas, o dólar tem renovado máximas atrás de máximas, elevando os gastos com querosene.
É como se o setor de aviação tivesse sido atingido por uma 'tempestade perfeita' — e a previsão do tempo não traz nenhum sinal de melhora nas condições climáticas. Assim, espere mais turbulências intensas nesses papéis, sem grandes chances de alívio no curto prazo.
Quem também atravessa uma fase dura é CVC ON (CVCB3). A empresa do setor de turismo enfrenta problemas desde o ano passado: a quebra da Avianca, a disparada do dólar, o coronavírus — tudo conspira contra a empresa e quem gostaria de tirar férias sem gastar muito.
E a revelação de que os balanços passados da companhia podem ter inconsistências apenas dificulta mais a situação da CVC — tanto é que as ações ON da empresa (CVCB3) recuaram 32,9% apenas na semana passada. É outro nome para acompanhar de perto, sempre com um pé atrás.
Atenção máxima às ações de empresas ligadas ao mercado chinês, como as exportadoras de commodities — falo especificamente de Vale, Gerdau, CSN, Usiminas e Suzano. Isso porque os mais recentes dados referentes à economia do gigante asiático mostram uma desaceleração intensa na atividade local.
A produção industrial da China desabou 13,5% nos primeiros dois meses de 2020, uma baixa muito maior que a projetada pelo mercado — efeito semelhante foi visto nas vendas do varejo, que despencaram 20,5% no mesmo período.
Assim, a tão temida desaceleração da economia chinesa em função do coronavírus finalmente foi confirmada — e veio muito mais intensa que o imaginado. E, nesse cenário, ações de empresas que dependem do mercado da China vão sentir o baque.
Desta maneira, fique atento à Vale ON (VALE3), que pode sofrer com a percepção de que a China irá importar menos minério de ferro, dado o desaquecimento da economia. As siderúrgicas CSN ON (CSNA3), Gerdau PN (GGBR4) e Usiminas PNA (USIM5) vão pelo mesmo caminho, assim como a papeleira Suzano ON (SZUB3).
Na agenda doméstica, atenção para a decisão de juros do Copom, na quarta-feira (18) — e, dada a turbulência no cenário internacional, há enorme expectativa quanto ao que o BC irá fazer em relação à Selic.
Por um lado, há a leitura de que mais cortes nas taxas de juros não seriam eficazes para estimular a economia no momento — pelo contrário, apenas trariam mais pressão ao dólar. Mas, por outro, há a pressão do ciclo de afrouxamento monetário iniciado no exterior, e que ganhou ainda mais força com o movimento do Fed neste domingo.
Assim, a incerteza paira no ar, e a sensação é a de que tudo pode acontecer na quarta-feira: corte, manutenção ou elevação, tudo está na mesa. E essa incerteza mexe diretamente com as ações de empresas mais ligadas às oscilações da Selic.
Em primeiro plano, está o setor de varejo: papéis como Magazine Luiza ON (MGLU3), Lojas Americanas PN (LAME4) e Via Varejo ON (VVAR3) tendem a ficar bastante sensíveis nos próximos dias. Operadoras de shopping, como Iguatemi ON (IGTA3) e Multiplan ON (MPLU3), e construtoras, como Cyrela ON (CYRE3) e MRV ON (MRVE3) também ficam na mesma.
Pois é, a temporada de balanços do quarto trimestre de 2019 ainda não acabou. Nesta semana, temos três empresas do Ibovespa reportando seus números: Cyrela, Braskem e Bradespar.
No caso da construtora, os números operacionais referentes ao período entre outubro e dezembro mostraram uma tendência de fortalecimento — o que abre uma perspectiva positiva quanto aos resultados financeiros nos três últimos meses de 2019.
O setor de construção civil tem sido um dos únicos da economia brasileira a reportar um crescimento mais firme, cumprindo as expectativas quanto à recuperação da economia doméstica. E, dentro do segmento, as empresas voltas ao consumidor de média/alta renda têm mostrado a expansão mais acelerada — e a Cyrela encaixa-se neste grupo.
Braskem PNA (BRKM5), por outro lado, teve um 2019 bastante tumultuado — as dificuldades enfrentadas pela Odebrecht, uma de suas controladoras, e os problemas gerados pelas atividades de mineração em Maceió, trouxeram enorme estresse às ações no ano passado.
Para o balanço do quarto trimestre de 2019, o mercado não tem grandes expectativas quanto a uma melhora significativa nas métricas operacionais e financeiras. Contudo, simples sinalizações de que 2020 pode ser melhor já serviriam para trazer algum ânimo aos papéis, que têm mostrado fraqueza desde o ano passado.
Atenção, também, às ações da Petrobras, em meio à derrocada nos preços do petróleo. Com a Arábia Saudita e a Rússia duelando pelo protagonismo na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), o valor da commodity despencou, com ambos conduzindo uma guerra de cotações.
Na noite de domingo (15), tanto o Brent para maio quanto o WTI para abril recuavam cerca de 3%, aproximando-se da faixa de US$ 30 por barril — há um ano, as cotações estavam acima de US$ 75.
Essa situação, naturalmente, traz pressão à Petrobras, uma vez que derruba a geração de receita da companhia. Desta maneira, fique atento às ações da estatal, tanto as ONs (PETR3) quanto as PNs (PETR4).
Por fim, fique atento aos desdobramentos em Brasília nos próximos dias. O clima entre governo e Congresso está cada vez mais deteriorado, com o presidente Jair Bolsonaro entrando num conflito aberto com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre.
Em meio ao embate entre os poderes, aparece o coronavírus, que começa a ganhar força cada vez maior no país — uma situação que eleva a tensão dos mercados quanto a uma eventual desorganização no combate à doença e a uma paralisação no andamento das reformas e das pautas econômicas.
Caso o pior cenário se concretize, é de se aguardar mais uma onda de pressão nos mercados brasileiros — o que se traduz em Ibovespa para baixo e dólar para cima.
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