Bitcoin e bolsa são os melhores investimentos de abril; títulos longos de renda fixa amargaram perdas
Bitcoin subiu mais de 40%, seguido do Ibovespa, com alta de 10%; ativos de risco se valorizaram, enquanto títulos de renda fixa de longo prazo perderam até 26%

Tanta coisa aconteceu em abril que parece que em um mês vivemos um ano inteiro. Mas conseguimos chegar ao fim do período com alguns resultados positivos para os ativos de risco. O bitcoin, o Ibovespa e o ouro foram os melhores investimentos do mês, enquanto que os títulos de renda fixa de longo prazo - como os títulos públicos atrelados à inflação - amargaram fortes perdas.
Em abril, vimos os primeiros dados econômicos e resultados de companhias depois do início da pandemia global de coronavírus - apesar dos números negativos, diminuiu a incerteza, pois agora já há algum parâmetro quanto ao que podemos esperar.
Também tivemos bons sinais no avanço da pandemia em países que foram fortemente castigados pela covid-19, como Espanha e Itália, além de indicações de que os governos farão o que for necessário para não deixar a peteca da economia cair. O coronavírus ainda está longe de ficar no passado, mas as perspectivas de sair da fase mais aguda da pandemia em breve já animam os investidores.
Finalmente, no Brasil, tivemos muita turbulência política, com a demissão de dois ministros muito bem avaliados pela população, conflitos entre o Executivo e o Legislativo, a aprovação de um pacote de socorro aos estados com cara de "bomba fiscal", e graves acusações ao presidente Jair Bolsonaro, que também deu lá as suas declarações polêmicas.
A enorme incerteza que ainda nos ronda pesa no câmbio e no mercado de juros futuros, o que também impactou os preços de alguns ativos neste mês. Vamos ao ranking dos melhores investimentos.
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Melhores investimentos de abril

Um ano em um mês
Abril começou com a bolsa em queda com o avanço do coronavírus no mundo e dados econômicos negativos. Logo no início do mês, atingimos mais de 1 milhão de casos confirmados de covid-19 e cerca de 58 mil mortos, com os Estados Unidos se tornando um importante foco da doença e adotando medidas mais duras de isolamento.
O país também anunciou o corte de mais de 700 mil empregos em março e divulgou números fracos na indústria e nos serviços, dando os primeiros sinais do longo inverno que teríamos pela frente. Também vimos contração da atividade na zona do euro.
Arábia Saudita e Rússia, no entanto, começaram a dar indícios de trégua, e a Organização dos Países Exportadores do Petróleo e seus aliados (Opep+) prometeram se reunir novamente para finalmente cortar a produção da commodity.
Na semana seguinte, o Ibovespa conseguiu disparar 11% e o dólar viu queda, com os sinais de uma certa estabilização da curva de contágio do coronavírus na Europa e em certas partes dos EUA. Países duramente castigados pela doença, como Espanha e Itália, apresentavam situação um pouco melhor.
[captacao]
Os mercados também começaram a reagir positivamente aos novos pacotes de estímulo anunciados pelos governos e banco centrais, com destaque para um anúncio, por parte do Fed, o BC americano, da disponibilização de US$ 2,3 trilhões em linhas de crédito.
Além disso, o democrata Bernie Sanders desistiu da sua candidatura à Casa Branca, trazendo um alívio extra no front político, uma vez que Sanders é visto como um candidato radicalmente antimercado.
Já a Opep+ anunciou corte na produção de petróleo, mas em volume menor do que o esperado pelo mercado.
Tensões políticas roubam a cena
Na terceira semana do mês, a tensão política em Brasília, que já vinha desde o início de abril, começou a pesar mais nos mercados. Tivemos a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta no meio do surto de coronavírus, o que pegou bem mal, dado que o ministro era bem avaliado pela população.
O plenário da Câmara também aprovou um pacote de ajuda emergencial a estados e municípios que prometia se tornar uma verdadeira "bomba fiscal" - sem exigir contrapartida dos governos locais, o pacote poderia fazer disparar a dívida pública e o déficit fiscal, piorando ainda mais as contas públicas.
Lá fora, apesar dos dados ruins de emprego e vendas no varejo em março nos EUA, os dados industriais e de balança comercial da China, que já se recupera da pandemia, vieram melhores que o esperado. O PIB do país no primeiro trimestre também caiu menos do que as expectativas apontavam.
Algumas economias importantes, como Itália, Espanha e Alemanha, começaram a falar em relaxamento da quarentena, o que também contribuiu para elevar o ânimo dos investidores.
Quase tivemos mais um circuit breaker
A semana seguinte foi a mais tensa dos mercados. Começou com uma queda brutal do petróleo a patamares nunca antes vistos. O contrato futuro com entrega para maio chegou a ser negociado a preço negativo, algo inédito na história. O motivo é a oferta muito maior que a demanda em razão da crise num momento em que a armazenagem da commodity, sobretudo nos EUA, está praticamente no limite.
No fim da semana, porém, à medida que o petróleo se recuperava, as atenções do mercado foram se voltando para Brasília. O ministro da Justiça Sergio Moro pediu demissão do cargo, alegando interferência de Bolsonaro nas decisões que ele teria carta branca para tomar. O pomo da discórdia foi a nomeação do novo chefe da Polícia Federal.
Ao deixar o cargo, Moro fez sérias acusações a Bolsonaro, que iam desde falsidade ideológica - ele não teria assinado a exoneração de Maurício Valeixo, então diretor-geral da PF, como indicou o Diário Oficial - à tentativa de interferir nas investigações do órgão para benefício do próprio presidente.
