IRB reconhece balanços maquiados, mas joga a culpa na antiga diretoria
Nova gestão do IRB isentou o conselho de administração e as empresas de auditoria, que assinaram pelo menos um balanço depois que os questionamentos aos números se tornaram públicos; ações despencam

Cinco meses depois do questionamento da gestora Squadra, a empresa de resseguros IRB Brasil enfim reconheceu que seus resultados foram de fato maquiados.
A companhia reapresentou os números de 2019 e 2018, que mostraram um lucro líquido R$ 670 milhões menor do que o apresentado originalmente na soma dos dois períodos.
Mas a nova gestão jogou toda a responsabilidade pelas irregularidades encontradas nas costas da antiga diretoria da companhia.
[captacao]
O atual presidente do conselho e diretor-presidente do IRB, Antonio Cassio dos Santos, isentou o conselho de administração, que assinou pelo menos um balanço – o do quarto trimestre de 2019 – depois que os questionamentos da Squadra se tornaram públicos.
Santos também não apontou responsabilidade das empresas de auditoria, tanto a PwC, que já era a responsável por atestar os números da companhia, como a EY (antiga Ernst & Young), contratada especificamente para dar um parecer sobre os números atuariais do IRB.
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Mesmo depois do alerta da Squadra, ambas as empresas atestaram no balanço do quarto trimestre e de 2019 que os resultados não tinham problemas.
"Da mesma forma como o conselho foi vítima, a empresa e a auditoria também foram. As mesmas pessoas fizeram erros recorrentes por um longo tempo", disse o presidente do IRB, sem citar nomes, de acordo com o Broadcast.
No balanço reapresentado, a empresa informa que ex-diretores e outros colaboradores praticaram irregularidades que culminaram na “modificação intencional e sistêmica de dados operacionais”.
Vale lembrar que a antiga diretoria do IRB não caiu após o questionamento da Squadra, mas após o vergonhoso episódio da notícia falsa de que o megainvestidor Warren Buffett era acionista da companhia.
As conclusões da investigação interna conduzida pela empresa foram remetidas aos reguladores e ao Ministério Público, que devem apurar as responsabilidades, disse Werner Süffert, diretor financeiro e de relações com investidores do IRB, em teleconferência com analistas.
No pregão de hoje, as ações do IRB (IRBR3) mantêm a rotina de alta volatilidade e passaram a cair forte no começo da tarde. No fechamento, despencavam 12,52%, cotadas a R$ 10,90. Leia também nossa cobertura completa de mercados.
As irregularidades
A investigação interna iniciada pelo IRB após a queda da antiga diretoria detectou irregularidades no registro de provisões técnicas, que foram feitas em competências inadequadas, a menor ou simplesmente não foram feitas.
A resseguradora também reconheceu que os resultados do ano passado foram inflados por itens que não vão se repetir em balanços seguintes, como a venda na participação de shopping centers. Ambos os problemas foram detectados na análise da gestora Squadra.
Essa contabilização indevida resultou em uma redução de R$ 553 milhões no lucro líquido e de R$ 727 milhões no patrimônio líquido do IRB de 2019.
A empresa também reapresentou os números de 2018, que mostram um impacto de R$ 117 milhões no lucro e de R$ 369 milhões no patrimônio.
Além dos balanços, o IRB detectou que a antiga diretoria teria feito pagamentos indevidos a ex-administradores e outros colaboradores, no valor de R$ 60 milhões, além de recompras de ações no mercado além do autorizado pelo conselho de administração.
A empresa informou ainda ter encontrado os responsáveis pela disseminação da "fake news" sobre a compra de ações por Warren Buffett, mas não revelou os nomes. Os atos teriam sido praticados "em caráter individual, fora de seus mandatos e de seus poderes regulares de gestão".
Capitalização
Junto com o balanço do primeiro trimestre, o IRB anunciou que planeja fazer uma capitalização para voltar a se reenquadrar nos requerimentos da Susep.
O regulador determinou uma fiscalização na empresa após constatar que os ativos garantidores de provisões técnicas estão abaixo do mínimo regulatório. No balanço, o IRB mostra que encerrou março com uma insuficiência de liquidez de R$ 2,1 bilhões.
A empresa contratou os bancos Bradesco BBI e Itaú BBA para estruturar um potencial aumento de capital. Ambos os bancos são acionistas e mantinham integrantes no conselho de administração do IRB até a mudança na gestão.
Posição do IRB
Eu procurei a empresa com um pedido de entrevista e recebi um posicionamento em nota, reproduzida abaixo:
O IRB Brasil RE analisou todas as informações e fatos disponíveis, por meio de investigação independente e de apurações internas.
As apurações sobre as demonstrações financeiras contaram com especialistas de empresas renomadas e procedimentos internos de auditoria e compliance, que levaram aos ajustes e também identificaram os Diretores e demais colaboradores responsáveis pelos registros realizados de forma inadequada. Em breve, o IRB Brasil RE apresentará essas conclusões à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e à Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), e analisará o oferecimento de denúncia às autoridades competentes sobre os fatos e indícios apurados, visando as devidas investigações.
Na semana passada, o IRB Brasil RE já havia apresentado a esses órgãos, bem como ao Ministério Público Federal (MPF), as conclusões relativas à investigação independente sobre a divulgação intencional de informações falsas ao mercado e apurações internas sobre pagamentos realizados de forma indevida.
A Companhia tem agora o dever de apoiar as autoridades competentes, de maneira isenta, e entende que todos os envolvidos devem ser devidamente responsabilizados.
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