Usiminas investe em startups em busca de produtividade e novas fontes de receita
Passada disputa entre os sócios e empenhada em se tornar uma indústria 4.0, a siderúrgica quer "inovação em todas as frentes", afirmou Sergio Leite, presidente da Usiminas

Sergio Leite, presidente da Usiminas, estava em São Paulo no início de setembro para a reunião do conselho da siderúrgica, uma das maiores do país, sediada em Belo Horizonte. O Seu Dinheiro aproveitou a passagem do executivo pela capital paulista para uma entrevista exclusiva.
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Em meio à conversa, uma gafe da repórter: chamei o aço de commodity. Educada e prontamente, Sergio Leite me corrigiu: o aço não é uma commodity, tem valor agregado, e o que é produzido para setores como automotivo ou óleo e gás demanda alta tecnologia.
“Na Usiminas, apenas 20% do que produzimos têm qualidade comercial, isto é, seria precificado como uma commodity em nível internacional. Os outros 80% seguem requisitos de qualidade que tornam o produto diferenciado”, diz o executivo.
Esclarecimentos feitos, Leite explica que o pior da história da Usiminas ficou para trás, mais especificamente entre 2014 e 2018, quando a briga dos sócios – a japonesa Nippon Steel e a ítalo-argentina Ternium – coincidiu com a queda pela demanda de aço no mercado internacional.
O momento exigiu um esforço concentrado do “grupo dos 10”, como foi batizada a elite dos executivos da siderúrgica que promoveu um "turnaround" doméstico na companhia.
“Agora, estamos focando em inovação em todas as frentes”, diz ele.
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A Usiminas criou neste ano a diretoria de inovação e já figura entre as 50 grandes empresas brasileiras com maior interação com startups, segundo ranking da 100 Open Startups, plataforma internacional de geração de negócios entre grandes companhias e novatas. Empenhada em se tornar uma indústria 4.0, a siderúrgica criou um programa para trazer as startups para dentro do seu negócio.
“Na Soluções Usiminas, estamos fazendo um trabalho grande com startups na busca de inovações, queremos fazer diferente e melhor”, diz Leite, referindo-se à unidade da siderúrgica que atua nos mercados de distribuição e processamento de aço – em que o principal produto, definitivamente, não é uma commodity. “Fazemos um atendimento diferenciado, principalmente no setor automotivo, com entregas just em time de peças já cortadas, soldadas, prontas para estampar, para diversas montadoras.”
A companhia pesquisou casos de grandes empresas que encubaram startups e montaram ecossistemas próprios para disseminar a inovação, como é o caso do Cubo do Itaú e do Inovabra do Bradesco. Também abriu um canal de interação com o Serviço Nacional da Indústria (Senai), que conta com 26 institutos de inovação.
Na siderúrgica, o primeiro passo foi mapear 32 desafios para aprimorar a operação em todo o grupo. Destes, 15 foram selecionados e encaminhados a 12 startups, cuja missão foi buscar soluções customizadas.
“Quem entende de siderurgia é quem trabalha na siderurgia. O pessoal dessa geração tem raciocínio acelerado e, quando passa a entender o nosso negócio, consegue atender a demanda de maneira mais rápida e barata”, afirma Cesar Bueno, diretor de inovação da Usiminas. “Com eles, nós cortamos caminho para chegar às soluções”.
As startups receberam entre R$ 50 mil e R$ 150 mil cada uma para desenvolver um projeto piloto. Até o momento, três projetos foram entregues e estão prontos para implantação.
“Se o projeto gerar resultados significativos, vai contar com um valor agregado maior”, diz Bueno. A companhia passa a deter a propriedade intelectual daquela solução, que é desenvolvida de maneira sigilosa pela startup. “É natural que algumas venham a ser incubadas no futuro próximo”, diz Bueno.
A Usiminas mantém os projetos em segredo. Mas o diretor de inovação revela que um dos desafios era pensar a melhor maneira de fazer alocação de cargas em navios – algo que pode pesar nos custos de logística. Era preciso desenvolver um modelo de carregamento de bobinas, placas e chapas a fim de economizar tempo e custos.
Nesse sentido, o modelo precisava identificar quantos e quais equipamentos seriam alocados para preencher determinado número de porões de um navio, com determinada quantidade de carga, no menor prazo possível, para que a empresa ganhasse agilidade no porto.
“Toda a gestão da logística é nossa. Terceirizamos apenas as empresas transportadoras”, diz Sergio Leite, lembrando que a Usiminas tem operações em Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco. “Nós trazemos ideias do ambiente externo por meio das startups, universidades e institutos de pesquisas, mas também estimulamos a geração de ideias internas”, afirma.
Além das startups, a Usiminas deu início neste mês a um programa interno de inovação, em que os funcionários dão ideias para aprimorar os processos, desburocratizar tarefas e melhorar a relação com os cerca de 400 clientes, segundo Leite.

2013 só em 2029
A preocupação da siderúrgica em se abrir às inovações tem sua razão de ser. Sergio Leite conta que, de acordo com um estudo feito pelo Instituto Aço Brasil, o melhor ano para a siderurgia nacional foi 2013. “E consideradas todas as premissas atuais de crescimento do PIB, o consumo de aço no Brasil só chegará a um patamar semelhante ao de 2013 no final da década de 20, ou seja, por volta de 2029”, diz o engenheiro mineiro, que traz na bagagem 43 anos de Usiminas.
Leite, porém, se mantém otimista. “Na minha visão, em algum momento nos próximos 12 meses, nós vamos decolar, atingir um ritmo de crescimento anual entre 2% e 2,5%”, diz Leite – ele próprio um dos principais acionistas da companhia entre os diretores da Usiminas.
Para analistas, as iniciativas da siderúrgica são bem-vindas, mas ainda é difícil quantificá-las. “O setor siderúrgico tem forte correlação com a economia brasileira e, se a conjuntura não ajuda, nada acontece”, diz o analista Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos. A Ativa tem uma recomendação de compra para o papel, com preço-alvo de R$ 11.
As ações PNA da companhia (USIM5) fecharam ontem cotadas a R$ 8,02. “O aumento da demanda nacional em setores estratégicos, como o da linha branca, por exemplo, pode levar o preço da ação a convergir com seu valor intrínseco”, diz.
Para Daniel Sasson, analista do Itaú BBA, é preciso lembrar que, mesmo quando os principais acionistas estavam em litígio, em 2016, a companhia tomou decisões acertadas para o negócio, como o fechamento da área primária de Cubatão, para adequar a produção à demanda menor. Para ele, a aproximação com as startups mostra que a diretoria está em sintonia com a necessária transformação digital para esta indústria, mas os resultados só virão no médio prazo.
“Os dados do setor são pouco animadores no curto prazo, mas é preciso lembrar que, com a retomada da economia, a Usiminas vai ser a siderúrgica mais beneficiada, uma vez que tem 85% dos seus negócios no mercado doméstico”, afirma Sasson.
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