A saída de Moro fez o mercado pegar fogo. O ministro era visto como pilar importante do governo, além de ser popular. As acusações feitas por ele também poderiam ensejar a abertura de um processo de impeachment. E o temor era de que o ministro da Economia, Paulo Guedes, fosse o próximo.
Afinal, naquela mesma semana, o governo anunciou um grande projeto de infraestrutura - o pró-Brasil - que não contou com a participação de ninguém da pasta de Economia, dando a impressão de que Guedes vinha sendo escanteado.
No dia 24 de abril, o Ibovespa caiu quase 10% e quase acionou mais uma vez o circuit breaker, mecanismo de paralisação das negociações quando os preços das ações caem demais.
Ainda naquela semana, o Banco Central deu novas indicações de que cortaria novamente a taxa Selic.
Finalmente, depois de tantos acontecimentos, chegamos a esta última semana de um volátil mês de abril, em que parece que os ruídos políticos deram uma amenizada, embora ainda permaneçam no radar.
Bolsonaro fez declarações públicas de apoio ao ministro Guedes, dando um certo alívio ao mercado de que, ao menos por enquanto, ele ainda é o homem forte da Economia.
O Supremo Tribunal Federal, no entanto, ordenou a abertura de inquérito para investigar as acusações de Moro a Bolsonaro, e suspendeu a nomeação do novo chefe da PF, Alexandre Ramagem, o que provocou reações de insatisfação do presidente. O mercado interpretou isso como interferência de um poder em outro.
Tivemos também o início da temporada de balanços das empresas, que divulgam os números do primeiro trimestre, já com alguns efeitos da pandemia, referentes ao mês de março. Por um lado, mais informações para diminuir as incertezas; por outro, os primeiros números não são bons.
Finalmente, o Federal Reserve, banco central americano, resolveu manter os juros zerados, sinalizando que nos pacotes de estímulos poderiam ser lançados para combater a crise.
Impactos nos investimentos
Toda essa montanha-russa de emoções resultou numa forte volatilidade nos mercados de renda variável neste mês, mas no fim das contas eles conseguiram fechar com alta.
A crise política deu uma amenizada, o mercado se anima com a possibilidade de relaxamento da quarentena em alguns países e com as medidas tomadas por governos e bancos centrais no combate à crise.
Com tanta liquidez no mundo e depois das fortes quedas nos preços no mês de março, é até natural que os ativos de risco tenham uma certa recuperação.
Além disso, embora a crise ainda esteja longe do fim, bem como a pandemia, já temos alguns primeiros resultados econômicos para nos dar um norte e permitir aos investidores estimar o que esperar daqui para frente. Em março, o mercado se via totalmente sem parâmetro.
Assim, ações, fundos imobiliários e títulos de dívida de empresas, como as debêntures, deram uma recuperada, embora ainda estejam muito longe de zerar as fortes perdas do ano.
O ouro também se recuperou neste mês, depois de ter se desvalorizado no mês passado, com o movimento geral de venda de ativos que atingiu até mesmo aqueles que são usados como proteção contra crise.
Dólar sobe 35% no ano e pesa sobre os juros
E o dólar prosseguiu no seu movimento de alta, encerrando abril em antes inimagináveis R$ 5,44 no mercado à vista. No ano, a moeda americana já acumula valorização de 35%.
A cotação da divisa é afetada por uma série de fatores. A Selic em seu menor patamar histórico e com perspectivas de cair ainda mais, dada a recessão que nos aguarda, faz com que o diferencial de juros entre Brasil e EUA diminua, reduzindo a atratividade da nossa moeda e das aplicações nos títulos públicos brasileiros para os investidores estrangeiros.
Temos, por isso, visto saída de dólares do país, o que só se agrava com as turbulências políticas, a perspectiva de recessão e a expectativa de agravamento da situação das nossas contas públicas com as medidas de estímulo econômico e provável resgate a estados e municípios.
A alta do dólar pesou sobre os juros futuros de longo prazo em abril, que apresentaram forte alta.
Enquanto os juros curtos, mais afetados pela política monetária, tiveram queda, incorporando as perspectivas para a Selic no curto prazo, os juros longos viram alta, incorporando o aumento do risco-país e uma futura alta de juros que será necessária quando o dólar alto começar a pesar na inflação.
Quando os juros futuros sobem, os títulos públicos prefixados e atrelados à inflação se desvalorizam, notadamente os de longo prazo, que são os mais voláteis. Daí o mau resultado desses papéis no mês.
Quem se recuperou mesmo foi o bitcoin
O ativo que podemos dizer que se recuperou de verdade foi o bitcoin, que não só reverteu as quedas recentes como foi além. O fenômeno do halving, que marca a redução da oferta da criptomoeda no mercado, se aproxima: está marcado para 12 de maio. O halving tende a pressionar a cotação do bitcoin para cima, uma vez que torna o criptoativo mais escasso.
Além disso, no mês passado, vimos muitos investidores se livrarem dos seus bitcoins em busca de liquidez, mas em abril não tivemos este fenômeno. Pelo contrário, especialistas em criptoativos têm uma visão otimista para o bitcoin com a crise do coronavírus: com a liquidez abundante no mundo, as moedas fiduciárias podem acabar perdendo valor com o tempo, o que só vai beneficiar ativos que funcionem como reserva de valor.
E, com oferta necessariamente limitada, o bitcoin poderia desempenhar essa função, mais ou menos da maneira como o ouro desempenhou por muito tempo.
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